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por Ursula Rösele
Tudo Pode dar Certo, ou melhor dizendo, “Whatever Works”

Woody Allen é aquela história... 75 anos e 46 filmes dirigidos e cada novo vem acompanhado das habituais e inevitáveis expectativas, pré-conceitos, críticas, paixões fervorosas e defesas de prontidão para qualquer ataque ao diretor.
Fui assistir a seu novo filme com a ansiedade clássica de quem o admira profundamente plus a irritação da demora do filme para estrear basicamente no último horário de um cinema, digamos, mais pop e em uma guerreira sala de BH que tem se debatido com as produções enfileiradas para entrar e o número estrondoso de salas fechando uma após a outra na cidade. Falo do Belas Artes, que, além do Savassi Cineclube (e do Cine Humberto Mauro, que segue firme e forte com retrospectivas, mostras e festivais que lutam por manter a cinefilia em dia em BH), é a única sala que restou de pé após o fechamento – reza a lenda, provisório – das salas do Usina e recentemente do Ponteio.
Toda essa prévia, toda essa expectativa ficam acentuados visto que São Paulo, Rio e Porto Alegre viram o filme meses atrás. O que Woody Allen reservou para seu projeto 2009? Nesse meio tempo, dois polvos já viram em Cannes seu filme-2010 (You will meet a tall dark stranger – texto aqui) e Allen já está filmando seu projeto de 2011, Midnight in Paris. Não é novidade a produtividade ferrenha do diretor e muito menos a curiosidade por um novo filme seu filmado em Nova Iorque (depois de sua passagem pela Inglaterra e Espanha). Mais um dos costumes conhecidos do diretor é reunir em sua obra toda sorte de atores, dos mais renomados e pops de Hollywood aos monstros do cinema “de arte”; em Tudo pode dar certo Allen recrutou Larry David, simplesmente um dos criadores de Seinfeld, ou seja, “o cara” da comédia. Trocando em miúdos, apenas mais um filme de Woody Allen, mas carregado de razões para aguardarmos algo no mínimo digno de nossas inevitavelmente egocêntricas expectativas de espectador.
Em uma entrevista, Allen comentou que o roteiro de Whatever Works foi escrito no início da década de 1970, mas ele desistiu de filmar quando o ator que queria escalar para o papel de Larry Davis (Zero Mostel) faleceu (em 1977). Eis que mais de trinta anos depois, Allen resolve retomar a ideia e – segundo ele – recontextualizar apenas algumas questões políticas e informações que considerava datadas. Não sei se a fonte é exata, mas ouvi dizer que o teria filmado antes de Annie Hall. Há de fato algumas semelhanças com seu sucesso de 1977, mas vendo-o hoje, tanto tempo depois, fica a curiosidade do que ele teria se tornado se tivesse de fato sido feito àquela época. Muito provavelmente teria um outro fôlego – afinal, sabemos ter sido a década de 1970 uma das mais brilhantes do diretor -, mas talvez não lançasse o olhar que hoje ele lançou ao filme, da resignação que comentarei adiante. De toda maneira, permanece a inquietação acerca das razões que o levaram a voltar a este projeto, sendo que a meu ver, não houve um resultado que pareceu justificar seu renascimento, pois infelizmente, não vi ali uma pulsão que ao longo desses trinta anos já não tivesse emergido de suas outras obras.
Não estamos diante da hedionda tradução dada em português a Annie Hall, mas Tudo pode dar certo se chama, em seu título original, Whatever Works. Whatever, termo já adotado como gíria inclusive aqui no Brasil pode ser traduzido como “qualquer”, “seja qual for”, “por mais que”, “o que quer que”, e talvez algo como “qualquer coisa que funcione”. Whatever Works, portanto, poderia ser pensado como um termo que evoca o sentido de “o que quer que seja que aconteça...funciona, tá ok”. A mim – e principalmente depois do filme visto e um conhecimento razoável da obra de Allen – soa mais como uma espécie de resignação diante da vida. Não uma aceitação cômoda, mas uma percepção da impossibilidade de digladiarmos com algumas coisas que são inerentes ao ser humano. Portanto, não é que “tudo pode dar certo”, é que temos duas opções: desistir ou compreender o que for possível dentro de nossas idiossincrasias.
Nesse sentido vi na tela um Woody Allen que, num primeiro e mais ingênuo olhar, pode soar como um cara chegando numa certa idade e amolecendo; clichê que quase todos nós fatalmente viveremos. A amargura de Allen está lá, toda estampada na figura de Larry David, que parece ter encarnado uma fusão tal de quem ele é na vida real e do personagem eterno de Allen (resmungão, hipocondríaco, descrente, desiludido, intelectual, etc), que fica difícil pensar onde começa um e onde termina o outro. Personagem fácil, talvez. Tanto para um escrever quanto para o outro interpretar.
