por Nísio Teixeira

Mobilis in mobile: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (III) – Pour la suite du monde

Seguimos com nosso dossiê sobre o cinema quebequense e, aproveitando o clima da recém cobertura de Cannes, desta vez destacamos o filme que levou, pela primeira vez, um longa canadense (e claro, do Quebec) ao grupo principal do célebre festival: o documentário Pour la suíte du monde (Para o resto do mundo). O longa foi vencedor de prêmios importantes em seu país de origem e concorreu à Palma de Ouro no mesmo ano em que foi lançado. Mas naquele 1963 o vencedor foi O Leopardo, de Visconti.  Brault teria que esperar pouco mais de uma década para se consagrar no festival, apesar do Canadá já ter faturado alguns prêmios importantes em curta-metragem em edições anteriores àquela de Cannes, especialmente graças à animação de Norman McLaren – Blinkty Blank foi unanimidade em 1955 - e algumas produções do núcleo inglês da National Film Board. 

 

Pour la suite du monde, contudo, não passou despercebido: por ocasião de sua exibição em Cannes, ganhou elogios do importante historiador do cinema Georges Sadoul nas páginas da revista Les Lettres Françaises e, alguns anos depois, Jean-Louis Commoli destaca a produção de Brault na Cahiers Du Cinema. Ambos comentam como o filme de Brault respira e se insere na linha documentarista de Flaherty, Vertov e do contemporâneo Rouch.  Nos EUA, Eugene Archer, crítico do The New Yorker e um dos primeiros “embaixadores” da política dos autores da Cahiers em solo estadunidense, também não poupa elogios.  Como escreve André Loiselle, se nos anos 1960, Les Raquetteurs e a participação de Brault em Crônicas de um Verão consolidaram sua carreira como um maestro da câmera, Pour la suite du monde aponta, de vez,  um grande realizador.

 

Mas, novamente, o diretor não estava sozinho. Se a edição passada da coluna serviu para arrematar os filmes em que Brault e Jutra dividiram a direção, agora reapresenta uma parceria importante e uma novidade. A parceria tradicional é com o novamente responsável pela captação de som, o parceiro de longa data, Marcel Carrière. A novidade é que o filme será a estréia de Pierre Perrault na direção, outro importante nome do cinema do Quebec, que abordaremos em edições futuras.

 

Coube a esta micro-equipe de trabalho a proposta de um filme que pudesse resgatar, no início daqueles anos 1960 para o resto do mundo, em especial para a juventude de um pequeno lugarejo ao norte do Canadá, a técnica de pesca de belugas, que havia sido interrompida em 1924.  O lugar em questão é a cidadezinha de Ile-aux-Coudres, na ilha de mesmo nome,  em meio ao rio Saint-Laurent, que perpassa toda a província do Quebec e um dos primeiros portos do Pedro Álvares Cabral do Canadá, o francês Jacques Cartier.  O corredor ainda hoje é utilizado pelas baleias (o escritor João Batista Melo descreve uma viagem até um dos afluentes do Laurent, mais ao norte da ilha, o Saguenay, para ver o espetáculo dos cetáceos no conto que dá nome ao seu livro, As Baleias do Saguenay) e, ao que parece, os quebequenses eram, de fato, exímios caçadores de baleias. Ao ponto de Júlio Verne colocar como protagonista de seu 20 mil léguas submarinas um habilidoso e briguento arpoador do Quebec: Ned Land, que a bordo do submarino Nautilus, era o contraponto pragmático (e às vezes irracional) ao capitão Nemo e ao francês Pierre Arronax, senhores da razão (e da civilização).

 

Bem, não nos prolonguemos aqui à  crítica à obra de Verne, mas ainda assim vou pegar emprestado dela a célebre divisa latina do Nautilus: Mobilis in mobile (Móvel no elemento movente). A expressão, que pode ser uma metáfora da própria condição humana no planeta terra, pode ser também a do cineasta documentarista: ao contrário de (boa parte do) cinema ficcional, ele é também móvel no elemento movente do registro fílmico, das circunstâncias imponderáveis que muitas vezes regem a produção de documentários.  E, o que se torna mais interessante no caso de Pour la suíte du monde é, precisamente o fato do filme se tratar de um documentário que quer capturar o encontro da tradição secular de dois mamíferos moventes: a prática dos pescadores e a migração das baleias.

 

O filme começa com a discussão entre os moradores mais velhos que, gradativamente, vão discutindo a possibilidade de refazer a experiência ancestral da pesca para que possa ser registrada pelo documentário e, assim, ficar para as próximas gerações. E para aproveitarmos outro mote de Verne – Da Terra à Lua - a primeira discussão recai no momento de uma quermesse de objetos usados, em que um dos personagens centrais, o agricultor Louis Harvey discute com um amigo a possibilidade do homem ir à lua. “Se o bom Deus quisesse o homem lá, ele não teria colocado à lua a serviço da Terra, colocado homens e árvores na Terra, mas o contrário”, debate o amigo.

