por Ursula Rösele

Carreiras

Que o cinema de Domingos de Oliveira dialoga com o universo de Woody Allen é uma obviedade. Em Carreiras, seu filme mais recente, usa estratégias tanto técnicas quanto narrativas de extrema semelhança, seja no uso dramático do travelling, na proximidade com o teatro, a câmera no tripé, a força no roteiro, a ode à cidade que influencia a narrativa (em Allen, Manhattan; em Domingos, o Rio de Janeiro), a metalinguagem, etc, etc, etc. Iniciar por aí é seguir um caminho que poderia correr o risco de tirar do diretor seus méritos no cinema nacional. Logo em seu princípio, na tradicional conversa de intelectuais e artistas numa mesa (é Brasil, logo, a mesa é de boteco), um deles critica e pontua Woody Allen como um diretor chato.

Diversões à parte, a introdução espirituosa dá ao espectador a possibilidade de imergir no filme para além dos conflitos da personagem Ana Laura, interpretada com muita verve por sua esposa Priscilla Rozenbaum; uma vez que nos convoca à percepção política de muitas questões que vão além de seu universo particular, seja através da apresentação inicial de um filme cujos preceitos partem de uma democratização do cinema nacional, seja através das questões político-sociais que a própria personagem questiona.

Há uma convocação à reflexão para além da história no instante anterior aos créditos iniciais, em que antes de “entrarmos” na narrativa, somos apresentados a informações sobre a produção do filme. Entremeando momentos com sua equipe, produção, claquete, câmera, set, as imagens são divididas entre frases aparentemente do próprio Domingos, informando-nos de que Carreiras foi realizado em digital, em oito dias, sem apoio de lei de incentivo, tendo um custo de cinco a dez vezes menor que outros filmes brasileiros desse porte e que faz parte do espirituoso B.O.A.A. (baixo orçamento e alto astral), como forma de incentivar a democratização do cinema brasileiro. Por esses e outros motivos, Carreiras é um filme que, com algumas ressalvas, cumpre um papel importante no cenário do cinema nacional da atualidade.

O filme estreou no cinema e no mesmo dia foi exibido no Canal Brasil, onde Domingos de Oliveira apresentou um programa de entrevistas de nome homônimo ao seu filme de estréia, Todas as mulheres do mundo, sendo substituído, inclusive, pelo programa atual Todos os homens do mundo, apresentado por Priscilla Rozenbaum. Em entrevista na noite de estréia de Carreiras no Rio de Janeiro, Domingos desabafou: “O que nos resta se não ser ousados. O mercado não sustenta o filme brasileiro, então temos que ser inventivos para trazer o público ao cinema. Para que o milagre aconteça não há regras e o grande milagre será o público pagar para assistir”. * Infelizmente, na sessão que assisti, havia apenas eu e mais duas pessoas.

Em seus muitos méritos, Carreiras inicia com um travelling que acompanha a personagem Ana Laura em momento crítico - que compreenderemos ao final – e é cortado para a cena no bar com os amigos conversando. Ali, Domingos instaura o tom de seu filme: reflete sobre teatro e cinema, sobre as possibilidades e representações de cada arte e, com a frase “luz, câmera, ação”, dita por um dos personagens da cena, o filme se inicia. Carreiras é a adaptação da peça Corpo a Corpo de Oduvaldo Viana Filho e dialoga com o filme La Notte Brava de Mauro Bolognini (roteiro de Pasolini), em momento que a personagem de Rozenbaum diz “Essa é a minha longa noite de loucuras”, nome português para o filme. Estabelece-se em Carreiras uma proximidade entre artes, do teatro com o cinema, e também da influência da mídia e televisão na sociedade.

