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por Ursula Rösele
“Uncle Boonmee” e “O Último Mestre do Ar”: o outro lado ou um lado só

As circunstâncias são curiosas. Escrevo este texto para a 37ª edição da Filmes Polvo de Augsburg, cidade ao sul da Alemanha. Mesmo antes de sair do Brasil, já tinha em mente o desejo de assistir ao novo filme de M. Night Shyamalan e talvez escrever algo sobre ele, sua carreira, a trajetória que vem seguindo e as opiniões que se diversificam ao seu redor, alternando-se muitas vezes entre amor e ódio profundos. Paralelamente a isso – e sem a menor intenção de compará-los - vem Apichatpong Weerasethakul, cujo nome complexo até há pouco era desconhecido da maioria e, graças a seu prêmio no Festival de Cannes deste ano, veio à tona para que pudéssemos ter mais contato com sua instigante obra em salas de cinema.
Ainda não lançado no Brasil, para se chegar a Apichatpong era necessária uma investigação cuidadosa do que havia sido dito, seja na Cahiers du Cinèma e outras publicações internacionais, seja através de críticos e cinéfilos brasileiros que têm feito uma busca constante por este cinema, que vemos agora alcançar uma parcela do mercado brasileiro depois de alguma notoriedade internacional – ainda dependente de premiações e esforços da imprensa. Já Shyamalan, como sabemos, conquistou admiração do público com O Sexto Sentido, recebeu inúmeros e cuidadosos olhares para seus lançamentos posteriores e de uns tempos para cá vem dividindo opiniões, que variam entre reflexões mais sérias e desvarios furiosos.
Shyamalan e Apichatpong se encontram em lugares muito diversos em suas carreiras e possuem filmografiasimpregnadas das particularidades de cada um e também bem diferentes entre si. Mas existe uma inquietude, um olhar para o mundo que procura ir além de nossas limitações racionais, carnais, religiosas, que não necessariamente os posiciona num mesmo lugar, mas nos convoca a reflexões mais complexas que as que vemos em grande parte do cinema contemporâneo. Escrever um texto sobre as obras recentes de ambos não é de maneira alguma querer posicioná-las em um mesmo lugar. Até porque se configura tarefa difícil mesmo construir uma única linha criativa dentro de suas próprias criações.
Elas estão juntas neste texto primeiramente pelas circunstâncias em que as vi e também pela necessidade de traçar um olhar a este tailandês que tem sido tão pensado em meios críticos, acadêmicos, jornalísticos; e este indiano radicado nos Estados Unidos, que tem trafegado entre o amor e ódio profundo daqueles que vêm acompanhando suas criações.
O Último Mestre do Ar é um filme que reúne todos os elementos fundamentais da natureza e coloca os homens não como diminutos diante disso, mas como dobradores, ou seja, pessoas que podem dominar esses elementos de alguma maneira. A essência dessa questão, como em aparentemente toda obra de Shyamalan até o momento, é de certa maneira simples: os seres habitantes deste lugar, na ausência daquele capaz de dominar todos os elementos e manter um equilíbrio entre os povos, se perdem. Shyamalan parecia buscar, até o momento, questões que em si eram produto de uma dicotomia, geralmente pairando entre vida e morte, crença e racionalidade: homem vivo x homem morto, ser humano x super-herói, homem x alienígenas, homem x urbanidade, vida x fábula, homem x natureza.
Já Apichatpong tem trazido questões ainda mais profundas e com seu Uncle Boonmee realiza uma obra que torna difícil, até para quem busca pensar o cinema crítica e estudiosamente, qualquer avaliação (confiram texto-desabafo do polvo Marcelo Miranda sobre o filme aqui). Se Shyamalan nos coloca – em seu filme recente – já de pronto em uma história na qual já devemos entrar sem questionamentos de sua verossimilhança com o mundo “real”, Apichatpong conduz sua câmera pacificamente neste universo em que fantasmas interagem naturalmente com os vivos e um monstro da floresta se apresenta como membro da família e todos interagem numa mesa de jantar. 
Como questionar aquilo que simplesmente está ali, da maneira que é (a árvore é, o animal é, os homens são)? E o mais incrível é que, da maneira com que o diretor posiciona estes elementos em cena e insere seres e presenças difíceis até de descrever (como o filho do personagem que ressurge como uma espécie de monstro da floresta ou um jovem budista que vê seu duplo no quarto), somos colocados na complexa posição de aceitar este todo de que é feito aquele universo, pois ele nos é quase palpável, dada a força de seus sons, de seus silêncios e a naturalidade com que esses elementos se compactuam em cena.
Um detalhe que não podemos ignorar é que nem Shyamalan, nem Apichatpong trazem ou parecem ter a pretensão de trazer respostas às questões que vemos em seus filmes. Elas lá estão, como parte integrante de nossa condição de estar vivo. Tocar no que não sabemos parece ser em parte admitir que a apreensão do mundo está muito além de nossas capacidades.
Shyamalan, no entanto, fez um filme longe da densidade estética ou das belas emulações hitchcockianas de suas sequências anteriores. O dobrador de ar é o avatar, em ano da produção milionária que parece ter roubado seu título inicial, que seria justamente este. Shyamalan disponibilizou uma versão 3D, foi para o fantasioso profundo e fez um filme que à primeira vista parece não guardar o que vinha sendo feito até então, mas não podemos ignorar que o diretor deixou, desta vez, a força simbólica do que é pontuado no filme de uma maneira indubitavelmente merecedora de atenção. Morte e vida não estão aqui como questões fundadoras. Nem a religião ou a dúvida de que possa haver seres “de outro mundo” são necessariamente colocados; assim como não há questionamentos em relação ao fato daqueles personagens virem dos quadrinhos ou fazerem parte de uma fábula. Há em O Último Mestre do Ar quatro nações: terra, fogo, água e os nômades do ar. O avatar, como já dito, mantinha o equilíbrio entre essas quatro nações. E este equilíbrio era conseguido através da ajuda que ele obtinha do mundo dos espíritos.
