por Ursula Rösele

Arrested Development, Modern Family e The Office: a câmera como personagem e o ator como personagem de um pretenso mundo real

 

Em tempo de excessos de virtualidades, em que nos vemos filmados em todos os lugares com o sarcástico convite de sorrir para a câmera, e nos colocamos disponíveis em redes sociais que se proliferam a cada dia como blogs, fotoblogs, twitter, youtube, messenger, orkut, facebook, etc...a ideia de ser visto já não parece tão estranha mais. A grande maioria das pessoas, aliás, nutre uma necessidade quase patológica de dar notícias sobre si e o universo ao seu redor a todo tempo. As tais máscaras sociais que criamos (já tão discutidas na psicologia, sociologia, comunicação) para o mundo agora não se encontram apenas em nossos rostos, mas nas telas de qualquer computador/celular/Ipad/não sei mais o quê que suporte um www.

Provavelmente no universo inóspito e caótico do livro 1984 (1949) de George Orwell ou no filme Alphaville (1965) de Godard, apesar do desencanto imanente, não se parecia supor que ao invés do condicionamento às regras impostas aos habitantes de ambos os países retratados nas obras, viveríamos um dia em uma sociedade que iria aderir de tal maneira à ideia da vigília constante a ponto de não se contentar com as imagens capturadas nas ruas, câmeras de vigilância, elevadores, lojas, etc; e viver num processo de registro diário de tudo. Não vivemos mais no presente, mas na utopia tecnológica da eternidade. Vide o longa Pacific (textos aqui e aqui) de Marcelo Pedroso e o curtas Luz Industrial Mágica (texto aqui) de Kleber Mendonça Filho e Flash Happy Society (texto aqui), de Guto Parente.

É possível que Orwell esteja revirando no túmulo por ter seu nome “Big Brother” (ditador da fictícia Oceania, de 1984, que nunca aparece pessoalmente, mas em telas de televisão instaladas em todo o país, pelas quais controla a sociedade – seus pensamentos, atitudes, sentimentos) associado ao Reality Show que dispensa apresentações formais - e não é nenhum desvario afirmar que hoje, para a maioria das pessoas, “Big Brother” foi um “conceito” criado pela Endemol (empresa criadora do programa). O charme de Janela Indiscreta foi para o ralo, o conceito de voyeur é balbuciado à revelia por toda parte e nem sequer nos damos conta mais da ideia de privacidade e preservação de nossa individualidade.  

Neste panorama catastrófico ainda podemos ver algumas manifestações artísticas e de entretenimento que lidam de maneira interessante com a circunstância de mundo em que vivemos na contemporaneidade. Como já discutido em alguns textos aqui nesta coluna, o cinema documentário tem apresentado interessantes estratégias de manipulação do real, explicitação da cena que o filme apresente, as quais nos acostumamos a atribuir “verdade”, “realidade”, e trazem para seus contextos ricos momentos de reflexão e problematização dessas questões de retratação do outro, de filmar a si mesmo. Podemos citar alguns exemplos (afora os já citados acima), como Rua de Mão Dupla (Cao Guimarães), Santiago (João Moreira Salles), O Homem Urso (Werner Herzog), O Prisioneiro da Grade de Ferro (Paulo Sacramento), dentre outros. O cinema de blockbuster também já aderiu à ideia, como no espanhol Rec (Jaume Balagueró e Paco Plaza), em que a protagonista é uma jornalista que, no meio de uma reportagem com o corpo de bombeiros local, fica presa em um prédio com o cinegrafista e todo o filme é registrado a partir da câmera jornalística.

São filmes que lidam com a ideia do autorregistro (Rua de Mão Dupla), de pensar no significado de registrar o outro (Santiago), de como a misantropia e a presença de uma câmera podem revelar um estado de loucura (O Homem Urso); ou como nos filmes mencionados anteriormente, em que se problematiza de maneiras diversas a obsessão do homem contemporâneo pelo registro total e indiscriminado de tudo que ocorre a seu redor.

No âmbito do entretenimento, três séries de televisão trazem a questão do registro de diferentes (e também similares) formas, de maneira irônica, satírica e esteticamente instigante. São elas: Arrested Development (2003, Mitchell Hurwitz), The Office (2005 – Ricky Gervais/versão britânica e 2005 – Greg Daniels, Ricky Gervais e Stephen Merchant - versão Americana) e Modern Family (2009 – Steven Levitan e Christopher Lloyd). Todas possuem a estrutura do mockumentary (em ingles, falso documentário) ou docsoap (termo que alude a soap opera). No cinema existem diversos exemplos de mockumentaries, como This is a Spinal Tap (Rob Reiner), Um Assaltante bem Trapalhão,  Zelig (Woody Allen) e Borat (Larry Charles), para citar alguns.

Estas séries se diferenciam do conceito de sitcom, que alude a programas curtos de comédia, em que os episódios não necessariamente são dependentes entre si em termos de argumento e possuem aquelas irritantes risadas de fundo – que não cabem aqui, uma vez que nessas três séries existe uma câmera onisciente e sua presença é sabida pelos personagens.

