por Nísio Teixeira

O momento decisivo: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (II) - La Lutte, Québec-USA ou L’invasion pacifique e Les enfants du silence

Comentamos como o curta Les Raquetteurs “inaugura” várias implicações presentes na discussão sobre cinema direto e cinema verité no Quebec. Na verdade, o filme funciona como um termômetro das idéias cinematográficas em ebulição dentro, mas também fora do Canadá, como nos EUA e Europa. Aliás, o filme também inaugura uma espécie de “radiografia etnográfica” dos grupos que compõem a sociedade quebequense, logo às vésperas de outra ebulição propicidada por sua Revolução Tranqüila.  Por fim, como dissemos na coluna passada, o filme consolida a transição de uma espécie de primeira fase de Brault, correspondente aos anos de aprendizado como fotógrafo e câmera de cinema e televisão, com um segundo momento, ocasião em que se encontra uma oportunidade histórica, política e cinematográfica para a construção de um caminho próprio.

 

O que se consolida também é a parceria com Claude Jutra, importante e já comentado cineasta do Quebec, que hoje batiza o principal prêmio de cinema da província canadense.  Na coluna de hoje, vamos acentuar a virada para essa segunda fase do cineasta, que avança em algumas idéias de Les Raquetteurs, bem como a parceria com Jutra, na produção de outros três curtas-metragens: La Lutte, Québec-USA ou L’invasion pacifique e Les enfants du silence. Momento que vai recolher elogios, mas não vai dispensar duras críticas de colegas cineastas do Quebec: Jean Pierre Lefebvre e Jean-Claude Pilon.

 

La Lutte

 

Filmado dois anos após Les Raqqueteurs, La Lutte é um projeto dividido entre quatro diretores: além da dupla Brault e Jutra, Marcel Carrière e Claude Fournier, a quem o crítico Marc Saint Pierre atribui o mérito da idéia original, que foi estimulada pelo semiólogo Roland Barthes (!) quando de sua passagem pela NFB/ONF (National Film Board / Office National du Film).  O filme, por sua vez, é dividido em dois momentos: os bastidores e os embates dos lutadores de telecatch (também conhecidos como wrestlers) e, nelas, a luta final e importante entre duas duplas campeãs, uma delas encabeçada pelo francês Édouard Carpentier, campeão mundial, ex-herói de guerra e verdadeiro ídolo francófono, tendo como parceiro Domenico De Nucci contra Al Costello e Ivan Kalmikoff. 

 

Interessante escolha porque é curioso como o novo projeto de Brault, Jutra, Carrière e Fournier para o cinema documentário emergente do qual participavam opta por abordar exatamente algo que “manipula” a realidade, que são as lutas de telecatch. Como no cinema, há um pacto pré-estabelecido entre o público e a atração, no qual sabe-se que muito do que está sendo lutado ali é pura encenação. Mas, curiosamente, uma encenação que resvala no real de uma certa violência que é necessária para as brigas, levantar a massa de espectadores,  produzir suor e, claro, um pouco de sangue.  E  assim, manipulando as considerações do colega polvo Gabriel Martins em sua crítica a O Lutador de Darren Aronofsky sobre o mesmo universo, aqui, começar pelos bastidores (no caso, da própria luta) é o que dá saboroso valor cinematográfico ao filme. 

 

Aliás, antes mesmo do primeiro plano, a imagem com os créditos do filme é cortada por silvo típico dos filmes de faroeste, exatamente naquele momento do duelo a dois, na rua deserta, com bolas de feno rodando...  o singelo assovio  já prepara o espírito irônico do começo. Segue-se a sequência de preparação dos atletas, em que alguns truques de luta – como saltos voadores no peito do oponente, chaves de braço que reviram o adversário, socos etc – são apresentados durante o treinamento e, em uma vez, até mesmo uma criança aprendiz dá a “chave de braço” em um dos grandalhões do time.

 

O clima farsesco ganha força com a transferência das filmagens para uma arena de luta em Montreal.  Brault deixa os lutadores e passa a enfocar o público que chega, acomoda-se, é diverso em faixas etárias, sociais e sexuais e que tem o ânimo gradativamente preparado com as lutas que antecedem o confronto principal.  Entre lutadores que entram no estádio com vestimentas mexicanas e de caubóis que provocam o público no seu caminho para sua entrada no ringue – ou palco – a platéia vai se transformando gradativamente: das faces bem comportadas e sentadas no início para o círculo de multidão em pé, ao redor do ringue, aos gritos e berros. A recorrência a uma trilha sonora ajuda também a pontuar os momentos das lutas.

 

Assim, quando é a vez da derradeira e principal luta entre as duplas finais, tudo está preparado. A dupla Carpentier-DeMucci vence o primeiro assalto, perde o segundo e, no terceiro, De Mucci é nocauteado e Carpentier parece seguir o mesmo fim, para desespero da ampla torcida. Mas o herói volta para o ringue num salto e caminha para a vitória... Enquanto a glória chega para ele, ainda que feita de sangue, uma cartela anuncia, como no cinema mudo (cuja influência foi atribuída, por sua vez, à trilha sonora utilizada)  que,  “enquanto isso no vestiário dos Kangoroos” a dupla dos “vilões”, encara e diz para a câmera protestos em russo e em inglês, com a inserção de uma legenda que traduz (?) os xingamentos de Kalmikoff.  Corte para  os fãs aguardam por Carpentier e, por fim, corte para os funcionários que limpam o ringue/palco. 