Larry David é Boris, um cara dos “quase”: quase teve uma vida feliz com a esposa, quase ganhou o Nobel de física, quase conseguiu se matar, quase foi feliz. Vive sozinho e um belo dia voltando pra casa, conhece uma jovem cheia de vida que vem à sua porta pedir um lugar para ficar e comida. Abandonando a
“ranzinzice” (de leve, claro) no bar onde reclamava do ser humano para os amigos, aceita que a menina passe uma noite. Num desenrolar previsível, a jovem fica muito mais tempo que o esperado, desperta um pouco de vida em Boris, se apaixona por ele, se casam e diversas situações cômicas são desencadeadas a partir daí.
Um dos clichês de se falar de um filme de Allen é trazer aquele kit tradicional de comentários: Allen não é mais o mesmo, Allen é o mesmo de sempre, cadê o Woody Allen neste filme e por aí vai. Desse conjunto escolho a repetição pouco inspirada da fórmula como o ponto que me incomodou neste filme. Whatever Works daria um excelente texto, uma crônica de primeira. O roteiro, como de costume, é o ponto alto do filme. David, também como era de se esperar, é um cara muito divertido, tem uma presença na tela incrível e é um ótimo comediante físico e verbal – aliás, paira no filme toda a aura stand up, cerne do início da carreira de Allen e David. O problema é o personagem é tão Larry David e Larry David é tão Woody Allen, que senti falta do bom-clichê de seus filmes serem encenados por ele mesmo, que já conhecemos interpretando este papel de forma, cá pra nós, impagável. Talvez a escolha por um cara tão semelhante se deva à percepção disso aliada a uma provável preguiça de atuar, ou, quem sabe, o fez para aliar o talento de David à inside joke recorrente do personagem trazer o termo “clichê” com tanta frequência no filme.
Só que é exatamente desta afirmação que eu gostaria de partir. Se dermos uma breve olhada na filmografia de Allen, podemos encontrar esse personagem sendo interpretado um zilhão de vezes: Anniel Hall, Manhattan, Memórias, Hannah e suas irmãs, Édipo Arrasado, Crimes e Pecados, Maridos e Esposas, Desconstruindo Harry, Igual a tudo na vida, Scoop...fora as vezes em que percebemos essas recorrências em outros atores encarnando o papel que vemos perfeitamente em Allen. Ou seja, não é novidade. A questão base para mim é que nesses filmes citados acima (talvez menos em Igual a tudo na vida e Scoop), existe um frescor, em certo cuidado estético, um algo a mais além de uma simples análise acerca de um personagem recorrente. Em todos esses outros filmes há uma narrativa sustentando este Woody Allen que conhecemos que me parece muito mais interessante que o Boris-Allen-David atual.
Existe um elemento novo que abordarei adiante, mas o ponto-chave que me incomodou neste filme foi a sensação de ser apenas mais um filme de Woody Allen, o que me faz cair na armadilha que eu mesma construí acima. À exceção de alguns que eu particularmente considero os piores do diretor (como Simplesmente Alice e Setembro), sabemos que seus filmes em geral são agradáveis e a experiência de ver uma obra maior ou menor de Allen na tela nunca é ruim de todo – além do quê, as acepções do que é maior e menor em seu cinema são totalmente subjetivas. Para aqueles que estão acostumados a assisti-lo, o filme segue numa cadência tão previsível, que a montagem, a maneira com a qual a trilha entra nas cenas, as tiradas, os posicionamentos dos personagens e o encadeamento de eventos seguem num ritmo que me remeteu a uma cartilha da qual Allen não extraiu uma gota sequer de suor para colocar em ação.
Há uma escolha pelo farsesco, por um tom aparentemente superficial que casa a comédia pontuada por gags com o ar despretensioso que acompanha seus personagens, que poderia justificar a escolha pelo que chamei de previsível na trama. O filme funciona numa toada stand up mesmo, com diversas esquetes cômicas. Poderíamos inclusive dividir o filme por etapas: Boris conhece a jovem/eles se casam/a mãe da jovem entra em cena/a jovem conhece o rapaz de sua idade/o pai da jovem chega/termina o casamento de Boris/Boris tenta se matar e conhece outra mulher. A estrutura capitular fortalece essa sensação de construção episódica, que não necessariamente tira o ritmo do filme, mas certamente o empobrece no que poderia haver de inventivo em sua mise-en-scène.