Arrested Development



Arrested Development, em relação às outras duas, não possui depoimentos para a câmera. É narrada de forma onisciente por Ron Howard, que também é um de seus produtores executivos. Seu argumento é simples: Michael Bluth é viúvo e tem um filho (Michael Cera, de Superbad) e após a prisão de seu pai por irregularidades em sua empresa de contabilidade, é obrigado a cuidar dos membros de sua família – clássicos loosers que não fazem a menor ideia de como lidar com a recente perda de dinheiro. Em seu primeiro episódio, os personagens são apresentados pelo narrador e assim que se aproximam da câmera, a imagem se congela por segundos e seus nomes aparecem na tela.

À medida que a história é contada, imagens de arquivo da própria família e fotografias auxiliam a narração de Howard. Das três, Arrested é a que mais se assemelha a um mockumentary, uma vez que é narrada, tem a apresentação formal dos personagens e possui um material de arquivo. No entanto, ainda que sua filmagem seja realizada com câmera na mão numa alusão de um operador que os segue a todo momento, apenas eventualmente alguns personagens olham diretamente para ela.

 

The Office


The Office
é uma série britânica criada por Ricky Gervais para a BBC de Londres, que ganhou uma versão americana bastante fiel ao modelo inglês, com a exceção da clássica diferença do tipo de humor dos dois países e de que, afora o primeiro episódio, possuem roteiros diferentes, ainda que baseados nos mesmos princípios narrativos. Gervais é David Brent, gerente de uma empresa de papéis e comanda seu escritório em Slough. Em resumo, é um idiota completo, e toda a rotina desta empresa é registrada por uma câmera que serve basicamente como um personagem, porém, nós jamais vemos o seu operador.

O curioso é que sua presença jamais é explicada ao espectador e desde o início da série os personagens se dirigem a ela com frequência e fazem diversos depoimentos, sempre em relação ao trabalho, colegas de empresa e algumas questões pessoais que vão surgindo. O mais interessante desta estrutura é que vemos ali aludida a questão do saber-se filmado, que acompanha os diversos estudos acerca do cinema documentário, porém, como se trata de um mockumentary, a força da atuação está voltada para o fato de encenarem o próprio ato de ser filmado e suas incongruências, manipulações e desconfortos. Há a suposição de um mundo real, uma circunstância que é verdadeira ali naquele contexto e a câmera faz parte de sua diegese, como se eles estivessem – no início – interagindo com um suposto repórter, mas com o tempo, a câmera passa a fazer parte dos momentos íntimos, secretos dos personagens.

Na versão americana Steve Carell é o gerente regional da Dunder Mifflin, também uma empresa de papel. Diferentemente da versão inglesa, em seu primeiro episódio o personagem de Carell apresenta a empresa para a câmera, conta seu cargo e interage com ela a todo momento, como que a mostrar “serviço”, exaltando-se como um bom chefe e relatando o bom funcionamento da filial que gerencia. Aqui temos mais forte a ideia de um documento, um registro sendo feito com algum fim, porém, esse objetivo também não é revelado (ao menos até o momento: a série está em sua 7ª temporada atualmente) e acompanhamos algumas alterações na relação dos personagens com a câmera. Nos primeiros episódios ela serve como um espaço de depoimentos acerca do ambiente de trabalho e parece incomodar alguns personagens por segui-los frequentemente. Com o passar do tempo, eles passam a agir com maior naturalidade e a câmera se torna um confidente.

Todas as imagens que vemos vêm desta câmera e diversos enquadramentos são feitos entre móveis do escritório, atrás das plantas, escondidos no corredor, do lado de fora da janela da sala de Carell, da janela do escritório para o estacionamento do prédio. A nós, espectadores, é concedido o direito de saber de tudo o que o câmera consegue capturar. Vemos os planos abertos em que os personagens interagem entre eles, além de diversos closes e planos aproximados em que acompanhamos as reações dos mesmos aos acontecimentos. Carell se dirige à câmera com frequência e de todos, inclusive pelo fato de interpretar um perfeito boçal, é o que mais “atua”, age de uma maneira quando percebe a câmera e de outra quando não se sabe filmado por ela. Um dos funcionários, Jim Halpert (John Krasinski) lida com este registro de maneira diferenciada, potencializando a câmera como um personagem através da forma com que interage com ela. Desde o início a encara nos momentos em que Michael Scott (Carell) ou algum outro personagem fala ou faz uma bobagem. Em sua auto mise-en-scène, Jim se torna um tipo de protagonista daquela situação que está dentro da série que nós assistimos.



Apesar de Arrested Development ter sido criada antes de The Office, esta última faz uso da estratégia de uma maneira ainda mais instigante, pois nos permite um envolvimento diferenciado com a trama, além de lidar com essa questão da presença de câmeras em todo lugar de maneira satírica e esteticamente rica. Estamos acostumados com formatos enlatados de séries em que o texto se sobrepõe de maneira pobre à mise-en-scène (à exceção de algumas pérolas, como Seinfeld e Twin Peaks, por exemplo) e o fazer rir é apenas um mecanismo de robotização do espectador.

