por Nísio Teixeira

Utopia e Barbárie: pedaços de bons e maus caminhos

É notória a importância de Sílvio Tendler e seu interesse em interpretar a história a partir do mergulho biográfico – como nos filmes sobre JK, Jango, Glauber e Milton Santos. Utopia e Barbárie, seu mais recente longa, vai, de certa forma, na direção oposta: ao invés de um personagem central como eixo, toda uma época, ou melhor,  a segunda metade do século XX. É bem verdade que há um “personagem” em evidência costurando toda a trajetória, que é o próprio diretor.  Em entrevista ao programa Almanaque,  Tendler reitera a intenção de se evidenciar mais neste filme que lhe consumiu 19 anos de trabalho e, quando parecia que havia conseguido, de certa forma, “explicar” o século XX até a queda do Muro de Berlim, vem o atentado às Torres Gêmeas. E aí ele tem como objetivo, então, “entender” o século XX e o devenir do século XXI. Por isso que, em dado momento do filme, existem fotos, imagens e declarações do próprio Tendler sobre o período analisado.

 

Trata-se, evidentemente, de um esforço hercúleo. Muitos filmes, vários depoimentos gravados e uma miríade de documentos e trechos de textos. Um grande ensaio aberto e posicionado do diretor sobre as mudanças e revoluções ao longo do século. Tanto material que, vendo os créditos, percebe-se como muita coisa ficou de fora. Mas há depoimentos candentes, como esta frase de  que funcione, talvez, como boa divisa para o filme: “a memória é um espaço de luta política”.  Em tempos contemporâneos, em que a rapidez quer engolir a história e até mesmo o próprio texto, o filme tem como mérito essa importante provocação ao relembrar as utopias construídas nos anos 1960, em especial o ano de 1968 na França, México, Brasil e as revoluções à esquerda que se sucederam, bem como os movimentos de contrarevolução.

 

Porém o problema surge, a meu ver, menos a partir desse posicionamento bem definido do diretor, que é  explícito até mesmo do ponto de vista político (Dilma Rousseff, por exemplo, tem um longo espaço de depoimento sobre o período da luta armada e do exílio). Mas, mais ainda, da grande fragmentação imposta ao filme dado o seu vasto objeto:  Holocausto, Guerra Fria, kibutz, Israel, Palestina, Cuba, União Soviética, França, México, Chile, Argentina, Uruguai, Vietnã, Tchecoslováquia, Argélia, China, Brasil... o contra-ataque da direita via EUA, Panamá e outras ditaduras militares. E, como se não bastasse, a situação atual desses países, em especial daqueles onde aconteceu a proposta de uma utopia esquerdista. Ou seja, há algo que perpassa o filme tentando colocar, de um lado, como utopias, as revoluções esquerdistas e, de outro, a barbárie do contra-ataque direitista (as torturas, os desaparecidos...). Por outro lado, fica muito diluído o momento em que, vencedoras essas utopias em alguns casos, elas também conheceram e, pior, cometeram a barbárie. E aí o filme opera um tratamento, aliás, gradativo e desproporcional: o desmanche da URSS com direito a depoimentos e análises interessantes, o caso chinês relegado à excelente passagem de Invasões Bárbaras, quando o alter-ego de Arcand se encontra com uma chinesa,  enquanto o caso cubano atual, tão sensível à esquerda, ganha apenas praticamente um plano de uma... pichação!

 

Há um momento do filme em que um ou mais entrevistados, ao invés de usar o termo utopia, preferem falar de paradigmas, modelos. Engraçado, mas o uso desses termos põe em xeque o verdadeiro lugar da utopia – com o perdão do quase pleonasmo – dando a entender, exatamente, que a utopia segue mesmo sendo a busca por esse não lugar, enquanto as cruéis lições dos paradigmas de Stálin e Pol Pot, por exemplo, merecem o esquecimento.

 

Enfim e curiosamente, da mesma forma – como é até lembrado no filme – que não existe hoje uma grande utopia, mas uma pulverização de ações específicas em prol da humanidade (causa ecológica, feminista etc.) o filme de Tendler, ao tentar abraçar todo o período, transforma-se nessa espécie de espelho partido, de fractal que reúne aqui e ali alguns planos e depoimentos interessantes, mas que, do meu ponto de vista, não alcança o objetivo.

 

Talvez tenha faltado exatamente ao diretor um foco, um personagem ou mesmo uma única situação (o problema dos EUA na América Latina ou a questão cubana ou o Vietnã) que pudesse servir de fio condutor à produção, como Tendler fizera nos filmes anteriores. Ou como acontece, exatamente, em alguns documentários de Chris Marker e Santiago Alvarez usados pelo diretor em Utopia e Barbárie. Poderíamos acrescentar aqui uma série de outras produções bem-sucedidas nesse sentido de uma revisão histórica e que, ao mesmo tempo, fala de  utopias e também de frustrações, sendo emocionante sem querer ser, o tempo todo, comovente.  Penso, por exemplo, em Três Irmãos de Sangue, de Ângela Patrícia Reiniger, sobre os irmãos Henfil, Betinho e Chico Mário e também em Blazer, sobre um importante documentarista argentino assassinado pelos militares daquele país, por aqui exibido na série Por que democracia? do canal Futura. Aliás, a proposta de Tendler talvez pudesse se adequar a essa idéia de serialização, permitindo assim, um foco maior e profundo sobre cada utopia destacada.

 

Filmes Citados:

Os Anos JK – Uma trajetória política (idem, 1980/Direção de Sílvio Tendler)

Jango (idem, 1984/ Sílvio Tendler)

Glauber o Filme – Labirinto do Brasil (idem, 2002/Sílvio Tendler)

Três irmãos de sangue (idem, 2006/ Ângela Patrícia Reiniger)

Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá (idem, 2007/Sílvio Tendler)

Utopia e barbárie (idem, 2009/Sílvio Tendler)