por Gabriel Martins

Avatar – em 3D!!!!

Avatar, em 3D, é uma experiência próxima à de um parque de diversões. Receba os óculos na porta, entre na sala e fique lá, aproveitando as profundidades, o som monstro, os super efeitos super bem cuidados e etc. É uma experiência de parque de diversões. Entretenimento em cinema, tal como se consegue em um Hitchcock ou um De Palma, talvez seja outra coisa. Avatar é um filme que provavelmente ficará na história do cinema devido aos seus feitos técnicos, seu preço e mega estrutura. Não é possível lembrar de nenhum plano.

 

É tudo rápido, uma obra que se constrói mais através dos resultados do todo do que da construção na minúcia – ainda que seja um filme de detalhes visuais. Avatar talvez esteja aí para ser esse parque de diversões, onde podemos passear na montanha russa (os vôos dos Banshee), na roda gigante (a relação de Jake e Neytiri) e talvez até no castelo do terror (Coronel Quaritch). A narrativa é um pretexto, a subida da montanha russa que antecipa a queda. Talvez esta questão, que neste caso deveria ser menos importante – afinal, é um filme revolucionário de efeitos especiais em 3D -, acaba obtendo um papel crucial no que diz respeito a um maior envolvimento dentro dos diversos momentos do filme em que ele se leva bem a sério. James Cameron pesquisou mil coisas, leu livros de biologia e contratou biólogos para poder conceber o universo de Pandora. Isso é tudo extra. Se isto está lá, está como em um vídeo-game - passageiro e componente. Claro que esse conjunto de idéias e trabalho surte um efeito no todo, que é de fato completamente deslumbrante enquanto imagens fantásticas. Mas falta uma substância que é fundamental ao bom funcionamento de Avatar: retórica.

 

James Cameron me convence visualmente em cada plano, até mesmo porque em 3D (e talvez até sem o 3D) fica difícil não se deixar levar pela visualidade e sensações – o caráter “brinquedo” da coisa. Não consigo, de outro lado, deixar de pensar na fragilidade das relações entre personagens e no mau funcionamento das caricaturas típicas de Cameron. Se esta característica funcionava muito bem em True Lies, excelente filme e do qual ri de suas próprias construções e convenções, em Avatar não ocorre o mesmo. Em um filme que em muitos momentos se pretende tão sério, metaforizando questões do nosso universo e estabelecendo muito bem os dois opostos da história, desanima ver questões importantes, como a transição de seu personagem principal, ser tratada de forma pouco cuidadosa.

 

A força do filme está nos momentos em que opta por se deslumbrar com o universo que cria, principalmente porque faz isso pelos olhos de seu protagonista. Ali, criamos uma cumplicidade com a juventude de Jake e realmente nos deixamos levar pela questão técnica dominante da obra. Os elementos de cena chegam a ser palpáveis, deixando visível o extremo cuidado de composição. Está tudo lá, arremessado a nós, nos envolvendo, alto, barulhento: impossível não entender.

 

É muito difícil falar de algo tão extremo em todos os sentidos. A Pandora de Cameron é maravilhosa em sua artificialidade, mas talvez tão maravilhosa quanto imagens exibidas em televisores de LED, em lojas de eletrônicos. É difícil acreditar em um universo criado e levado tão a sério, principalmente quando é totalmente visível o quanto este universo é uma representação de uma visão norte-americana bastante simplista das coisas. Claro que a metáfora da guerra do filme é leit motiv para Avatar, e não está em primeiro plano. Mas está lá. Talvez melhor seria Cameron chutar toda e qualquer lógica e nos arremessar milhões de bichos, criaturas e plantas em um turbilhão 3D sem motivo ou razão a não ser a sua própria forma.

 

Talvez seja suficiente ignorar as fragilidades de construção dramática para se ligar às questões de impacto criadas por Cameron. Lendo assim, no mundo dos parques de diversões, Avatar é da linha de frente. Mas em toda evolução técnica é preciso olhar o outro lado, menos deslumbrado, e ver que talvez exista por trás daqueles tantos milhões uma fragilidade concernente à relação básica existente entre proposta e fim. Neste ponto, Avatar é mais um feito técnico.

 

Filmes citados:

Avatar (idem, 2009 / James Cameron)

True Lies (idem, 1994/ James Cameron)