por Nísio Teixeira

A mente que mente ou a decência na decadência

Antes da crítica, um rápido nariz-de-cera.

 

Quando trabalhava na redação do Hoje em Dia fiquei – bem como outros colegas – muito sentido com o fechamento de uma farmácia vizinha ao jornal. Ela era daquelas tradicionais, com altas prateleiras de madeira e consoles de madeira com tampas de vidro, mas não resistiu à pressão da onda de redes que varreu estas farmácias do mapa.  Os poucos funcionários foram minguando bem como os remédios e, no final, não restavam mais que algumas caixas de dentifrício, aspirinas e esparsos medicamentos espalhados nas desertas prateleiras.  Mas, como assinalou o colega Carlos Calaes num breve comentário na redação, o proprietário mantinha-se, como sempre fazia, na soleira do estabelecimento, vestido de forma simples, porém elegante, com os cabelos moldados pela brilhantina e as mãos para trás, solícito ao primeiro freguês ou, como acontecia, para um bate-papo sobre os bastidores dos laboratórios farmacêuticos do Brasil e do mundo. “Ele pode estar perdendo a farmácia, mas não está perdendo a hombridade”, se me lembro das palavras do Calaes.

 

Sabemos que, no cinema, manter a decência na provação da decadência, não é algo inédito. Muitas obras-primas com esse mote, aliás, foram forjadas na história do cinema – como Ladrões de Bicicleta e, claro, no cinema dos EUA porque é algo inerente ao sonho americano. Basta pensarmos, por exemplo, em vários filmes de Capra – e, se adivinho o seu pensamento, A felicidade não se compra aparece na lista imediata. Ou mais adiante na história, na fatídica virada para a década de 1970, quando a geração rock’n’roll ganhou força em um momento de relativa decadência de Hollywood apresentando outras obras-primas que apostavam nesse argumento. E, se mentalizo sua lista agora, ela inclui filmes como A noite dos desesperados, Perdidos na noite, A garota do adeus...

 

Mente que mente (The Great Buck Howard... desnecessário bater aqui na tecla das ridículas – e, pior, falsas – traduções) está longe de figurar ao lado das obra-primas que apostam nessa linha. Mas aposta nela com hombridade e delicadeza ao falar da trajetória do mentalizador Buck Howard, personagem fictício, embora inspirado em um artista verdadeiro, Amazing Kreskin.

 

Howard (John Malkovich) precisa de um novo produtor dos shows que faz peregrinando pelos palcos das pequenas cidadezinhas dos EUA. Mais que isso, quer voltar aos tempos de glória, em que era entrevistado no Tonight Show de Johnny Carson e aos grandes palcos de Las Vegas.  A pessoa escolhida é Troy Gable (Colin Hanks) que desiste da chatice de ser advogado para ser escritor e encontra o anúncio de Howard em um jornal, sem saber, antes do encontro, que se trata do ex-astro.  Para Troy, o emprego era apenas uma forma de tentar ganhar algum dinheiro pra pagar as contas enquanto desenvolvia o livro. Contudo, nas andanças com Howard, Troy se aproxima cada vez do mundo encantado do sistemático e intempestivo astro – exatamente pela idéia de decência na decadência e, mais que isso, pela idéia de que, em termos profissionais,  mais vale uma boa satisfação do que um bom salário.

 

Escrito e dirigido por Sean McGinly, o filme expõe, exatamente, o peso das escolhas de cada um dos protagonistas. Troy enfrenta o pai (Tom Hanks) que queria o filho numa carreira mais segura financeiramente. Howard enfrenta o desinteresse e o cinismo do mainstream, quando finalmente tem a chance de aparecer no programa de Jay Leno e fazer sucesso em Vegas.  Assim como Troy, abdica de seus truques para manter-se com um pouco mais de autonomia e dignidade pessoal e profissional nos pequenos circuitos de shows nas cidadezinhas.

 

Entrementes, todo um panorama e homenagem explícita às figuras esquecidas que outrora foram idolatradas no show-biz, com destaque para as impagáveis presenças de George Takei (o senhor Zulu da boa e velha Enterprise) e Michael Winslow (o homem dos mil efeitos vocais de Loucademia de Polícia).  O filme é assim, uma espécie de Wall-E de crítica leve ao universo esquecido da indústria cultural com seus artistas, ex-artistas e fãs.

 

Filmes citados

 

A felicidade não se compra (It’s a wonderful life, 1946/direção de Frank Capra)

Ladrões de Bicicleta (Ladri de Biciclette, 1948/Vittorio de Sica)

A noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?, 1969/Sydney Pollack)

Perdidos na noite (Midnight cowboy, 1969/John Schlesinger)

A garota do adeus (The good-bye girl, 1977/Herbert Ross)

Loucademia de polícia (Police Academy, 1984/Hugh Wilson)

Wall-E (idem, 2008/Andrew Stanton)

A mente que mente (The Great Buck Howard, 2008/ Sean McGinly)