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por Ursula Rösele
Um Dia na Vida – material de pesquisa para um filme futuro


“Ou seja, eis aonde chegamos: se
os piratas não distribuírem, não haverá distribuição alguma.” (Inácio Araújo) Um
filme-registro sobre a televisão brasileira. Ou, como prefere Eduardo Coutinho,
um troço, uma coisa, como quisermos chamar. Um
dia na vida nasceu com morte prevista, mas vem sendo revisitado pelo meio
crítico, cinéfilo e acadêmico em sessões “secretas”. Primeira condição: que
seja exibido em uma sala de cinema ou, no mínimo, um espaço no qual possa ser
projetado com alguma qualidade digna de uma experiência cinematográfica; a
segunda condição é que não seja cobrado nenhum ingresso, além de não haver
divulgação em meios de comunicação. Estamos
falando de 93 minutos de um apanhado de imagens que Coutinho e sua equipe
gravaram do dia 1º para o dia 2 de outubro de 2009 – quando a experiência de Moscou ainda estava recente na cabeça do
diretor. Algo que fica na mente ao assistirmos esta coletânea recolhida de seis
emissoras de TV é que, apesar da aparente ausência de Coutinho, o diretor está por
ali, rodeando aquelas imagens a partir de um ideário reconhecível a quem
acompanha sua carreira. Se em Moscou já se havia dito que ele se
ausentou por completo da obra, este troço estranho que nem assinado é (não há
créditos, apenas o título e uma cartela explicando o procedimento de filmagem –
19 horas de gravação da programação do dia da Rede Globo, TV Record, CNT, TV
Brasil, MTV e Bandeirantes), traz uma nova perspectiva do olhar de Coutinho, na
qual se abandona a locação, a entrevista e a presença física de entrevistados
para dar espaço a uma compilação de imagens que em alguma medida refletem os
olhares daqueles com os quais o diretor se encontrou ao longo de sua
filmografia, visto que foram recolhidas de emissoras da TV aberta e programas
sensacionalistas que em geral têm grande audiência. Em
sessão única em BH, Coutinho, sentado sozinho no palco e sem o cigarro, seu
fiel escudeiro, conversou com a platéia por quase duas horas. Sua ânsia de
reinventar-se a cada obra que realiza é visível e, ainda que Um dia na vida tenha sido apresentado
como uma pesquisa para um filme futuro, muito já se pode dizer a seu respeito,
além de um fato inusitado: o diretor acompanha as projeções e oferece um debate
ao final, pois julga este um movimento essencial do ritual de se assistir a Um dia na vida. Este filme-coisa, como batizou Inácio Araújo,
vem repleto de inquietação. Disseram por aí que é uma obra que prima pela
não-intervenção. Hei de discordar, visto que existe um recorte, uma montagem, e
mesmo alguns momentos de decupagem dentro dos programas (mais visível no
programa da Márcia Goldschmidt). O filme
sofre da impossibilidade de exibição visto que custaria milhões devido aos
direitos autorais e a mesma certamente seria vetada por grande parte dos
diretores das emissoras, pois ainda que sem intervenção explícita de Coutinho,
há ali um inventário da televisão brasileira e, por que não dizer, de grande
parcela da população e todas suas incongruências, hipocrisias e primitivismos. Além
das questões teórico-filosóficas que o filme levanta, é uma obra que aponta
para os absurdos das leis de direito autoral no Brasil. É uma ironia pensarmos
que estas imagens fazem parte da TV aberta e estão disponíveis ao apertar de um
botão. Consumi-las sim, é passível. Assisti-las sob um viés crítico e cinematográfico
não. O cineasta Billy Wilder disse certa vez que adorava a televisão: “Antes
dela sempre se dizia que o cinema era a arte mais vagabunda que existia. Agora
já estamos em segundo lugar”. O
curioso disso tudo é que esta impossibilidade de ser visto certamente
proporcionará ao filme uma visibilidade que muito provavelmente Moscou não teve. Em BH Coutinho provocou
os pesquisadores da comunicação especialistas em recepção, ao dizer que falta
no meio acadêmico um olhar que venha de fora para dentro; que represente de
fato uma longa pesquisa com aqueles que recebem as imagens televisivas
diariamente, para além de embasamentos ancorados somente em Guy Debords da
vida. Esta é uma questão que ressoa em seu filme, pois, como o próprio diretor
disse depois da exibição, o documentário é um meio que nasceu e morrerá
marginal, logo, ironicamente, Um dia na
vida está fadado justamente aos olhares teóricos e críticos. A resposta que
o interessa, do público, digamos, acrítico - que consome novelas, programas
sobre o crime no país, e toda a gama de imagens que seu filme expõe em tela
grande -, é uma incógnita. A
condição colocada por Coutinho, de que Um
dia na vida seja exibido somente em uma sala escura e tela grande,
proporcionam, sem dúvida, uma experiência notável. Uma hora e meia de uma
complicação que segue a ordem cronológica dos programas – de um telecurso às
seis da manhã a um – dos muitos – programa religioso no início da madrugada. Há
