por Gabriel Martins

À Prova de Morte

Há uma curta entrevista de Tarantino em que a apresentadora indignada o cutuca a respeito de Kill Bill e o porquê de tanta violência, grafismo e afins. Tarantino, com sua inquietude típica, responde: “Porque é muito divertido! Entende!!”. Esta motivação colocada na resposta direta do diretor diz muito da natureza de várias escolhas não só de sua carreira, mas de À Prova de Morte, inclusive a própria escolha de Tarantino de realizar o projeto.

 

Primeiro é importante frisar o quanto a separação de Grindhouse em dois longas, Planeta Terror e este, fez bem para ambos os projetos. De certa forma, o descolar de uma idéia muito explicitada de “projeto de revisita ao grindhouse” faz com que os filmes ganhem mais diálogo consigo mesmos, ainda que preservem a boa característica de jogo do todo. É neste momento também que fica claro o quanto Tarantino está há anos luz de Rodriguez que, mesmo fazendo um bom filme, nem de perto consegue atingir a elegância brutal de seu companheiro. Busca-se mais que reverenciar, pensar um olhar sobre o cinema que em certa medida foi perdido pela ditadura do roteiro.

 

E Tarantino é um jogador, um cara que, a partir deste olhar deslumbrado que tem com o cinema, pensa em como pode trabalhar as emoções do espectador em função de uma fruição de idéias e, mais que idéias, sensações. Em À Prova de Morte temos o que poderíamos chamar de entretenimento direto. Explico: se em muitos filmes temos pactos narrativos e estruturas que fornecem a sensação de estar entretido a partir de uma cadência mais pautada por um roteiro e história – talvez aí o filme dele que mais se encaixe seja a obra-prima Jackie Brown -, em outros, como À Prova de Morte, o “se entreter” é o experimento, um “objetivo” que está antes de outras questões mais racionais e lógicas. Nesta prática do entretenimento direto, que também poderia ser chamada neste contexto específico de exploitation, o acontecimento de cada cena é o cerne da questão. Os exploitation films, ou filmes de exploração, eram, no início do conceito, filmes de conotação sexual que abordavam temas proibidos pela censura e mecanismos reguladores da indústria. Posteriormente, houve várias conotações diferentes para o termo, seja de “filmes ruins” ou “cinema de atrações”. Esta última nomenclatura, dada pelo pesquisador Tom Gunning, dizia que a intenção destes filmes era apresentar e não representar, mostrar mais do que narrar. Basicamente o que Tarantino, até mesmo pelos seus referenciais, tem feito desde o início da carreira.

 

Uma cena específica, ponto de ruptura em À Prova de Morte, é deflagradora da maneira divertida - mas não descompromissada – com que Tarantino mostra o cinema. Um acidente de carro é revisto por vários pontos de vista, evidenciando o que acontece com cada vítima do acidente. Todo o momento é filmado e montado com bastante tensão, o pré-acidente muito bem pontuado com a música que vem de dentro da tela, da diegese. O choque é visto como um elemento de pura vertigem, de observação, de tesão. Repare a expressão de Vanessa Ferlito quando os carros se colidem. Tarantino faz deste encontro a transa já iniciada antes com uma lap dance. Um acidente como uma penetração.

 

Há um plano de Pulp Fiction que define boa parte do cinema de Tarantino. É um plano de Butch, personagem de Bruce Willis: Marsellus conversa com ele, mas vemos, durante toda a cena, apenas o rosto do personagem, uma voz no fora de quadro e “Let’s Stay Together”, de Al Green, ao fundo. Esta escolha, a princípio tão pouco exemplar do que de mais explicitamente diferente Tarantino já fez, mostra o quanto o autor realmente se configura enquanto cineasta. Cineasta artesão, que consegue com essa combinação mínima de trilha sonora diegética, rosto e voz onisciente, criar uma combinação de valores única, um clima. Ali ele revela seus dons para diálogo, escolha de músicas e escolha de elenco, três características vitais de seu cinema. E se nessa curta cena já é possível pensar tanto sobre o Tarantino artesão, quiçá em um projeto onde a ação, o cinema puro e intensamente, se faz disponível.

 

E este filme é sem dúvida À Prova de Morte. De todos os filmes de Tarantino é o que mais se aproxima da idéia de um cinema de atrações e, com isso, consegue explorar o dom de seu realizador ao máximo. Não bastasse dirigir, Tarantino também se responsabilizou pela cinematografia do filme, o que nos deixa ainda mais claro um comprometimento com a imagem, um trazer para perto de si muito transparente que talvez não fosse possível em épicos como Kill Bill e Bastardos Inglórios. Em uma estrutura sem muitos floreios, enxuta como precisa ser, Quentin Tarantino mostra que é possível recuperar certos valores cinematográficos de décadas passadas ainda assim se inserindo totalmente na contemporaneidade. Em meio a um cinema de tantas imagens geradas por computador, o autor faz um filme bastante orgânico e fresco, realmente um deleite visual que prova que o cinema, na sua forma mais bruta e consolidada, ainda pode – e muito – nos surpreender. Entretenimento puro.

 

Filmes Citados: 

À Prova de Morte (Death Proof, 2007/ Quentin Tarantino)

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009/ Quentin Tarantino)

Jackie Brown (idem, 1997/ Quentin Tarantino)

Pulp Fiction (idem, 1994/ Quentin Tarantino)

Planeta Terror (Planet Terror, 2007/ Robert Rodriguez)

Kill Bill (Kill Bill, 2003 e 2004/ Quentin Tarantino)