por Ursula Rösele

Bodas de Papel

O diretor André Sturm tem uma trajetória interessante no mercado cinematográfico brasileiro. Começou sua carreira como cineclubista na Fundação Getúlio Vargas para em seguida investir na direção de curtas-metragens e no mercado cinematográfico com a distribuidora Pandora Filmes. Em 2001 dirigiu seu primeiro longa, Sonhos Tropicais, baseado em livro homônimo de Moacyr Scliar.

 

Seu mais recente filme, Bodas de Papel, estreou há alguns dias em Belo Horizonte. Apesar da carreira militante e do investimento na entrada de importantes filmes no Brasil, Sturm fez de Bodas de Papel uma experiência extremamente decepcionante. Não bastasse um roteiro praticamente falido em sua vazia abordagem, Sturm segue um caminho que beira o non sense devido à forma como trata a linguagem (?) de seu filme. Sua aparente intenção de refinamento se mistura num desconexo, uma vez que se utiliza de estratégias de linguagem que não se conectam e parecem perdidas em meio a diferentes abordagens que mesclam movimentos de câmera estranhos, alternância de tripé para câmera na mão que não parecem dialogar em absoluto com a narrativa e escolhas no mínimo curiosas de enquadramento.

 

A base de sua história é o acaso. Uma antiga moradora da cidade de Candeias no interior de São Paulo (interpretada pela estreante no cinema, Helena Ranaldi) retorna após uma possível evacuação dos moradores devido à construção de uma hidrelétrica. Com o seu cancelamento, a cidade inicia um processo de repovoar seu território, reformar as casas, etc. Nina (Helena Ranaldi) volta para Candeias com o objetivo de retomar o antigo hotel de seu avô e conhece Miguel (Dario Grandinetti, ator de Fale com Ela) num acaso repetido verbalmente ad eternum através do termo "serendipity" (uma feliz descoberta feita a partir de alguma situação aleatória – muitas vezes em si negativa - que resulta, ao fim, em algum ganho objetivo ou potencial).

 

Tendo como pano de fundo alguns flashbacks da tal história dos príncipes de Serendipity que Nina relembra, Bodas de Papel segue seu caminho num descompasso total da câmera, que hora fica fixa no tripé, hora parte para devaneios na mão totalmente desconexos. Além disso, os enquadramentos não parecem seguir nem sequer uma idéia de quebra proposital de normalidade – tendo em vista um aparente desejo de narrativa clássica devido à história "redonda" – uma vez que parecem deslocados, desproporcionais e posicionados no lugar que parece ser o mais equivocado dentre todos os disponíveis no set.

 

Há uma tentativa de retomar uma história fabular que remeta ao romantismo, num mergulho que – não haveria problema algum ser feito – não deveria temer os clichês do gênero se apresentasse uma abordagem mais rica, ao invés de um sem-número de falas esquemáticas (como na cena em que Nina está irritadiça e Miguel dispara: "o quê há com você, está de TPM?") e cortes abruptos de uma cena para outra. A forma escolhida por Sturm para desenvolver sua narrativa passa uma sensação de insegurança no trato da abordagem, pois na tentativa desesperada de informar o espectador, o filme parece uma colcha de retalhos com pequenas cenas que ou não se conectam com harmonia, ou soam extremamente desnecessárias.

 

Não parece ter havido apuro na decupagem do filme, como na cena deslocada de Miguel com sua melhor amiga: ela entra em quadro enquanto ele conta, feliz, ter conhecido uma mulher fenomenal. Após ouvir numa desatenção tristemente explicitada, ela diz que ele teria de contar o restante do caso depois, pois ela somente tinha entrado na sala para pegar uns papéis. Essa falta de leveza para compor a informação causa diversas quebras na narrativa, uma vez que somos conduzidos variadas vezes por inserções como essa, que certamente poderiam ser solucionadas de maneira mais harmônica.

 

Mas não somente de falhas no roteiro se faz Bodas de Papel. O filme deixa uma impressão que André Sturm, apesar de seu importante papel no cinema nacional, não possui muito talento para a condução fílmica. Sua insegurança fica explícita no caminhar descompassado de Bodas de Papel. Um filme que passeia pelo fabular, mas que não se arrisca nos clichês do gênero (como, por exemplo, o faz brilhantemente Reichenbach em Falsa Loura); que se pretende ousado, mas não demonstra reflexão e coerência na escolha das imagens; que abusa de escolhas e infelizmente resulta numa impressionante falta de ritmo.

 

Falta cor a Bodas de Papel. Por se tratar de um longa cujo mote maior são os sentimentos, um ideal romântico de amor, o filme falha justamente em sua incapacidade de transportar essa doçura ao espectador. Temos, portanto, um filme com boas intenções, mas muito infeliz nas escolhas ou profundo despreparo para fazê-las.

 

Filmes Citados:

Fale com Ela (Hable con Ella, 2002/Pedro Almodóvar)

Sonhos Tropicais (idem, 2001/André Sturm)

Bodas de Papel (idem, 2008/André Sturm)

Falsa Loura (idem, 2007/Carlos Reichenbach)