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por Ursula Rösele
Cinema no Rio São Francisco/2007 – 1ª Etapa
Ocorreu dos dias 11 a 25 de agosto últimos, pelo quarto ano consecutivo, o projeto realizado pela Cinear Produções, Cinema no Rio. A equipe saiu em comitiva composta por vinte e cinco pessoas (à exceção da tripulação do barco, composta por mais seis pessoas) rumo a treze sessões de cinema ao ar livre pelas cidades ribeirinhas mineiras Pirapora, Buritizeiro, Barra do Guaicuí, Ibiaí, Ponto Chique, Cachoeira do Manteiga, São Romão, São Francisco, Pedras de Maria da Cruz, Januária, Itacarambi, Matias Cardoso e Manga.
O projeto visa a democratização do cinema para comunidades que não possuem salas de exibição e que, em sua maioria, o contato com a sétima arte é mínimo. Além disso, a equipe se distribui de maneira a possibilitar sua interação com as pessoas das cidades. As vinte e cinco pessoas são divididas em produção, projecionistas, equipe técnica, motorista, antropologia, pesquisa culinária, pesquisa fotográfica, fotógrafo profissional, equipe de filmagem, monitoras da oficina imagem em movimento e assessoria de imprensa, promovida pela empresa de Belo Horizonte, Sinal de Fumaça.
Difícil abster-me de uma análise aproximada do projeto, uma vez que fiz parte da equipe realizando com mais duas pessoas as oficinas de imagem em movimento com as crianças locais. Pela primeira vez fazendo parte desta equipe, acredito que posso propor uma reflexão desse tipo de projeto, sua amplitude e importância não somente para congratulá-lo, como problematizar as dificuldades de imersão cinematográfica em curto prazo para as comunidades que lá ficarão “órfãs” dessa arte por mais um ano. Temos infelizmente um país onde o impulso para o investimento em salas de cinema geralmente se dá em locais mais abastados, em que a ânsia pelo lucro na maioria das vezes suplanta a real necessidade e importância de se levar a arte para localidades que não dispõem de condições mínimas de infra-estrutura e que certamente se veriam modificadas com a possibilidade de expandir sua visão de mundo através do cinema.
Além de três carros alugados para a produção e equipe de filmagem, um caminhão leva todo o aparato técnico para as sessões e oficinas e o restante da equipe segue no barco Luminar. Todos os dias a equipe faz a viagem de uma cidade a outra e logo no momento de chegada a pesquisadora da culinária local, os antropólogos e os pesquisadores fotográficos saem em busca de contato com a população. Este ano, o Cinema no Rio fez o mesmo trajeto do ano passado, o que possibilitou à equipe que já conhecia as cidades o reencontro com as pessoas, assim como a percepção das mudanças ocorridas no decorrer de um projeto a outro.
À tarde, a equipe da oficina imagem em movimento faz uma atividade que visa o ensino dos princípios da animação para o cinema com as crianças. São desenvolvidos pelas mesmas dois brinquedos óticos, taumatrópio e flip book. O taumatrópio produz a ilusão de ótica a partir de dois desenhos complementares em uma folha dura, que, com seu movimento dá-se a impressão de que ambos estão na mesma folha. O flip book possibilita uma percepção ainda mais apurada da ilusão de movimento a partir da produção de um desenho em diversas folhas que, alternando-se as posições e/ou lugares, tem-se a impressão de que o objeto desenhado está em movimento.
Durante todo o dia, a equipe de filmagem registra imagens e depoimentos da comunidade para a produção de um vídeo institucional. No ano anterior, a equipe realizou treze vídeos de aproximadamente cinco minutos de duração sobre cada cidade para serem exibidos no início da sessão à noite. O responsável por esses vídeos e curador dos filmes exibidos este ano é o cineasta mineiro Helvécio Marins (curadoria realizada com o coordenador do projeto, Inácio Neves).
Aproveitando a época de comemoração folclórica das localidades, foram escolhidos quatro curtas de animação da série ‘Juro que vi’, realizados por um grupo de animadores da empresa MultiRio e alunos da rede municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro. Os curtas são Matinta Perera, O Boto, Curupira e Iara. Além deles, outros três curtas-metragens (estes em live-action): Nascente (de Helvécio Marins), Da Janela do meu Quarto (de Cao Guimarães) e Cega Seca (de Sofia Federico). Os longas metragens escolhidos foram O ano em que meus pais saíram de férias, Tapete Vermelho, Narradores de Javé, Abril Despedaçado, O fim e o princípio e Doutores da Alegria. Os filmes são exibidos em DVD e 35mm numa tela inflável de nove por sete metros.
