por Ursula Rösele

Apenas uma vez (Once)

 

Apenas uma vez é um filme de iniciativa independente, rodado em três semanas na Irlanda. Pode-se dizer dele que é um musical moderno, no qual as canções fazem parte da narrativa. O filme não se adequa aos preceitos de um musical clássico em que a dança e a música fazem parte da encenação, mas curiosamente aqui elas são o condutor maior, talvez ainda mais forte que a pretensa imersão que se aguarda no universo dos personagens, dos quais nem sequer sabemos os nomes. Há também certo caráter documental, uma vez que o uso de câmera na mão durante todo o “olhar” por aquele momento narrado e a forma como se dá essa captação de imagens, a crueza técnica, a impressão de naturalidade na qual os diálogos se dão numa forma aparentemente não premeditada, possibilitam um olhar para Apenas uma vez não tão simplista como se imagina deste tipo de filme.

O filme passeia entre uma estrutura de musical, por vezes assemelhando-se ao videoclipe, na medida em que se insere em alguns instantes da vida de um músico que toca seu violão nas ruas da Irlanda e de uma garota tcheca que realiza alguns pequenos trabalhos também na rua e se identifica com suas canções. Apesar de tudo indicar um tipo de filme que recai sobre as aparentes facilidades do melodrama ao apresentar a rotina desse ‘casal’, Apenas uma vez é um filme que se posiciona entre a sobriedade e uma visão primaveril (no bom sentido) em sua condução narrativa. Existe uma iminência de romance que irrompe de certa forma nas canções, mas que se mantém no terreno da maturidade (principalmente da personagem feminina), uma vez que, com o passar do tempo, percebemos ser não um filme de amor, mas sobre o amor.

As canções, portanto, auxiliam a construção desse clima, num toque catártico-tímido parecido com o do cantor (também irlandês) Damien Rice, na medida em que há esse tom de “balada romântica”, aliado a um tipo de melancolia por um romance desfeito, um ideal de amor desconstruído. Apesar de tudo indicar um teor quase depressivo, o filme possui um tipo de doçura, em momentos em que o diretor parece não ter se importado muito em construir um roteiro complexo com diálogos reflexivos. O filme se dá na medida em que aquele casal encontra sua sintonia musical, numa levada por vezes dura da câmera, que se dilui tornando-se mais leve durante a interpretação das canções.

Há algumas semelhanças à seqüência Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol, de Richard Linklater, apesar de Carney apostar numa estrutura (possivelmente advinda de seu baixo orçamento) mais seca, com a câmera na mão praticamente todo o tempo e uma fotografia granulada. Não se sabe os nomes daquelas duas pessoas, assim como não se aprofunda em suas questões internas. Sabe-se de um amor ferido por outra mulher que inspirou aquelas canções, de um marido que por algum motivo está distante e de uma mãe que parece talvez o lado mais onisciente, porém, apesar de compreender a língua inglesa, não se esforça por falá-la ou traduzir seus pensamentos em tcheco.

Linklater trabalhou com a idéia seqüencial de um encontro efêmero entre duas pessoas que tinham muitas palavras a dividir. Já Carney parece imerso num processo criativo advindo dessas decepções amorosas, portanto, esse encontro entre o casal é meio “truncado” a princípio, meio sem jeito. Não há tanto espaço para diálogos, para o conhecimento da rotina e dos pensamentos que permeavam aqueles dois, apenas um desejo de desaguar seus sentimentos através da música. Linklater nos permite caminhar com seus dois personagens na medida em que nos identificamos com aquele tipo de abordagem, mas Carney não parece tão preocupado em nos levar para aquele universo através desse processo de identificação; a sua câmera também acompanha os passos de seus personagens, mas há diversos momentos em que eles prenunciam uma separação iminente mais pragmática que a do casal Delpy-Hawke.

A música carro-chefe do filme diz “I don´t know you, but I want you” (não te conheço, mas te desejo). O desconhecimento se torna um tipo de premissa. Há, talvez, espaço para idealizações de um romance, mas de certa forma, apesar de seus momentos doces, o filme tem um tipo de comedimento que o torna ainda mais interessante. Não por exalar impossibilidades e inconcretudes de um ideal de amor falido, mas por conseguir construir sutileza na percepção de que podem existir compensações para além da entrega ao desejo físico. Existe um sentimento no ar, o rapaz – assim como a sua forma de interpretar as canções – é o lado mais passional e a moça - apesar de demonstrar sua necessidade feminina de carinho e paixão - não abandona a lucidez de sua maturidade precoce. Sempre tem de ir embora, pois tem suas responsabilidades. “Apenas uma vez” (com o perdão do trocadilho não intencional), portanto, eles se permitem esse mergulho na paixão, através da catarse das gravações do primeiro (e aparentemente único) CD demo da dupla.

A música no filme exerce um papel ‘complementar’ ao roteiro. As letras das canções parecem dizer o que o roteiro do filme não permite. O ápice dos diálogos, do desaguar em palavras está naquelas “falas”. As canções, portanto, são a ação maior do filme. E Apenas uma vez parece ser um musical sobre o processo de crescimento para a vida. Pequeno, discreto, mas permanece de alguma forma depois de sua projeção.

Fillmes Citados:

Apenas uma vez (Once, 2006/John Carney)

Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995/Richard Linklater)

Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004/Richard Linklater)