- Agnès Varda – parte 2: diálogos com Eduardo Coutinho
- Agnès Varda – parte 1: divagações para um olhar fotográfico
- Bodas de Papel
- Um Beijo Roubado, ou um passeio pelo cinema de Wong Kar-Wai
- Apenas uma vez (Once)
- Em Paris
- Crítica de cinema: o exercício no durante
- Meu nome não é Johnny
- O Passado
- Route One USA (partes 1 e 2) e Berlim 10/90 – o cinema do desconforto, o documento da transcendência (Robert Kramer)
- Kubrick: de olhos bem abertos
- Zelig
- Cinema no Rio São Francisco/2007 – 1ª Etapa
- Fanny e Alexander - Ingmar Bergman: teatro, sonho, realidade e cinema
- Carreiras
- Crime Delicado, Cão sem Dono e o cinema de Beto Brant
- O Homem que matou o Fascínora
- Soberba e F for Fake: Is this Orson Welles?
- Casa Vazia
- Irreversível e Closer: o “nu e cru” e sua difícil acepção dentro do limite entre a ficção e a realidade

por Ursula Rösele
Kubrick: de olhos bem abertos
A simples idéia de adentrar na mente de um gênio a ponto de conseguir desvendar ao menos parte de seu processo criativo parece tentadora. Imaginar que esta mente pertence a Stanley Kubrick torna a tentativa ainda mais impressionante. O roteirista Frederic Raphael publicou algumas de suas memórias de seu período de adaptação do roteiro de nada mais nada menos que o último filme dirigido por Kubrick, De Olhos bem Fechados, em seu livro entitulado “Kubrick – De Olhos bem Abertos” em 1999.
Raphael escreveu seu livro em formato de roteiro, numa espécie de relato “inconsciente” encontrando momentos interessantes em que o autor conta as situações como um narrador onisciente, descrevendo seus encontros com Kubrick de maneira a relatar as ações e reações de ambos com ponderações que se assemelham a uma narração em off de um filme. Assim ele remonta passo a passo a construção da adaptação do livro “Traumnovelle” (traduzido para o inglês como “Rhapsody: A Dream Novel”) do escritor austríaco Arthur Schnitzler.
Em se tratando de Kubrick, não seria de se esperar uma descrição fiel de sua personalidade, uma vez que o diretor viveu a maior parte de sua vida restrito ao contato de seus próximos. Alguns artigos que anunciaram o lançamento do livro pareceram cometer o mesmo erro que aqueles que anunciaram o filme de Kubrick. Não, o livro não traz “A” grande revelação sobre o diretor, assim como o filme não traz cenas tórridas de sexo entre Tom Cruise e Nicole Kidman.
De qualquer maneira, em seu livro, Raphael traz relatos curiosos de sua rotina de tentativas criativas versus o perfeccionismo incontestável do diretor. Exemplo claro disso, segundo ele, era que Kubrick não queria cenas escritas de maneira que sua filmagem se limitasse à narração descrita. Ele queria um roteiro que permitisse a utilização de imagens que não necessariamente fizessem sentido com a possível narração.
Kubrick interessar-se pelo discurso literário de Schnitzler é compreensível, tendo em vista a característica forte do diretor de “esquivar-se” de sua misantropia através do cinema. Apesar de afastado do convício social, Kubrick parecia ter fascínio pela imersão não somente na mente humana como nas incongruências da sociedade em relação a sexo, relacionamentos, estrutura social. Schnitzler, além de amigo de Sigmund Freud, era um notívago que saía nas ruas de Viena em busca de mulheres para satisfazer seu desejo sexual, até se casar, aos 41 anos. Ao contrário de Kubrick, Schnitzler parece ter vivido sua vida intensamente.
Raphael, em determinado momento, diz do estilo de vida do diretor que “aqueles que não vivem querem ter o poder sobre aqueles que vivem”. Em sua opção misantrópica de vida, Kubrick parecia buscar a compensação de sua “não vivência” através da arte. Que ele o fazia com maestria é indiscutível. Fica a dúvida se em sua jornada ficou algum tipo de vazio existencial. A impressão que Kubrick deixa é de que sua obra dialoga internamente com sua psique (o que parece uma obviedade, claro). Adentrar em sua mente é como divagar sobre o monolito de seu 2001, uma Odisséia no Espaço.
Fica clara a dificuldade do diretor em lidar abertamente com as questões que aprofundava em seus filmes, através dos diálogos transpostos pelo roteirista. Menções ao fato de ser judeu aparecem vez ou outra, juntamente com questionamentos da vida sexual do roteirista nas conversas relativas ao comportamento do protagonista futuramente vivido por Cruise. Segundo Raphael, trabalhar com Kubrick era como enfrentar um grande adversário no xadrez – jogo pelo qual, aliás, o diretor era fascinado.
Há de se reconhecer que – partindo-se do princípio que seus relatos são totalmente verídicos – Raphael teve um trabalho árduo com o diretor. Ficou muito tempo sem saber a natureza dos trechos lidos por ele para a criação do roteiro e somente sabia que o filme tinha de ser rodado em Nova Iorque na contemporaneidade. Assim como suas outras criações, o roteiro levou dois anos para ser finalizado e, por ironia do destino, o diretor morreu logo depois de mostrar a primeira versão do filme ao estúdio.
Fato é que Kubrick fechou sua carreira com uma obra certamente instigante, que – independente das expectativas “juvenis” pelas cenas proibidas do casal protagonista – aprofunda-se nos abismos da mente de um casal de uma maneira que só o diretor parecia capaz de adentrar. Seu final (suspenso como sua própria mente) não soluciona questão nenhuma; só intensifica a imensidão da mente humana. Como já era de se esperar, o diretor deixou uma obra eterna. E há de se concordar com Raphael: “Os imortais também podem morrer”.
Filmes Citados:
De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999/Stanley Kubrick)
2001, uma Odisséia no Espaço (2001, A Space Odissey, 1968/Stanley Kubrick)