A simples chegada do barco na cidade já é motivo de mudança. As crianças esperam à margem, sendo que muitas delas viveram a experiência no ano passado. Durante os trajetos, a equipe rememora cada local pelos nomes das pessoas que as marcaram, seja pelas características da culinária, pelas histórias contidas em cada fotografia coletada, pelas crianças que muitas vezes surgem como grandes talentos no desenho e os olhares estupefatos para a tela grande que instiga sensações muitas vezes escondidas em cada um ali. Em algumas cidades, as pessoas lembravam o nome do filme que assistiram no ano anterior, se interessavam pelo que veriam ali e perguntavam se ficaríamos mais tempo, se voltaríamos à cidade novamente. As sessões escondiam reações imprevisíveis, seja na identificação com as personagens retratadas, seja na dificuldade de imergir em um enquadramento que, por sua especificidade artística poderia até causar estranheza.
A escolha dos filmes exibidos ali se configura certamente como um desafio. A impossibilidade estrutural de manter-se presente nas comunidades durante todo o ano como forma de tornar a relação com cinema mais aproximada, possibilitando um apuro artístico maior, traz a questão: que tipo de filme passar? Se pensarmos na clássica reação à primeira exibição de cinema promovida pelos irmãos Lumiére do trem chegando à estação, podemos, talvez, vislumbrar a linha tênue que separa o desejo de promover uma relação artística aprofundada e a necessidade de precaver-se quanto a estímulos para os quais aquelas pessoas não são emocional e intelectualmente preparadas para receber. Existe uma dificuldade entre a tentativa de propor uma exibição que fuja aos padrões televisivos e a escolha por alguns títulos em que a narrativa clássica não se vê tão presente.
Nesta edição, há dois documentários dentre os filmes: Doutores da Alegria e O fim e o princípio. O primeiro mostra o grupo Doutores da Alegria, formado por atores vestidos de palhaço que entretém equipe médica e crianças em estado terminal nos hospitais. O segundo traz as histórias contadas por diversas famílias residentes no sertão da Paraíba. Pôde-se notar certa disparidade na relação dos espectadores com ambos os filmes. Doutores da Alegria trata-se de uma realidade distante - ainda que em narrativa de não tão difícil apreensão – o que ocasionou dificuldade na relação do público com o filme. Já o documentário de Eduardo Coutinho obteve melhor recepção, talvez por se tratar de um tipo de abordagem que a própria equipe de filmagem busca alcançar, que é a de encontrar particularidades e questões representativas dos locais como forma de possibilitar a identificação do público com o filme que estão a assistir.
Acredito serem necessários esses experimentos com a linguagem oferecida ao público, pois, não se pode subestimar a capacidade daquelas pessoas de encontrar diálogo em universos que não aqueles com os quais estão habituados a conviver. Foi o caso de O ano em que meus pais saíram de férias, filme mais cosmopolita, que dialoga com o período da ditadura através do olhar inocente de uma criança fascinada com futebol. A visão pretensamente inocente proposta pelo filme, acaba por problematizar com propriedade e sentimento uma questão política importantíssima para o país. Tapete Vermelho, de todos eles, é o filme mais “redondo” da lista, com uma linguagem mais próxima da televisiva, mas a proposta de homenagear o cinema e a busca pelo mesmo através de uma figura caipira tão distanciada da sétima arte como aqueles que o assistiram ali.
Narradores de Javé traz a preocupação com a manutenção da história e dos costumes da cidade de Javé, que se vê às vias do extermínio devido à implantação de uma usina hidrelétrica que a inundará por completo. Parte da equipe do cinema no rio pôde conhecer situação semelhante na cidade Cachoeira do Manteiga, que encontra-se em situação de risco devido à presença de um gás natural, que já chamou atenção de autoridades que provavelmente apropriar-se-ão muito em breve da reserva. Além disso, o filme preserva a pureza de uma cidade praticamente sem contato com o mundo exterior, o que possibilita um diálogo muito estreito com as cidades visitadas pelo Cinema no Rio. Abril Despedaçado é outro filme com essas características, porém, possui uma estrutura estética e imagética em que a visualidade tenha tanta ou mais importância que o conteúdo textual. Ambos os filmes foram muito bem recebidos pela platéia, que encontrou diálogo mesmo com as diferentes abordagens de cada um deles.