 

O comentário não é por acaso e fará o mote de fechamento do longa, produzido a partir de 30 horas de filmagem nas câmeras 16mm de Perrault e Brault, que, por isso, também devem parte do mérito do filme ao montador Werner Nold, com quem trabalharam dedicadamente. Como já dissemos em várias outras ocasiões em nosso dossiê quebequense, a presença religiosa será marcante não só na história, como no cinema do Quebec.  E também o foi no caso do filme: o recrutamento dos voluntários para a discussão e prática do modus operandi da pesca foi feito a partir dos dois padres de cada uma das igrejas, local onde, após a missa,  as assembléias se formavam.  Ante a luta para reunir e convencer as pessoas a repetir a prática, a construção da armadilha para a baleia e a expectativa que se frustava, o padre – que havia recomendado a participação de todos no projeto – dá uma bênção na praia e, dias depois, a beluga cai na armadilha. Em meio à euforia e o trabalho para dominar o cetáceo, todos decidem rezar três vezes o Padre Nosso em sinal de agradecimento.  Mas há também o tempo profano da tradicional festa de meados da Quaresma, quando um grupo se fantasia e sai pelas ruas e casas adentro fazendo batucadas – novamente, sob forte recomendação do padre.

 

A técnica empregada pelos ancestrais consistia em dispor uma série de grandes varas ao longo do rio durante o início da primavera, na maré baixa. Desta forma, quando as baleias saíssem em busca das águas quentes do verão no encontro do Saint Laurent com a água salgada do Atlântico, caíssem na armadilha da barreira.  O filme faz assim, a um só tempo, uma viagem aos primórdios da sociedade quebequense, não só pelo dispositivo em si proposto à obra, mas nela, a tradição da pesca e da força católica,  trechos do diário de viagem de Cartier (um em especial fala da ilha como algo que se dispõe “entre o mar e a água doce”, expressão que vai batizar um futuro filme de Brault como metáfora binacional sobre a condição quebequense). Primórdios e técnica que perpassam alguns debates calorosos entre os envolvidos na reconstrução da pesca: se o método empregado foi criado pelos “selvagens”, como defendem alguns, ou “civilizado” porque importado dos franceses que viviam na costa norte daquele país europeu, rebatem outros, às vezes com indignação.

 

Perpassando e reforçando a idéia do filme, dois elementos quase poéticos: as brincadeiras das crianças (rodar pneu, construir barquinhos de madeira, soprar dentes-de-leão) e o cotidiano dos outros ofícios (além da pesca, a carpintaria, o alforje, o tear  ocupam quadros e planos importantes no filme).  Eles dão a certeza de que, afinal, o filme não fala apenas sobre repescar baleias, mas sobre origem, tradição, herança. Duas sequências chamam atenção: em uma delas, Louis Harvey colhe água da nascente e leva para as crianças beberem. É a “Água da Páscoa”, que Deus dá de graça. O momento é lírico, pois entre as crianças que brincam e chegam para beber a água, surgem também algumas ovelhas e Harvey não perde a piada: “será que elas vieram também beber a água?”. E, em seguida, desabafa, dizendo que aquilo era uma coisa que ele experimentava desde criança e que, agora, na velhice, estava a fazer para a nova geração. É o momento que justifica todo o seu empenho em convencer o restante da população a participar do projeto da pesca para ser registrado no documentário.

 

Outro destaque é a sequência final, em que a baleia é capturada e vendida para um aquário em Nova Iorque. Pra quem produziu anteriormente a invasão pacífica dos EUA, o gesto sugere uma submissão pacífica e, ecos Adornianos, é a entrega de um troféu vital da tradição à razão instrumental. O dono do aquário, num francês desajeitado e na pose da foto oficial, pede ao patriarca Alexis Tremblay que fale à cidadezinha de Ilê-de-Coudres o agradecimento pela presa obtida. O filho de Tremblay responde na mesma hora, apontando para a beluga já dentro do aquário:  “falaremos de você lá. E ele falará de nós aqui” (nesse momento a edição insere uma gravação de belugas feita por um laboratório nos EUA).  A baleia fica no aquário, os dois voltam para a casa e assam sardinhas à luz da lua; o documentário de Brault e Cia segue e conta toda essa história. Mobilis in mobile.

 

Filmes Citados:

Blinkty Blank (idem, 1955/Norman McLaren)

Les Raquetteurs (idem, 1958/dirigido por Gilles Groulx e Michel Brault)

Québec-USA ou L’invasion pacifique (idem, 1961/Michel Brault e Claude Jutra)

Crônicas de um verão (Paris 1960) (Chronique d´um été, 1961/Jean Rouch e Edgar Morin)

Pour la suite du monde (idem, 1963/dirigido por Pierre Perrault e Michel Brault)

 

Livros Citados:

VERNE, Júlio. 20 mil léguas submarinas.

VERNE, Júlio. Da Terra à Lua.

MELO, João Batista. As baleias do Saguenay. Rocco, 1995.