Ao longo do filme, fica a impressão de uma pequena disputa da câmera com os processos de representação escolhidos (teatro ou cinema?), que variam entre longas seqüências com a câmera no tripé durante os monólogos da protagonista, iluminação constantemente estourada que dá uma idéia de encenação (ainda mais pelo filme se passar em maioria à noite), uso da profundidade de campo, alternando-se em momentos em que a câmera na mão acompanha o surto da protagonista, realiza zooms, closes (principalmente um no momento em que um dos personagens no bar narra uma cena de um filme em que um close o remeteu à sua infância), fast foward, dentre outros. Não se sabe ali se é cinema representado de maneira teatral, ou teatro representado em forma de cinema. A dubiedade acompanha todo o filme, como se restasse a nós espectadores, a resposta.

Carreiras faz metáfora com o processo sufocante que enfrenta o homem contemporâneo ao ser confrontado com as incongruências de sua carreira profissional e as várias ‘carreiras’ de cocaína que suas personagens cheiram ao longo da projeção. Ana Laura é âncora de um programa jornalístico e é preterida em função de pessoas mais jovens, o que a faz literalmente ‘surtar’ em uma noite que decide cheirar todas as carreiras de cocaína possíveis e, em seus telefonemas praticamente ininterruptos, despejar em todos sua raiva pela situação e injustiças profissionais. Ao longo de suas ligações, não há a apresentação dos personagens aos quais ela conversa, evidenciando sua solidão. Não existe ali o clássico plano e contra-plano e Ana Laura anuncia em voz alta todas as respostas recebidas, numa estratégia de informação a nós espectadores que em alguns momentos é extremamente cansativa, corroborando para a seqüência extenuante de acompanharmos sua noite.

A trilha do filme varia em diversos momentos como a “batida” canção Wonderful World de Louis Armstrong pontuando de maneira irônica o travelling que acompanha Ana Laura; a música tocada no cravo enquanto ela encontra sua redenção ou as várias seqüências com música eletrônica representando o sufoco interno da protagonista. Infelizmente, Carreiras descamba para um desfecho por demais ortodoxo no qual a protagonista recebe a merecida compensação por seu trabalho logo após a noite em que tudo estava aparentemente perdido. Tendo em vista a dubiedade da própria personagem, que ora se revolta por uma profissão que aparentemente ama, ora se rebela com o mundo ao qual sua profissão a compele a refletir; este desfecho corrobora em certo sentido para uma idéia de contradição da própria personagem, porém, o excesso redentor e a condescendência total que Ana Laura encontra naqueles para os quais telefona para se desculpar, fazem com que Carreiras perca um pouco de seu brilho.

De qualquer maneira, é louvável a militância de Domingos de Oliveira em prol da insistência pela produção nacional, seja ela através de leis de incentivo ou dos filmes realizados “na marra”. Não sei se Carreiras encherá salas de cinema, tendo em vista que aqui em Belo Horizonte, por exemplo, está sendo exibido em apenas uma sala. Mas de qualquer forma, como nas frases ditas ao início do filme, a experiência está lá “a quem possa interessar”. Espera-se que com essas e outras tentativas dos cineastas, produtores, historiadores e críticos brasileiros, possamos vislumbrar em breve um cinema que não só encontra boa recepção de público em casos como A Grande Família. Ao menos – preteridos aqui os juízos de valor - é um filme nacional que foi muito visto, porém, grande parte da boa produção nacional tem sido preterida. É flagrante também que nossas salas estão todas tomadas pelos blockbusters americanos. Em apenas um final de semana, Quarteto Fantástico e o surfista prateado arrecadou cinco milhões de reais. Algo há de ser feito.

Filmes Citados:
Todas as mulheres do mundo (idem, 1967/Domingos de Oliveira)
Carreiras (idem, 2005/Domingos de Oliveira)
A longa noite de loucuras (La Notte Brava, 1959/Mauro Bolognini)
O Cheiro do Ralo (idem, 2006/Heitor Dhalia)
A Grande Família – o Filme (idem, 2007/Maurício Farias)
O Quarteto Fantástico e o surfista prateado (Fantastic Four: the rise of the silver surfer, 2007/Tim Story)

*Fonte: site Ego