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- I’m Still Here – The Lost Year of Joaquin Phoenix
- Ficção, documentário, fissão: Avenida Brasília Formosa e O céu sobre os ombros
- Jackass 3D
- Pós-2010: aberta a estrada da renovação
- Nosso Lar, de Wagner de Assis
- À Prova de Morte
- O Buraco
- Ilha do Medo
- Guerra ao Terror – algumas breves anotações
- Avatar – em 3D!!!!
- Up, Altas Aventuras
- O Contador de Histórias
- Apenas o Fim
- South Park – pois é preciso desconcertar a mídia
- Divã
- LOST – Parte 2: Do brando ao bruto
- Watchmen – essência e exposição
- O Lutador
- Marley e Eu

por Gabriel Martins
“Praça Walt Disney”, “A dama do Peixoto” e “Vigias” – filmando encontros
Há alguns meses estive no 7º Panorama Internacional Coisa de Cinema, festival em Salvador realizado por Cláudio Marques e Marília Hugues (conhecidos por dirigirem belas obras como Nego Fugido (link pra texto) e Carreto (link pra texto). Organizado em sessões competitivas que exibem dois curtas e um longa, o festival se esforça para pensar a maneira como os filmes podem se relacionar na sessão, organizando de modo que mesmo que se preserve a singularidade de cada obra, seja enfatizado também o poder conjunto delas, seja por tema, referências, modo de filmar ou outra aproximação entre os filmes.
Neste festival foram exibidos em uma noite os filmes Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, A dama do Peixoto, de Allan Ribeiro e Douglas Soares e o longa Vigias, de Marcelo Lordello. Já tinha visto todos os filmes, nunca em sequência. Interessante perceber como muitas vezes essa organização de fato muda a experiência das obras, principalmente os curtas. Percebemos, principalmente quem tem costume de transitar por festivais de cinema, que as revisões redefinem os filmes não só por nos possibilitar perceber outras facetas destes, mas principalmente por se darem em diferentes contextos, despertando novos interesses e lados da nossa sensibilidade a partir de um conjunto de olhares e ideias pertencentes a cada momento, cada lugar. Filmes melhoram, filmes pioram, mas filmes, acima de tudo, tomam corpo a partir do espaço físico onde são exibidos e o modo como nos aparecem. Dito tudo isso, vale analisar a maneira como a junção desta três obras se deu de maneira feliz, despertando pensamentos para além da sessão e dos filmes. O que percebi de mais comum e interessante entre eles é a maneira como refletem politicamente o espaço da cidade onde os realizadores vivem, tendo em si um olhar crítico sobre o estado atual das coisas sem tomar distância, colocando-se no jogo.
Praça Walt Disney e Vigias praticamente se unem a uma leva de filmes como Avenida Brasília Formosa, Recife Frio, Um lugar ao Sol, Eletrodoméstica, Ela Morava na frente do cinema e outras obras realizadas recentemente em Recife que tem analisado as transformações da cidade nos últimos anos, principalmente a maneira como a arquitetura da cidade tem se organizado de forma a priorizar a verticalização. Esse desenvolvimento caminha lado a lado com uma ideia de isolamento entre as pessoas e as classes no Brasil, as ruas deixando de ser ocupadas no subúrbio, nosso país evidenciando cada vez mais seu conservadorismo.
Disso, dentre várias outras coisas, fala Praça Walt Disney. Coexistem ali imagens das imediações da praça compondo uma espécie de musical que une desde registros espontâneos até outros mais preparados – destacam-se um número musical por pedestres na orla e carros que bailam como em um musical da Disney. O mais instigante da obra e que se intensificou na tal sessão citada é que o filme flui através de uma complicada montagem que, como já citado, precisa lidar com situações de pura observação e outras de total envolvimento por parte dos realizadores, no caso, personificados pela câmera. O final do filme, um plano mais longo que percorre vários cômodos de uma casa, é um grande exemplo disso. Ali existe uma perspectiva intimista, de encontro com pessoas/personagens que demonstra uma vontade de realmente estar naquele ambiente, compartilhando um momento, criando uma fábula na simplicidade de planos como o de uma garota segurando filhotes de cachorro – uma imagem, a propósito, totalmente "Walt Disney". O filme cria um paradoxo da alegria musical com a frieza de um planejamento urbano questionável – o uso literal de personagens Disney nas cenas noturnas, abandonados, é uma boa síntese da proposta como um todo.
Vigias, passado na mesma cidade, propõe um outro tipo de encontro. A figura de Lordello e de sua equipe são evidentes, presentes inclusive em cena, e a proposta é de conviver com vigias de prédios durante uma noite. Neste espaço, o longa-metragem realiza imagens que vão da entrevista até a pura observação. O seu processo extra-filme, o tempo passado ali, o movimento do cineasta que vai viver na pele parte do que o outro vive, torna vigias um filme de experiência, um filme de procedimentos que traduzem no ato todo um ponto de vista político do realizador. Político, essencialmente por existir um evidente posicionamento crítico na situação. Lordello não parece buscar uma definição de lado certo e lado errado de maneira simplista. Ele, inclusive, inclui em conjunto na cena patrão e empregado, expondo esta situação não para “vilanizar” um e “vitimizar” outro, mas muito pelo que ela é: evidência do hoje, as relações de trabalho se misturando com relações afetivas, relações de confiança, relações nascidas a partir do convívio em um espaço e de um sintoma social.