 

O toque do xingamento (?) traduzido (?) é perfeito para consolidar a proposta do filme, que reaproxima o cinema de seu ambiente nascedouro de quermesses, parques de diversão e atrações diversas como magia e lutas para as massas emergentes no século XIX (espírito reiterado ainda pela trilha e pelas cartelas ao final). Mas também para rearticular, pra não dizer debochar, da própria seriedade que outrora envolvia o documentário ao aproximar o documentarista do tema do lutador wrestler: ambos partem de premissas que querem experimentar, construir e conduzir o real, mas sabem que, por mais preparação que exista,  a realidade pode pedir um pouco mais de sangue no caminho.

 

Québec-USA ou L’invasion pacifique

 

Este é o último curta creditado à parceira Brault-Jutra, que, contudo, está longe de acabar. Ela vai se prolongar em outras funções em curtas futuros e, principalmente, em longas-metragens a serem desenvolvidos por ambos.  Bem, se em La Lutte há intervenções na montagem que evidenciam a “verdade” por trás do fato filmado, em Québec-USA ou L’invasion pacifique a idéia será levada ao extremo, em especial em uma montagem crítica da troca de guarda dos soldados ingleses durante cerimônia militar na capital Quebec que marca a vitória inglesa sobre os franceses em 1759 e que custou a submissão do Quebec ao império britânico.

 

Bom, essa é apenas uma das quatro partes que marcam esse documentário, cuja premissa é enfocar os turistas dos EUA que vão passear na capital do Quebec (que tem o mesmo nome da província) à luz da histórica submissão e/ou resistência quebequense ao domínio inglês. Aspecto que o próprio título não esconde ao chamar o turismo estadunidense de “invasão pacífica”.  A parada inglesa em questão corresponde à terceira parte do filme e é antecedida pelos estadunidenses que vão ao Quebec estudar francês (primeira parte) e um casal negro que contrata um carro e um guia quebequense para mostrar os pontos históricos da cidade (segunda parte). O filme conclui com um footing no platô do imponente Chateau Frontenac, quando oficiais dos EUA, especialmente marinheiros, cortejam os brotinhos quebequenses.

 

É este filme que promove a forte crítica dos cineastas Lefevbre e Pilon,  mencionada acima, mas que, na verdade, remonta aos filmes anteriores. Primeiro, pela idéia de co-direção, às vezes com quatro pessoas, caso de La Lutte, que impede a evidência de um olhar mais assumidamente pessoal – e aí eles utilizam como comparação o núcleo inglês, que trabalha em equipe, mas normalmente credita um realizador. Segundo, pelo risco exagerado de manipulação e distorção do real a favor de um ponto de vista. Para os autores, de comedido e até aceitável em Les Raquetteurs, passou do ponto em Quebec-USA:   “é lamentável que [o filme] tenha um papel para o que eles [os diretores] querem, sendo destinado apenas para, simplesmente, impressionar o espectador. Impressionar: esta parece ser a primeira preocupação de Brault e Jutra. (...) Um exemplo perfeito: a seqüência da troca da guarda. Brault e Jutra fazem o emprego de tudo que podem para estragar o original que poderiam explorar: planos ‘zoomizados’, imagens invertidas e congeladas se sucedem com espantosa e não justificada rapidez. Os dois se divertem, se divertem, se divertem e não nos deixam tempo para ver. ‘Admirem-nos’, parecem dizer, ‘admirem nossa criatividade, nosso virtuosismo, nosso humor; o assunto que  filmamos é desinteressante’”.  Para a dupla de críticos, parece que a equipe francesa da ONF, picada pelo cinema verité de Rouch, sofre de um pseudorouchismo: banaliza, voyeuriza, mas não universaliza o real filmado.

 

Crítica pesada e não de todo improcedente. Sobre a febre de co-direções, realmente pode ser um problema, mas não creio que os filmes vistos até aqui tenham perdido uma identidade em si por isso. Há, certamente, o risco de “colcha de retalhos”, mas não parece ser o caso examinado até aqui nos filmes em que essa ocorrência foi feita. Já a argumentação com relação à troca de guarda é mais coerente – contudo, a idéia dos diretores era, presumo, certamente  alcançar a ridicularização da troca de guarda inglesa como uma crítica audiovisual  ao domínio britânico na província - com a  recorrência dos elementos de montagem citados (inclui-se aqui a montagem paralela de um menino que lê as histórias de Gulliver deitado sobre um canhão inativo enquanto enfoca-se o momento final da troca de guarda, que precisamente é um disparo do mesmo tipo de canhão.  Metáfora explícita para a resistência liliputiana do Quebec ante o gigante britânico...). Aí fica até curiosa essa crítica partir de Lefevbre, que está longe de ser um defensor da presença inglesa no Quebec. Contudo, há sim o risco de, por tabela, ridicularizar os turistas americanos presentes ao evento. Mas, curiosamente, a linha dessa ridicularização recai na obsessão dos turistas em querer fotografar e filmar tudo – isso em 1961! Em várias seções aqui do Filmes Polvo, essa estranha obsessão de filmar e ser filmado já foi diversas vezes comentada e constatada na proposta de filmes bem mais recentes.

