por Ursula Rösele

Um Beijo Roubado, ou um passeio pelo cinema de Wong Kar-Wai

“É verdade que a câmera cinematográfica revelou novos mundos, até então escondidos de nós: como a alma dos objetos, o ritmo das multidões, a linguagem secreta das coisas mudas”. (Béla Balázs)

 

O cineasta Wong Kar-Wai nasceu em Xangai e imigrou aos cinco anos com os pais para Hong Kong. A obrigação de conviver com o cantonês falado lá, estranho para a criança habituada ao chinês de Xangai, pode ter sido uma das razões para a criação de um ideal simbólico no qual Kar-Wai construiu um cinema em que o imagético está para além das barreiras do idioma, do falado, do texto.

 

Em entrevista para Laurent Tirard, Kar-Wai disse que sua mãe o levava com constância aos cinemas e sua irritação pelas dificuldades da língua se amenizaram, uma vez que ele se viu defronte uma imensidão narrativa que muitas vezes dispensaria as palavras. Dessa forma, nasceu um cinema identificável com poucos instantes de projeção. Falar de Kar-Wai, ao invés de escrever uma crítica formal sobre seu último filme, Um Beijo Roubado, foi uma escolha tomada na medida em que me vi com certa dificuldade de atribuir ao filme certo fracasso ou considerá-lo como uma experiência menor diante de um cinema com momentos tão inspirados como o dele.

 

Este “estrangeiro” de Xangai, já habituado a Hong Kong, saiu de terras orientais para escalar um elenco entre o cool e o cult (talvez ambas as denominações) em terras americanas, no idioma americano e com um roteiro discutível sob diversos pontos de vista. Havia ali a presença de suas cores fortes, do simbolismo dos objetos, do trato metafórico com os vidros, o paladar, a desaceleração da câmera. Mas, por alguma razão que ao fim da projeção me escapou, me recusei a acreditar que aquela experiência era meramente estranha, óbvia, um pouco pueril, ao invés de escolhas propositais por algo que pudesse nos dar a entender essa “fragilidade”.

 

Saí, portanto, em busca de revisitas para tentar compreender o que já me parecia a clássica condescendência a que somos acometidos quando assistimos a estratégias que nos fogem um pouco às identificações imediatas de um cinema que julgamos conhecer e admiramos muito. Passeei por Felizes Juntos, 2046, A Mão (episódio de Eros), Amores Expressos, Viajei 9 mil km para dar isto a você (episódio de Cada um com seu cinema).

 

O que encontrei foi um cinema quase “palpável”, ainda que ele se mantenha de certa forma distante de seus próprios personagens. Ruy Gardnier disse certa vez sobre o cinema de Kar-Wai e o lugar em que ele se pontua (uma Hong Kong recheada de informações) que, já que ali, “(...) todas as coisas "significam" mais do que as pessoas, o que resta é realizar uma nova economia do indivíduo: por isso seus personagens solitários, extremamente necessitados de relacionamentos, mas que nunca conseguem levá-los muito longe”. Nessa “economia”, Kar-Wai se debruça num trato do enquadramento, da luz, da cor, dos objetos, que preenche como forma aparentemente compensatória. Seus personagens se esgueiram por entre os luminosos de hotéis (2046), os quartos com paredes repletas de papéis coloridos, móveis, pouco espaço (Amor à flor da pele), aparecem tantas vezes não totalmente enquadrados, como nas já-clássicas cenas em que falam ao telefone e somente vemos parte de seus quadris e suas mãos.

 

Cena do filme 2046

Cena do Filme 2046

 

Há ali um claro vazio em seus personagens, não necessariamente um vazio do intelecto, que nem é explorado para que possamos chegar a esta conclusão, mas um vazio na maioria das vezes causado pelo que parece mover o seu cinema: o amor, seja ele pelo poder da imagem, seja ele pelo que gera em termos de busca, na angústia que causa pela sua ausência, o desejo de seu retorno. Há uma busca incessante pelas reminiscências, tantas vezes muito mais fruto de idealizações do passado, que uma idéia racional e pragmática sobre ele, nessa característica tão humana que nos faz lamentá-lo, como se o que não se pode mais ter/tocar fosse muito melhor que o possível.

 

Kar-Wai construiu um lugar em que os objetos exercem uma presença mais marcante, quase “falam” mais que seus personagens. No abajur de Felizes Juntos, na sopa de Amor à flor da pele, no doce de abacaxi em Amores Expressos, no quarto 2046 em 2046, na idéia das chaves em Um Beijo Roubado. Neste último, apesar das chaves, da torta de mirtilo (nome em português para a fruta que deu nome ao filme, “blueberry”), o foco maior desta vez não necessariamente se dá apenas nesses ‘objetos’, mas no que a personagem de Norah Jones representa, pois, uma vez que ela se ausenta física e emocionalmente de seu lugar (metafórico e literal), ela mesma exerce esse “papel” de objeto no filme. Ela sai da posição de protagonista para agir como observador do ambiente que a circunda, saindo de cena (através da mudança de cidade e emprego) toda vez que sua intervenção, fala ou presença nos devolve a atenção a ela novamente.

 

Um Beijo Roubado traça um caminho um pouco diferente de seus outros filmes, apesar de em alguns aspectos dialogar com 2046. Kar-Wai criou uma espécie de road movie para ilustrar essa busca metafórica pelo reencontro com seu próprio caminho. Em 2046 o personagem faz uma viagem, mas uma viagem através do tempo, aludindo a uma espécie de road movie futurista. Não há necessariamente uma trajetória aos moldes do road movie tradicional, claro, mas uma busca, sempre uma busca por algo que muitas vezes fica difuso dentre a predominância dos elementos não-humanos e dos simbolismos que expressam mais que os diálogos de seu roteiro.

