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por Ursula Rösele
Crítica de cinema: o exercício no durante
“A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto da obra de arte.” (André Bazin)
Escrever sobre a arte – ou reflexo que dela se tem – de escrever. Escrever, ainda mais, em meio à complexa relação que se estabelece entre a própria arte e aquele que dela se apropria para construir uma visão que, inevitavelmente, pode ser chamada de meramente subjetiva. Criticar, no sentido não tão estrito, mas extenso da palavra, as questões estéticas e de linguagem de uma construção na qual os lugares internos do criador tantas vezes propiciam uma impressão de transcendência daquele autor, como se muito do seu interior desaguasse para fora da tela. E esses lugares serão, portanto, representados para um outro grupo imenso - e muitas vezes uma parcela tão ínfima - de outros seres e suas mandíbulas.
A simples idéia de ir à arte alheia e transformá-la para além do que é, numa interpretação de um todo que depende de tantas outras coisas, torna o exercício da crítica cinematográfica uma profissão que em muitos casos traz ao filme objeto da análise um tipo de possibilidade que reafirma a condição não-estática, de uma arte – em tantos momentos - fascinante de se ver e com um potencial imenso para aquele que a verbaliza, uma vez que prova não ser um fim em si mesmo.
Criticar um filme (e claro, nem todos eles nos inspiram tanto suor) é um ato que em si conjuga idéias múltiplas de um ser/estar no mundo, já tão estigmatizado por aqueles que empobrecem o ofício na idéia simplista de que o crítico seria, então, o cineasta frustrado que – por não suceder-se bem na arte de fazer – pôs-se a ponderar sobre aqueles que fazem cinema. Apropriar-me-ei de uma idéia pontuada pelo editor do site que “vos fala” em entrevista concedida há poucos dias: não estaria o crítico (alguns deles ao menos) - em seu ato de imergir e tornar aquele filme algo para além do que ele já é – também fazendo cinema?
Entraria aí uma idéia filosófica já há muito difundida que mergulha sobre essa questão da transformação da arte. Seria a arte um fim em si mesmo ou um sem-fim mutante que se torna, retorna, reinventa, à medida que recebe cada múltiplo olhar que a observa? Estaria um filme fadado a uma transmissão única de um objetivo pré-estabelecido pelos seus criadores ou é um produto artístico que – à exposição do primeiro olhar – jamais retorna ao seu lugar inicial? Na amplitude propiciada pelo mergulho nesse tipo de reflexão, coloca-se também um importantíssimo papel da crítica cinematográfica através de um processo de reflexão e estudo, quando se compreende que a análise sobre um filme pode sair do juízo do gosto pessoal para o estudo aprofundado ou ao menos que assim se deseja, mais por paixão que por vaidade, sê-lo.
Na imensidão possibilitada por esse tipo de reflexão do entorno da arte cinematográfica e da análise sobre ela, e na tentativa de refletir sobre os temas que norteiam esta edição especial que não somente comemora o primeiro ano da revista Filmes Polvo, como inaugura uma iniciativa de trazer para Belo Horizonte a reflexão sobre a relação entre a crítica e a realização, decidi refletir sobre essa idéia do exercitar a crítica durante um processo de aprendizado em que – claro, é inerente a todos nós – construímos diariamente um conhecimento maior acerca do objeto estudado.
A revista iniciou-se há pouco mais de um ano, já numa imersão em terrenos de coberturas, nos quais sua equipe – àquela época toda composta por estudantes da mesma escola de cinema de BH – assistiu a todas as sessões e fez críticas de todos os longas, curtas e vídeos da 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Estava ali plantada uma semente da militância que hoje podemos comprovar com muita satisfação, ao conseguirmos reunir nomes tão ilustres para discutirem não somente o papel do crítico (principalmente de revistas eletrônicas de cinema), como o tal lugar a se ocupar ao sair do terreno da análise para colocar-se à mercê de ser analisado pela sua criação cinematográfica.
Nessa experiência do exercício durante o aprendizado, alguns integrantes do site puderam experimentar um processo de certa forma “inverso” de construção dessa profissão de críticos de cinema. Muitos ali haviam dirigido seu primeiro curta num curso experimental no qual a turma produz um filme em 16mm ao final do semestre. Dali saíram pessoas interessadas em imergir no estudo cinematográfico para entrarem quase um ano depois na revista Filmes Polvo. Estamos, portanto, num processo fascinante de construção de conhecimento exercitado diariamente na necessidade de escrever não somente sobre o filme que mais nos diz pessoalmente, como de sair desse lugar “cômodo” para encontrar desafios extremamente enriquecedores no processo do tornar-se um crítico de cinema.
Então me coloquei a difícil tarefa de responder (ou filosofar) uma pergunta ao tentar um tipo de finalização para este texto: por que escrever sobre cinema?
Num embarque catártico e pessoal eu diria que escrevo porque não saberia fazer outra coisa na vida se não escrevesse. Preciso da escrita para dela instaurar outros lugares. Escrevo sobre cinema então, porque talvez o cinema consiga conjugar um lugar no mundo com intenções imagéticas que independem da palavra para dizerem-se. Pois o cinema une muito das outras artes e por vezes se utiliza delas em sua estrutura, até por ser essa arte tão nova e por tantas vezes passar uma idéia de que logo em seus primórdios consagrou mestres que esgotaram suas possibilidades de abordagem e inventividade.
E ao mesmo tempo, conseguir – nesse talvez re-caminho – instaurar novos lugares internos daquele que assiste e daquele responsável por construir uma análise que tornará aquele filme um outro e outro e outro. Pois talvez impere a máxima já dita que o filme que o crítico vê, muitas vezes, é melhor que o filme que o próprio diretor enxergava. Pois talvez não houvesse um olhar sobre Hitchcock nos EUA se não fosse Truffaut, Chabrol e Rohmer. E talvez não houvesse cinema sem Griffith e Eisenstein, já críticos por excelência, estudiosos por excelência, construtores – intuitiva ou sistematicamente - de uma arte àquela época tão nova e por muitos considerada esgotada pelos próprios homens que a destrincharam.
Não escondo a relutância pelo ideal talvez sonhador de um cinema ainda capaz de atingir outros lugares, mesmo que passando tantas vezes pelos mesmos caminhos. Ainda mais tendo fresca a sensação tão belamente pontuada por uma espectadora de que o filme “aurora” de Ivo Lopes Araújo (Sábado à Noite, exibido na 11ª Mostra de Tiradentes) nos dá a oportunidade de descansarmos nosso olhar. De termos visto ali tantos novos nomes, dividindo seus pensamentos com aqueles que escreviam sobre seus filmes e ouvindo do público suas próprias divagações.
Talvez essa crítica da qual tanto me referi, seja também uma crítica em seu momento “aurora”. Do dicionário: “claridade precursora do nascer do Sol”. E das nossas aspirações, o lugar de onde podemos enfim nos livrar de nós mesmos e buscar um além-ser que poderá, enfim, na construção de seus próprios filmes, instaurar a possibilidade de outras transformações. Convido-os, portanto, não somente à Mostra que encabeça esta edição, mas a conjugarem conosco esses lugares tantos que o Cinema pode ocupar enquanto cada um desenvolve sua visão permitindo sair dela para deixar-se enredar nesse eterno “durante” e trilhar os tantos lugares que a arte nos permite.
Sejam bem vindos.