Existe em Vigias o medo do que o mundo está se tornando, a violência sendo obviamente um tema recorrente no filme. Lordello, como fez em seu curta-metragem Nº 27, se interessa pela expressividade do rosto e a câmera enquanto um mecanismo de diálogo que observará de perto como se tentasse absorver alguma essência possível daquele que está a sua frente. No curta citado, ele usa o plano fechado como algo que vai ligar o espectador com o personagem que, no momento, está em conflito com seu espaço. Uma cena memorável mostra o protagonista que, calado, tem ao seu redor pais e direção do colégio falando sobre sua situação. Não vemos o redor pois a câmera se limita ao rosto do personagem, quer estar com ele e entendê-lo. Tal situação ocorre em vários momentos de vigias, um enunciado visual que diz: “estou contigo”. Não à toa, no final do filme este reconhecimento virá de um dos próprios personagens do filme, que abre a porta da própria casa, em gesto convidativo, e relata à esposa que a equipe passou a noite inteira com ele. O filme pensando a troca.
A dama do Peixoto, apesar de não anunciar diretamente, é um filme muito forte sobre estes mesmos sentimentos de isolamento sobre os quais Praça Walt Disney e Vigias falam mais diretamente. Imagens de arredores de uma praça e da própria praça são sobrepostos por vários relatos em off de pessoas que teorizam sobre a personagem título enquanto também comentam sobre outras figuras clássicas ali do bairro. Quem já morou ou mora em bairros de perfil próximo ao do filme possivelmente se identificará com a ideia dos personagens misteriosos, que nem todo mundo sabe bem quem é, e que permanecem como mitos do local, construídos por boatos e relatos. Interessante como, nos depoimentos, todas as pessoas enunciam uma relação de distanciamento com a personagem principal, por vários motivos possíveis.
Os preconceitos e julgamentos estão nas entrelinhas mas, acima de tudo, existe um entendimento por parte dos diretores de que era preciso filmar como aquele ambiente constrói uma relação peculiar entre os habitantes dali, e como esta figura da dama provoca interesse em todos. Quando o encontro com a personagem se dá de fato, e vemos a figura materializada, passa a existir no filme um outro nível que, novamente, prioriza a troca entre realizador e filmado. Allan e Douglas são desvelados por sua dama, ela os aponta, e pela maneira como ela fala, apresentando os diretores a outra pessoa, é evidenciada uma relação anterior, um convívio mínimo que seja.
Todos estes filmes, como alguns bons outros, estão mostrando que existe uma geração de realizadores (nada a ver aqui com qualquer denominação e/ou agrupamento forçado tal como o dito “novíssimo cinema”) interessados em conviver mais proximamente com aqueles que são filmados. Se em muitos momentos o cinema brasileiro foi (e ainda por ser) justamente julgado por apresentar filmes com olhar distanciado ou superior por parte do realizador frente a realidades distantes à dele, hoje podemos ver que, por mais que isso ainda persista, há uma predisposição maior ao encontro e à crueza de certas coisas. Ainda é muito raro ver realizadores que surjam de realidades realmente distintas, marginalizadas, de minorias, de cidades menores, algo que com o tempo esperamos mudar. Mas o cenário hoje parece apresentar novas perspectivas.
Em conversa com o colega-redator-polvo João Toledo, este colocou um aspecto interessante acerca da recorrência nos últimos anos de filmes em que os próprios realizadores participam diretamente da obra artística, como atores. Para além de uma questão prática tecnológica, que torna o audiovisual cada vez mais uma arte intimista e democrática, me parece existir uma vontade clara, ainda que inconsciente, das pessoas se colocarem no mundo. E digo pessoas, não me limitando aos realizadores, pois toda uma tendência de expressão pessoal audiovisual que se fez concreta nos últimos anos diz muito respeito a uma necessidade de pessoas se encontrarem, se perpetuarem, se tornarem ficção, se tornarem imagem, se tornarem este outro que os meios institucionalizados e organizados de comunicação (a televisão, o rádio, o jornal) não conseguem nos fornecer de forma satisfatória. Há interesse por ver o máximo de mundos representados.
A produção de conteúdo (informação) muda pela maneira como nos percebemos no mundo através do tempo, das épocas. Realizadores cinematográficos, pessoas que escolheram ter como prioridade a produção de obras audiovisuais, estando inseridos nesse contexto, passam obviamente por essas transformações. Nos últimos anos tivemos diversos filmes envolvendo famílias dos diretores, filmes sobre o próprio bairro, filmes com amigos, tudo isto tanto no campo do documentário, do registro observacional, como no campo da fabulação, da projeção ficcional. A familiaridade dos materiais, inclusive, contribui cada vez mais para a indefinição deste espaço ficção-documentário, sendo o companheirismo e a amizade sentimentos predominantes no modo de produção de alguns filmes que tem circulado festivais e mostras.
Me parece que parte dos realizadores brasileiros tem cada vez mais feito filmes desconfiados da ideia de uma hierarquia de produção, do ego-diretor. Estamos em um momento em que os diretores querem reagir a diversas posturas políticas equivocadas, que tem transformado negativamente as cidades e, consequentemente, o nosso conviver. Se no nosso cotidiano vemos o mundo trilhando o caminho da desigualdade, das más decisões governamentais e do afastamento entre as pessoas, resta pensar como o cinema pode servir como uma ferramenta de contraponto, como resgate do diálogo. Felizmente, nas obras aqui citadas, há o encontro.
Filmes citados:
Praça Walt Disney (2011, Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira)
A dama do Peixoto (2011, Allan Ribeiro e Douglas Soares)
Vigias (2010, Marcelo Lordello)
Avenida Brasília Formosa (2010, Gabriel Mascaro)
Um lugar ao sol (2009, Gabriel Mascaro)
Nº 27 (2009, Marcelo Lordello)
Recife Frio (2009, Kleber Mendonça Filho)
Eletrodoméstica (2005, Kleber Mendonça Filho)