 

O personagem de 2046 está envolto em uma realidade paralela na qual muitas vezes nós mesmos não conseguimos distinguir o quê ali de fato acontece com os personagens e o quê o personagem “cria” como acontecimento. Tenta-se sair de 2046 em busca de reminiscências, para com elas descobrir-se uma vez amado por aquele amor idealizado, cujo segredo ficou guardado/preso no buraco daquela árvore. Ali, Kar-Wai trabalha de forma belíssima o poder da ficção de mudar destinos, trajetórias. Em uma das cenas mais poéticas do filme, após a andróide (robô/objeto dotado de sentimentos) fazer o papel da árvore para a qual ele poderia contar seus segredos, ela atinge uma capacidade humana, quando se lembra de um amor do passado e decide de alguma forma reencontrar-se com suas memórias, olhando fixamente para um vidro enquanto o filme nos conta através de cartelas quanto tempo se passou naquela espera. Paralelamente, o escritor paralisa-se com sua caneta que quase encosta no papel e tanto tempo também se passa ali sem que ele, o criador, encontre forças para mudar o destino daquele amor não consumado. O amor dele, o amor que construiu para a andróide (representação metafórica da mulher para a qual aquela história estava inspirada), naquela realidade paralela de sua escrita. 

 

 

Andróide em 2046

 Andróide em 2046

 

Ali, esta idéia do vidro, do personagem (ou também o espectador) que observa através da janela, como se o objeto se sobrepusesse ao homem, expondo suas barreiras intransponíveis. Volto então a Amores Expressos, nos momentos em que a garota da lanchonete limpa com firmeza o vidro, enquanto observa por ele o reflexo do homem que almeja, durante seu relato de um outro amor. E em Um Beijo Roubado, na bela cena do personagem de Jude Law com seu amor perdido (a russa interpretada pela cantora Cat Power), somos convidados a observá-lo livrando-se de uma reminiscência do lado de dentro da lanchonete, através do vidro. Belíssimas escolhas, uma vez que podemos pensar nesses “reflexos” como uma projeção da realidade, reflexos de idealizações ou da dificuldade dos personagens de Kar-Wai de atingirem seus objetivos.  

 

 

Jude Law e Cate Power em Um Beijo Roubado

Jude Law e Cat Power em Um Beijo Roubado

 

Daí uma forte diferença entre seus filmes anteriores e Um Beijo Roubado, cujo roteiro não deixa muito espaço para a sutileza, o metafórico, os não-ditos. Seria um Wong Kar-Wai em terreno desconhecido ou, quem sabe, um transitar do oriente para o ocidente, onde os conflitos são mais explícitos e a verbalização se faz mais necessária que os silêncios metafóricos? Seria esse excesso de simplicidade de abordagem uma estratégia proposital e talvez até provocadora ou, parafraseando André Bazin, "o filme que eu vi é melhor que o dele’?

 

Fato é que Kar-Wai construiu um filme com menores implicitudes, no qual os conflitos apresentam-se de forma mais superficial, talvez pela explicitação literal através da fraqueza do roteiro, talvez pela pouca exploração de elementos que – apesar de presentes em certa medida – não serviram de maneira tão contundente para o todo como de costume. O filme se dilui através de pequenos esquetes que envolvem questões de terceiros, que não necessariamente transformam a trajetória da personagem de Norah Jones, mas, talvez inclusive pelo caráter efêmero de suas construções, encaminham a narrativa rumo a uma leveza, um final feliz num estilo mais aproximado do cinema clássico hollywoodiano.

 

De toda forma, o aparente vazio de Um Beijo Roubado não me parece totalmente fortuito ou falha de um cineasta ao transitar por outros terrenos. Dessa vez, a escolha do lugar – que segundo ele geralmente vem antes da escrita do roteiro – deu vazão a outros tipos de explorações, de intempéries. Diferentemente da maioria de seus outros filmes, em Um Beijo Roubado a batalha é para esquecer, fugir dos processos da memória. As cartelas seguem pragmaticamente na informação de um tempo que avança de acordo com a idéia de livrar-se dos objetos, de tudo aquilo que simboliza lembrança. Ali está um Wong Kar-Wai distanciando-se do metafórico e indo de encontro a um momento literal (ainda que lúdico), encadeado em um beijo (infeliz tradução do título no Brasil) que – apesar de conter os pragmatismos clássicos de um tempo desconhecido a vir - dispensa a melancolia tradicional de um cinema que já disse e ainda tem tanto a dizer.

 

Filmes Citados:

Amores Expressos (Chungking Express, 1994/Wong Kar-Wai)

Felizes Juntos (Happy Together, 1997/ Wong Kar-Wai)

Amor à Flor da Pele (In the Mood for love, 2000/ Wong Kar-Wai)

2046 (2046, 2004/ Wong Kar-Wai)

A Mão – Episódio de Eros (The Hand, 2004/ Wong Kar-Wai)

Viajei 9 mil quilômetros para dar isto a você – Episódio de Cada um com seu Cinema (Chacun son Cinema, 2007/ Wong Kar-Wai)

Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, 2007/ Wong Kar-Wai)

 

Livro Citado:

Grandes Diretores de Cinema (Laurent Tirard, 2006/Editora Nova Fronteira)