Com isso não se pretende dizer que estas séries dão um passo, digamos, de riqueza artística em sua realização, mas propõem uma potencialização do meio televisivo para além da mesmice e da inação do espectador. Claro que o fato dos atores interagirem com a câmera não significa que esta estrutura será problematizada, pois ao menos nessas três obras o que prevalece ainda é a sátira. Porém, ao saírem de um estado uniformizado de narrativa, dão ao meio um respiro de um pouco mais de vigor.


Modern Family



Criada em 2009, Modern Family é também um registro feito com um objetivo que desconhecemos – talvez a ideia de acompanhar a rotina de uma família “moderna” – porém, com uma diferença básica de The Office: durante a rotina dos personagens eles não interagem a todo tempo com a câmera, apenas fazem depoimentos para ela, e os mesmos são intercalados entre as cenas de seu dia a dia.

Esta família é dividida em três núcleos: o pai/avô (Ed O’Neill), casado com uma colombiana e mora com ela e o filho (também colombiano e um mini-gentleman); a filha (Julie Bowen), seu marido e três filhos (uma patricinha estúpida, uma jovem nerd e o caçula, um garoto tapado que se entala nos lugares, bebe detergente por engano, etc); e o filho, casado com um outro homem e os dois têm uma filha adotiva, nativa do Vietnã.

Se em The Office alguns personagens se mostram de fato incomodados com a presença da câmera, em Modern Family isto é um pouco diferente, uma vez que eles não se mostram acanhados pela sua presença e olham diretamente para ela muito raramente, - como em Arrested Development - e em diversas vezes existem enquadramentos que subentendem a ausência desta câmera-registro, como quando eles estão dentro do carro e os vemos do vidro da frente. Em seu primeiro episódio, a apresentação dos personagens se dá a cada entrevista, quando seus nomes aparecem na tela, como por exemplo, no depoimento de Phil e Claire, onde vemos os nomes e a informação de que são casados há 16 anos.

Este tipo de comédia é deveras interessante, uma vez que amplia o potencial criativo e humorístico de seus personagens, que têm a difícil tarefa de atuarem normalmente nas sequências de suas vidas e agirem como se tivessem sendo entrevistados em uma situação real. Em The Office os personagens fazem alguns questionamentos para o “operador”, quando se sentem coagidos pelas perguntas (que não sabemos quais foram), como “por quê você me pergunta tanto se eu e fulana ainda estamos namorando?”, frase de um episódio recente da série. Em Modern Family, cuja estrutura é mais livre (pois supostamente os personagens não estão sendo constantemente seguidos pela câmera), vemos por vezes os mesmos reagirem com timidez ou constrangimento diante deste “entrevistador”, devido a alguma atitude que tiveram e já vimos na cena anterior.

A estrutura documental é muito interessante e quando pensamos no estilo clássico do cinema documentário, fica mais clara a percepção de toda uma estrutura manipulativa, que tem sido problematizada em diversos filmes contemporâneos, como Filmefobia (Kiko Goifman), Santiago (João Moreira Salles), Juízo (Maria Augusta Ramos) e Jogo de Cena (Eduardo Coutinho), por exemplo. A omissão da pergunta, a utilização de cartelas, de uma montagem que nos conduz a um suposto objetivo prévio do diretor e os depoimentos sendo colocados em determinada ordem, são as bases de alguns documentários de estrutura clássica, como Nanook do Norte, Ônibus 174, Caro Francis, Vinícius, dentre inúmeros outros.

Estas séries, portanto, vêm para possibilitar um refresco de uma estrutura fechada e ampliar o potencial cômico das mesmas para uma circunstância em que vemos os personagens em situação de desabafo, auto-análise ou avaliação do comportamento do outro. Em alguma medida, um “Big Brother” menos depreciativo e mais divertido, ao menos. Mais interessante seria pensar que dão um passo no sentido de surgirem outras propostas que façam uso dessas estratégias de maneira mais crítica e política.

*Apesar de ter se restringido apenas a três séries contemporâneas, existem outras produções que se assemelham em algumas medidas a esses formatos, como The Day Today, Parks and Recreation, dentre diversos outros que podem ser encontrados na internet.

 

Séries e Filmes Citados:
Alphaville (idem, 1965/Jean-Luc Godard)
Pacific (2009/Marcelo Pedroso)
Luz Industrial Mágica (2009/Kleber Mendonça Filho)
Flash Happy Society (2009/Guto Parente)
Janela Indiscreta (Rear Window, 1954/Alfred Hitchcock)
REC (idem, 2007/Jaume Balagueró e Paco Plaza)
Rua de Mão Dupla (2002/Cao Guimarães)
Santiago (2007/João Moreira Salles)
O Homem Urso (The Grizzly Man, 2005/Werner Herzog)
O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003/Paulo Sacramento)
Superbad (idem, 2007/Greg Mottola)
This is a Spinal Tap (idem, 1984/Rob Reiner)
Um Assaltante bem Trapalhão (Take the money and run, 1969/Woody Allen)
 Zelig (idem, 1983/Woody Allen)
Borat (idem, 2006/Larry Charles)

 

Livro Citado:
1984 (1949/George Orwell)