duas recorrências no cinema de Coutinho: música (99% das vezes cantada pelos
entrevistados, pois o diretor não costuma usar trilha sonora) e religião. Seu
próximo filme, aliás, é o resultado de uma experiência protagonizada por Laura
Liuzzi, no qual a produtora ergueu uma placa no largo da Carioca (RJ)
convidando os passantes a cantarem uma música que marcou suas vidas. A religião
permeia sua filmografia por todos os cantos. Em Santa Marta – Duas Semanas no Morro, Santo Forte, O Fim e o
Princípio ou Jogo de Cena, a
questão sempre aparece, seja pelos entrevistados ou provocada pelo próprio
diretor. Uma de
suas assinaturas em Um Dia na Vida está
no fato de o diretor não transpor o processo de zapping para o cinema. Ele montou e interferiu na ordem daquelas
imagens, mas também as deixou durar. O filme nos faz respirar televisão através
de um processo que respira cinema a todo tempo. Por mais insuportável (ou
excentricamente interessante) que seja ficar dois, três, quatro minutos
assistindo à apresentadora Ana Maria Braga tocando “You give love a bad name”
de Bon Jovi no jogo “Rock Band” (ou algo semelhante), Coutinho deixa a cena
durar e esta duração, na lógica televisiva, é algo em si impossível. Inácio
Araújo comenta algo do tipo em um dos textos que escreveu sobre o filme: “A TV, notamos agora,
faz barulho todo o tempo. É alta. Ela precisa ser alta porque a maior parte do
tempo o espectador nem assiste aos programas. Faz outras coisas. O ruído é que
lhe faz companhia”. O título também é
carregado de significados, visto que Coutinho mencionou que, além de achá-lo
bonito, lembrou-se de um filme homônimo italiano de 1946 do diretor Alessandro
Blasetti. Em Un Giorno nella Vita, um
convento de freiras é invadido por um grupo de partisans italianos que as estupram. Em Um dia na vida, Coutinho reuniu imagens que denotam todo tipo de
violência, desde a mais deflagrada (em programas policiais que se alimentam de
crimes hediondos e sensacionalismo) a cenas em que qualquer possibilidade de
exercício do intelecto é violada. Em seu filme Coutinho não mostra freiras, mas
reúne uma série de cenas tétricas de programas religiosos que mostram reações
em massa dignas de governos totalitários e diversas situações de profunda
degradação da mulher. Seja na sequência em
que o decadente Wagner Montes mostra cenas absurdas de um homem espancando uma
mulher no meio da rua e dá uma “aula” de como um homem deve fazer para evitar
bater em uma mulher; seja em um programa que mostra duas mulheres de biquíni
fazendo um papel ridículo em meio a um mangue no qual elas devem catar caranguejos,
Um dia na vida é todo permeado por
circunstâncias em que a mulher é exposta e permite que o seja, como é o caso do
quadro “Espelho Meu”, do programa da Márcia, na TV Bandeirantes. Na sequência mantida
por Coutinho uma jovem é escolhida para participar deste quadro, no qual ela
receberia tratamentos estéticos (inclusive com várias intervenções cirúrgicas)
para deixar de ser “a mulher mais feia do mundo”. A perspectiva da
mulher via montagem de Coutinho dessa seleção de programas é um compêndio
tétrico, no qual, ou ela apanha ou se reconstrói, ou exibe seu corpo escultural
ou disfarça suas imperfeições através de uma cinta, ou é fofoqueira, noveleira,
ou é uma criança precoce (Maísa) – sem pausas, sem respiro, sem voz. Há uma lógica da execução neste olhar de
Coutinho para a televisão brasileira. Nela a ordem é matar o demônio, bater na
mulher, executar o assaltante, reanimar o baleado, capturar, matar e comer o
caranguejo, aniquilar a infância ao transformá-la em comércio. O diretor faz uma
espécie de compilação do apocalipse, na qual, retirando-se da cena retorna as
questões para nós, porém, aqueles os quais o interessa ouvir, seguem apenas
como receptores daquelas imagens, pois caberá somente a nós, críticos, teóricos,
estudantes e acadêmicos vivenciar esta experiência reconfigurada, visto que Um dia na vida está fadado aos círculos
fechados. A sequência final, retirada do programa Fala que eu te escuto da Rede Record é uma bela conclusão desta
pesquisa para um filme futuro: após os apresentadores falarem dos males da
“jogatina” e dizerem que pessoas que vivem imersas em jogos como o bingo
deveriam receber tratamento psiquiátrico, eles colocam um copo d´água em cima
de uma mesa e através de um movimento de zoom
a câmera se aproxima. Coutinho interfere
diretamente na cena de uma maneira incrível: deixa o silêncio durar e traz um
respiro enigmático para seu filme. Apesar de sua crítica aos “Debordianos”, o
diretor registrou um dia na vida de pessoas que não sabemos ao certo quem são,
porém, um dia digno das profecias de Guy Debord: de uma sociedade do espetáculo
que prima por uma espécie de auto-canibalismo no qual praticamente não há
resquícios de humanidade e reflexão. Filme Citado: Um dia na vida
(2011/Eduardo Coutinho)