Aí talvez se encontre um ponto fundamental de união entre os dois filmes. O mundo dos espíritos deste filme de Shyamalan não tem relação com esta ideia dos já mortos, mas são justamente espíritos vindos de uma natureza primitiva, possuem símbolos Ying-Yang em seus corpos, da união entre masculino, feminino e tudo aquilo que é vivo (posto que sua forma terrena é a de um animal). Já o tio Boonmee é um homem doente, cuja morte se aproxima e, com sua iminência, ele e o universo ao seu redor parecem abrir-se para esta espécie de mundo dos espíritos, onde tudo é uno: homem, animal, vegetal, mineral. No mundo de Apichatpong parece não haver distinção clara entre os elementos, mas uma certa noção de que mesmo após tantas metamorfoses naturais, orgânicas e sociais, não podemos ignorar nossa condição primeira, celular.
Se havia o medo, a insegurança, a sensação de impotência nos primeiros filmes de Shyamalan, aqui o avatar pecou justamente pela sua condição de infante. Seu medo era o de ter de abdicar de algumas regalias da vida “comum” e isso fez com que fugisse, gerando um desequilíbrio entre todas as nações, uma vez que os povos da nação do fogo passaram a se configurar, portanto, como vilões. Não existe aí um não-saber essencial e muito menos uma trama banal mal versus bem. O elemento catalisador de tudo, o qual o avatar deveria aprender a dominar para poder buscar o equilíbrio, é justamente a água, elemento que, não por menos, é o ponto de partida de tudo aquilo que virá a se tornar vivo. Diz-se que nos mitos dos heróis a água está relacionada ao renascimento.
Renascer, portanto. Renascer para recriar, para renovar-se. Ir à origem. E, principalmente, como bem nos ensinou Shyamalan em suas obras anteriores, não menosprezar o desconhecido. Os personagens postos “à prova” em seus filmes sempre se pronunciam com palavras como “as pessoas não querem ver”, ou “não ouvem mais”. A câmera de Apichatpong, no entanto, parece registrar esta fusão entre o ser e o que representa este “ser”. Logo na primeira sequência de Uncle Boonmee sua câmera acompanha o que parece ser um búfalo, que se debate com uma corda para se soltar de uma árvore. O silêncio e ao mesmo tempo o som da floresta tomam todo o espaço da sala de projeção. Somos ali ao mesmo tempo espectadores, lente, olhar e observados. Não sabemos o que motiva o animal a se soltar, mas temos de volta elementos que o cineasta traz recorrentemente em seu cinema: árvore, terra, animal, homem; e eles se fundem construindo imagens as quais nos sentimo impotentes de traduzir em meras palavras.
Ambos os filmes não possuem necessariamente um final. O Último Mestre do Ar sugere uma sequência, mas não somente isso. O olhar de apreensão do avatar ao final do filme deixa esta sensação de não-saber pendente. Já em Uncle Boonmee, acompanhamos esta ida simbólica de Boonmee para este suposto “outro lado”, com uma sequência impressionante em que os personagens entram na floresta e vão até uma gruta com o moribundo – num rito de passagem belíssimo, plácido e pacientemente filmado, no qual o personagem chegaria ao lugar onde nasceu em uma outra vida. O filme de Apichatpong certamente deixa diversas marcas em seu passar.
Em Shyamalan, o jovem avatar encontra a força para combater o caos entre as nações ao mentalizar os exercícios que fazia no templo budista do qual fugiu. Há mestres budistas que encaram o estado de nirvana (objetivo de seus adeptos) como um estado de percepção. É também um jovem praticante do budismo o responsável pelo “fechamento” do filme de Apichatpong. Diferentemente da lógica solene posta em Shyamalan, aqui o jovem chega ao quarto da mãe e de uma jovem que parece ser sua prima ou irmã e vai tomar banho, se despe, tira toda aquela roupa que sempre vimos cuidadosamente amarrada aos corpos dos adeptos do budismo e as convida para jantar.
Em imagem surpreendente, ao sair do quarto, o jovem vê o seu duplo sentado na cama, junto das duas mulheres, como estava há poucos instantes antes. Em um bar diferente do ambiente de todo o filme, ele e sua mãe pedem algo para comer e uma música pop invade a cena com a mesa intensidade que os sons da floresta o fizeram naquela cena inicial em que o búfalo se debatia contra uma corda. Compreender ou não, encontrar uma explicação plausível a todos esses símbolos é algo que certamente empobreceria a experiência.
Nestes cinemas tão diferentes e também tão centrados em um contato com algo para além de nossas hipocrisias e pequenezas, M. Night Shyamalan e Apichatpong Weerasethakul são dois nomes que merecem olhares, e muito além disso: merecem ser vistos. Talvez a resposta não esteja na arte justamente por não existir. E buscá-la não parece ser o objetivo desses dois jovens diretores, mas observar, de longe, de perto e com tudo aquilo que sua sensibilidade permite, estar em equilíbrio com o nosso não saber.
Filmes Citados:
O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010/M. Night Shyamalan)
Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives (Loong Boonmee raleuk chat, 2010/ Apichatpong Weerasethakul)