 

O problema da ridicularização das pessoas filmadas acontece, novamente para a dupla de críticos, na sequência final, em que, aparentemente, as quebequenses praticamente se oferecem para os oficiais e marinheiros estadunidenses. Não creio. Há um equilíbrio entre as condizentes e reticentes – afinal, são apenas alguns flertes – mas evidencia-se, por outro lado, a presença dos estadunidenses ali apenas como que para esse fim.  Assim, se há uma caricaturização preconceituosa dos personagens, creio que o risco maior recai sobre os oficiais e marinheiros dos EUA, não das quebequenses.

 

Outra discordância da dupla crítica é que, nas duas primeiras partes, não creio que o uso das frases de cartilha utilizadas como fundo para a inclusão de planos que não aqueles das aulas seja desprovido de sentido. Há momentos interessantes. Por outro lado, concordo que o passeio com o casal de negros, em carro aberto pelo Quebec poderia ser mais aproveitado. Aí os diretores ficaram mais atentos ao projeto original, que mostra o casal fotografando e com um interesse apenas superficial na história do Quebec – interesse criado, claro, pela própria condição de guia turístico – ao invés de investir no notório estranhamento que a circulação daquele casal produzia em meio a alguns planos em que as pessoas nas ruas olhavam de soslaio para eles.

 

Influenciado ou não pelos argumentos de Lefevbre, este, de fato, acabou sendo o menos interessante curta porque sua idéia foi pouca ou desequilibradamente potencializada no filme.

 

Les enfants du silence

 

De novo, uma boa premissa: três crianças (Anuk, um menino adotado e Nicole) com problemas de audição são levadas pelas mães para exames no hospital Notre Dame. Entrementes, como funciona a educação para crianças surdo-mudas no Quebec e um grupo musical de jovens coreanas surdas, cuja música vai pontuar alguns momentos do filme.

 

Em formato convencional, bem à Grierson, com off de comentários narrados por Jutra, o filme de Brault, contudo, evidencia uma grande sensibilidade. Existem pelo menos um plano relacionado à cada uma das três crianças em que o tema e o problema são expostos de maneira a um só tempo forte e delicada: o desenho, no quadro, de uma boneca – sem as orelhas - por Anuk; o olhar perdido do menino adotivo, que traduz o estado de sua audição e, o mais comovente,  a pequena Nicole na sala de testes auditivos: a cada aumento de volume, o paciente deve apontar uma reação positiva para o headphone que utiliza. Ouvimos o volume aumentar e aumentar enquanto vemos o rosto impassível e indiferente de Nicole, que estranha tudo aquilo e, de repente, dirige esse mesmo olhar à câmera.

 

Essas soluções não estão ali por acaso: o filme é um convite explícito para que os pais levem os filhos aos centros médicos assim que detectarem o mais remoto problema na audição das crianças (outro eco de Grierson: o documentário como instrumento paradidático para difusão de direitos e deveres). Cabe enfatizar aqui, ainda, um detalhe interessante: os testes foram feitos pelos otorrinolaringologistas, mas apresentados numa mesa de reuniões do hospital que incluía outras especialidades médicas, como pediatria, além de psicólogos e assistentes sociais para ver quais os rumos a serem adotados, a partir dali, em relação aos pacientes ante os resultados.  Ou seja, a idéia de interdisciplinaridade no tratamento médico já acontecia no Quebec há mais de 40 anos!

 

E com essa cena encerramos mudando totalmente de assunto com a pergunta que não quer calar: o sistema de saúde lá será a eficiência que Michael Moore pintou em Tiros em Columbine ou o pesadelo terceiro-mundista de Denys Arcand em Invasões Bárbaras?

 

Filmes citados

Les Raquetteurs (idem, 1958/dirigido por Gilles Groulx e Michel Brault)

La Lutte (idem, 1961/Michel Brault, Claude Jutra, Marcel Carrière e Claude Fournier)

Québec-USA ou L’invasion pacifique (idem, 1961/Michel Brault e Claude Jutra)

Les enfants du silence  (idem, 1961/Michel Brault)

Tiros em Columbine (Bowling for Columbine, 2002/Michael Moore)

As invasões bárbaras (les invasions barbares, 2003/Denys Arcand)

O Lutador (The Wrestler, 2008/ Darren Aronofsky)

 

Texto citado

LEFEVBRE, Jean Pierre e PILON, Jean Claude. L’ équipe française souffre-t-elle de ‘Roucheole’ ?

Texto presente no livreto Michel Brault – Ouvres 1958-1974 : textes et témoignages, que acompanha a caixa da coleção Memoire sobre cineasta que reúne, em DVD, suas produções para a NFB/ONF no período 1958-1974.