Whatever Works é a repetição piorada, este é o meu ponto. Toda a construção do filme me pareceu óbvia e de um “já visto” muito entediante. Exemplo (s): temos logo no primeiro plano do filme, Boris sentado em um café com três amigos falando de religião. Em um determinado momento, ele se dirige a nós, espectadores, ao passo que seus amigos ignoram a existência de uma audiência e de estarem sendo assistidos – gag que emenda ao final do filme uma frase já clássica “I see the big picture”, brincadeira do personagem com sua intelectualidade e capacidade de ver a situação por um prisma mais amplo que os outros. Dirigir-se ao espectador é algo que Allen fez em Anniel Hall, como sabemos, e ele traz para este filme como um elemento divertido, irônico, mas sem nenhuma cena com força similar à que ele chama o teórico Marshall McLuhan para questionar um outro personagem.
O filme segue nessas recorrências. O pavor da morte que faz o personagem acordar de madrugada, a discussão com sua ex-esposa, a moça mais jovem que surrealmente se interessa por ele. Há elementos de certa forma novos, como Boris cantar “parabéns à você” sempre que lava as mãos ou emendar numa frase desencantada o trio “nothing, zero, zilch” para reforçar uma negativa. A junção entre Larry David e Allen de fato parece um acerto logo de cara, mas tendo em vista a possível facilidade que o todo deve ter significado para ambos, senti falta de alguma não necessariamente novidade, mas um esforço estético que fosse, algo que representasse um diferencial, que fizesse jus a essa união.
O elemento novo mencionado acima se refere a um olhar para a vida que o título já engloba. Os desencadeamentos na vida de Boris e a maneira como o personagem encerra o filme, mostram um Woody Allen nessa toada “whatever works”. No final, as coisas aparentemente dão certo: a moça se apaixona por um rapaz mais velho, Boris conhece uma mulher de sua idade, a mãe da moça fica bem, o pai assume sua homossexualidade e encontra um homem, etc. Tudo na superfície - e é esse o ponto positivo do filme. Apesar do ar de happy end que Allen imprime no filme, existe uma percepção – e aí sim, novidade – da vida um pouco afastada da amargura, da tristeza e das desistências.
Volto à resignação que falei no início. Parte dela é Boris recorrer ao público, à piada “I see the whole picture” e os outros personagens desconhecerem a existência de um público e de fazerem parte de uma ficção. Boris vem a nós e fala de como detesta comemorações de fim de ano, da hipocrisia das pessoas que, em suas palavras, “estão desesperadas por divertirem-se” e traz essa visão que a mim parece ser a do homem de 75 anos, 46 filmes e uma certa bagagem, seja ela de conhecimento, seja de neurose, mas uma bagagem de quem, depois de todo este tempo, aprendeu algo sobre a vida: tudo aquilo que você conseguir, a felicidade que der, a graça que for possível, whatever works. Nas palavras de Boris: “A maior parte de sua existência é sorte, mais do que você gostaria de admitir”.
Uma resignação mais limpa, digamos. Um olhar que não aceita a leveza pela leveza e não absorve a ignorância para que as coisas pareçam mais simples e palatáveis. Em sua tirada final, perceber esse todo, “see the whole picture”, é o que, segundo ele, chamam de ser um gênio. Genialidade esta que, para aqueles que compartilham desse olhar, traz diversas dores e desalentos. Não chamaria isso de um ensinamento, mas certamente um grand finale. Talvez Allen não precise mais de grandes esforços para alcançá-lo e nós ficamos aqui, ou aceitando em demasiado posto que ele é Woody Allen, ou exigindo sempre mais, uma vez que falamos de Woody Allen.
O caso é que, talvez pelo apreço ao senhor diretor, ainda caio nas armadilhas de esperar o filme de Woody Allen como se fosse uma espécie de evento, um momento cada vez mais raro de sentar no cinema e de fato aguardar uma obra, já que a maioria dos grandes diretores com vasta filmografia não estão mais entre nós. Ainda com seus tropeços, ainda que investindo num “mais do mesmo”, em se tratando de seu cinema, creio poder dizer que “whatever works”.
Filmes Citados:
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Anniel Hall, 1977/Woody Allen)
Manhattan (idem, 1979/Woody Allen)
Memórias (Stardust Memories, 1980/Woody Allen)
Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters, 1986/Woody Allen)
Setembro (September, 1987/Woody Allen)
Contos de Nova Iorque - Édipo Arrasado (New York Stories – Oedipus Wrecks, 1989/Woody Allen)
Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989/Woody Allen)
Simplesmente Alice (Alice, 1990/Woody Allen)
Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992/Woody Allen)
Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997/Woody Allen)
Igual a tudo na vida (Hollywood Ending, 2002/Woody Allen)
Scoop – O Grande Furo (Scoop, 2006/Woody Allen)
Tudo Pode dar Certo (Whatever Works, 2009/Woody Allen)
You Will Meet a Tall Dark Stranger (Sem título no Brasil, 2010/Woody Allen)
Midnight in Paris (Sem título no Brasil, 2011/Woody Allen)







