por Nísio Teixeira

Cine OP: Digressões

Rápidas digressões sobre outros filmes exibidos no Cine OP: Cidade Dual, Person, Pixinguinha e Cão sem Dono.

Depois de um longo texto sobre o filme de Salles, ofereço pequenas e curtas observações sobre outros filmes que assisti na mostra. É possível, aliás, detectar alguns pontos de contato, ainda que, em alguns casos, muito tangenciais, de Santiago com outros documentários vistos em Ouro Preto: Cidade Dual, dirigido por Leo Ayres; Person, por Marina Person; e Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, por Thomas Farkas e Ricardo Dias. Mas a única ficção por mim assistida, Cão sem Dono, por Beto Brant e Renato Ciasca, também recebe aqui um breve comentário. Como disse, é bom lembrar que todos esses textos foram analisados por outros integrantes do Filmes Polvo no calor da cobertura da mostra em Ouro Preto e podem ser lidos aqui no site.

Cidade Dual – Uma premissa criada por um personagem doméstico balizou a escolha de Salles e também a de Leo Ayres - incomodava a este diretor o desconhecimento da vida e da visão de mundo da empregada de sua casa. A idéia acabou se desdobrando em um documentário interessante, produzido em duas áreas distintas de Belo Horizonte: o condomínio Alphaville e o aglomerado da Serra. A dualidade é dada não só pelas duas partes e, conseqüentemente, os dois universos que compõem o filme, mas pelo cuidado em trabalhar não só uma mesma seqüência de enquadramentos com os personagens entrevistados (como, por exemplo, planos da cozinha tanto em uma região como outra e manifestações de fé em ambas), mas também enfatizar os preconceitos que cada morador sofre por morar em cada uma das regiões retratadas. Essa situação de equilíbrio do filme é interessante porque atinge com plenitude um de seus possíveis objetivos que é mostrar, ao final, o desequilíbrio social da capital mineira. O único deslize me pareceu a presença de um rap na segunda parte do filme, sobre o aglomerado. Ainda que o diretor tenha buscado polemizar com o grupo, talvez fosse interessante para o espírito do filme incluir alguma manifestação cultural, musical, que expressasse a realidade do Alphaville pelos moradores. Também sou contra a idéia de que a expressão cultural dos aglomerados só pode se dar através do rap ou grafitagem, mas aí extrapolei, pois essa é uma reflexão que me foi produzida a partir do filme de Ayres e não algo que deveria constar no mesmo.

Person – Rever a si próprio através de um filme, como vimos, foi algo muito forte para o diretor João Moreira Salles em Santiago. De certa forma, deve ter sido também para Marina Person, no documentário produzido sobre a trajetória do pai, o diretor Luís Sérgio Person. Em uma bela passagem, Marina também usa o documentário para confessar que boa parte de suas lembranças sobre o pai, morto quando ela tinha cerca de quatro anos, foram dadas através das fotografias e dos próprios filmes. Ou seja, mais do que um espectador cinematográfico ou cinéfilo, Marina se tornou uma espécie de cinéfilia, buscando conhecer o pai perdido através dos filmes que produziu. Além da reunião de uma iconografia primorosa do diretor, Marina apresenta depoimentos de atores, compositores, diretores contemporâneos ao pai. Mas nos momentos iniciais e finais é que a Person cede lugar a uma persona: preocupada, com razão, em traduzir suas reações para o público diante dos depoimentos, Marina talvez tenha exagerado, nas primeiras cinco ou seis entrevistas, e, ao final, também, ao refletir sobre a morte do pai, na quantidade de contraplanos que traduzem expressões de seu próprio rosto. Mas talvez eu esteja sendo injusto demais por escrever isto ainda contaminado pelo distanciamento ressentido de Salles em Santiago: Marina quer é buscar mesmo, com o documentário, uma maior aproximação à memória e ao legado à persona mui gratta do pai e compartilhar esse caminho com o espectador.

Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba – Aqui, o ponto tangencial com Santiago é simplesmente o fato de ser um filme antigo, quase esquecido, revisto e restaurado. Trata-se de um curto registro em câmera 16 mm de Farkas durante um show da Velha Guarda em meados da década de 1950. Lá estão Donga, João da Baiana, Almirante, Benedito Lacerda e tantos outros, além do Pixinguinha. Como o filme registrado era mudo, houve um rigoroso trabalho de sincronização do som às imagens apresentadas. É uma rara documentação do músico com seus famosos companheiros, muitos provenientes ainda da época dos Oito Batutas, com os impagáveis passos de dança de Donga, a flauta de Lacerda, a percussão de João da Baiana usando uma faca e um prato, além da simpatia viva que devia ser mesmo esse Pixinguinha.

Cão sem dono – Adaptação do livro de Daniel Galera, o mais recente filme de Brant me provocou uma impressão: da somatória de planos interessantes, outros nem tanto, com um bom elenco, destacando-se aí também os casais coadjuvantes (pai e mãe, amigo motoboy e esposa). Essa sensação de estranhamento pelo investimento e domínio, em boa parte do filme, de enquadramentos e planos de situações afetivas (entre o par central, uma reunião de amigos, uma conversa de família) talvez se explique porque ainda não vi o filme anterior do diretor, Crime Delicado, no qual parece que Brant começa a mergulhar mais fundo nessa proposta. De qualquer forma, acho que o final do filme não precisava fechar tanto a narrativa: poderia optar por uma solução mais aberta no que diz respeito ao destino do protagonista.

Filmes citados:
Santiago (idem, 2006/ João Moreira Salles)
Cidade Dual (idem, 2007/ Leo Ayres).
Person (idem, 2006/Marina Person).
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba (idem, 2006/Thomas Farkas e Ricardo Dias).
Cão sem Dono (idem, 2006/Beto Brant e Renato Ciasca).