Já os curtas metragens escolhidos tratavam mais do silêncio e da contemplação, trazendo narrativas um pouco mais complexas, porém, passíveis de serem experimentadas, principalmente por sua pequena duração. Nascente, de Helvécio Marins, apesar de ter sido todo trabalhado em rios (Arrudas, Rio das Velhas e Rio São Francisco) e representar algo que faz parte da rotina daquelas pessoas, possui um caráter experimental de percepção daquele ambiente através das lentes cuidadosas do diretor, que divagam pela metáfora do rio que vem da corrosão das cidades até a catarse promovida pelo encontro com o mar. Experimento necessário e, repito, ainda mais emocionante se pudéssemos construir um trabalho de fixação e compreensão maior da cultura cinematográfica para desenvolver ali naquelas comunidades o olhar artístico que possibilitasse a bela experiência de transcendência de si próprio que o cinema pode promover.
O filme de Cao Guimarães, dotado de todas suas particularidades de olhar o mundo através da subjetividade capaz de captar a essência e pureza de momentos singelos que, em tese, não guardam grandes segredos, foi uma surpresa agradabilíssima. Da janela do meu quarto é o olhar literal do diretor em uma janela, a observar duas crianças brincando/brigando na chuva. As crianças ali presentes à sessão reagiram ao curta com uma exaltação emocionante ao torcerem pelos “personagens” que estavam ali, imersos em um momento tão seu, que jamais poderiam vislumbrar que aquela abstração se tornaria um registro passível de tanta identificação.
Os curtas de animação, trabalhando a identidade folclórica já incentivada nas comunidades locais, também não possuíam diálogos. Através da trilha e, a exemplo de Matinta Perera, uma belíssima fotografia, os filmes propunham a percepção narrativa através da sugestão e não da narrativa implícita. Todos continham narração em off inicial e final, para exemplificar os “causos” daquelas figuras míticas, com o fechamento que convocava à imaginação: “juro que vi”.
Este ano, o projeto Cinema no Rio trouxe como novidades a pesquisa fotográfica e culinária. Pretende-se transformá-las em livros no futuro, que visam eternizar não apenas a passagem da equipe pelas cidades, como a essência de cada lugar que guarda certamente particularidades merecedoras de uma memória concreta. Foram coletadas mais de duas mil fotografias antigas das cidades e pessoas e um sem-número de histórias contidas em cada um daqueles retratos. Há em cada lugar daquele, narradores de Pirapora, Buritizeiro, Barra do Guaicuí, Ibiaí, Ponto Chique, Cachoeira do Manteiga, São Romão, São Francisco, Pedras de Maria da Cruz, Januária, Itacarambi, Matias Cardoso e Manga; e na lembrança contida ali, a afirmação impossível de se contestar: juramos que vimos.
Na penúltima cidade visitada, a oficina de imagem em movimento ganhou um presente impressionante. Professoras de toda a região pediram para aprender os brinquedos óticos ensinados ali. As monitoras foram à escola municipal de Matias Cardoso para promover e receber de volta, uma bela aula. Mais de trinta professoras desenharam seus próprios taumatrópios e flip books, numa tentativa de plantar a semente que pretendemos colher no próximo ano.
É um projeto de caráter humano incontestável, no qual o ganho está na troca de vida. A equipe chega de barco e leva de volta tanta poesia, tanta vivência, tantos ensinamentos, que é difícil dizer qual das partes recebe mais. Ao final dos quinze dias, fica o “até logo” saudoso ao barco Luminar e a vontade do retorno breve e do reencontro com aquelas “fatias de vida” que, tenho certeza, qualquer cineasta teria prazer em registrar.
Filmes Citados:
Matinta Perera (idem, 2002/2006/Humberto Avelar e Sérgio Glenes)
O Boto (idem,2002/2006/Humberto Avelar e Sérgio Glenes)
Curupira (idem, 2002/2006/Humberto Avelar e Sérgio Glenes)
Iara (idem, 2002/2006/Humberto Avelar e Sérgio Glenes)
Narradores de Javé (idem, 2003/Eliane Caffé)
Doutores da Alegria (idem, 2005/Mara Mourão)
Abril Despedaçado (idem, 2001/Walter Salles)
O fim e o princípio (idem, 2005/Eduardo Coutinho)
O ano em que meus pais saíram de férias (idem, 2006/Cao Hamburger)
Tapete Vermelho (idem, 2006/Luiz Alberto Pereira)
Cega Seca (idem, 2003/Sofia Federico)
Da Janela do meu quarto (idem, 2004/Cao Guimarães)
Nascente (idem, 2005/Helvécio Marins)








