- Un homme et son péché – clássico do Quebec revisitado
- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte II, a faceta “engajada”: Gallipoli, O ano em que vivemos em perigo, A testemunha e A costa do mosquito.
- Em busca do sentido Ryan (e Alter Egos)
- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte I, a faceta alegórica: Violência por acidente, Pic Nic na montanha misteriosa e A última onda.
- Pierre Perrault e a trilogia de Île-aux-Coudres: uma nação encontra a tradição
- O mágico: a delicadeza de Chomet encontra a melancolia de Tatit
- Michel Brault (final) - Les enfants de Néant e Les Ordres em conexão com Octobre, de Pierre Falardeau: jogos mortais de conformismo ou resistência
- Michel Brault, parte VI - L’Acadie, L’Acadie’?!, Elogie du Chiac em conexão com High School, de Frederick Wiseman: o ano sem fim de 1968 e belas lições cinematográficas.
- De Gypsy woman a Superfly: saudades do Curtis Mayfield
- Ainda a Juvenília: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (V) – Entre La mer et l’eau douce
- Juvenília: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (IV) – Le temps perdu e Geneviève
- Utopia e Barbárie: pedaços de bons e maus caminhos
- Mobilis in mobile: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (III) – Pour la suite du monde
- O Segredo de Seus Olhos ou as revelações do olhar de Campanella
- Breve Panorama do Cinema Sergipano
- A mente que mente ou a decência na decadência
- O momento decisivo: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (II) - La Lutte, Québec-USA ou L’invasion pacifique e Les enfants du silence
- O momento decisivo: Michel Brault e o cinema verdade no Quebec (I) - Les Raquetteurs
- Mon Oncle Antoine : pérola da filmografia quebequense (e mundial)
- Dalva & Herivelto - uma canção de amor: gratas surpresas na ingratidão do tempo.
- Parênteses anglófono no cinema do Quebec – II: Ted Kotcheff e O Grande Vigarista (1974)
- O Complexo Baader-Meinhof: encruzilhada civilizatória

por Nísio Teixeira
Dalva & Herivelto - uma canção de amor: gratas surpresas na ingratidão do tempo.
Antes da crítica, um desabafo.
A minissérie dirigida por Denis Carvalho vem pagar uma dívida importante da TV e da rádio brasileiras, fatura que já começou de certa forma a ser quitada ano passado com a minissérie sobre Maysa. Explico: tudo o que a TV brasileira é, hoje, deve ao teatro, ao rádio e ao cinema brasileiros entre as décadas de 1930 e 1950. Orlando Silva, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Benedito Lacerda, Vicente Paiva, as irmãs Batista, as irmãs Pagãs, as irmãs Miranda, Emilinha Borba, Marlene, Antenógenes Silva, João Petra de Barros, Custódio Mesquita, Nuno Roland, Déo, Araci de Almeida, Noel Rosa, enfim, uma plêiade de nomes importantes, uns mais, outros menos conhecidos, além de uma imensa gama de compositores dos morros das capitais, especialmente do Rio, boa parte deles caída no anonimato, outra parte com algum lugar ao sol como Cartola, Ismael Silva, Pixinguinha, Príncipe Pretinho e tantos outros geraram a riqueza artística que impulsionou a gradativa expansão da indústria cultural brasileira, rudimentarmente nas primeiras décadas do século XX, até o apogeu do período citado.
Mas o que se vê hoje é que, salvo uma ou outra emissora de rádio e, uma ou outra televisão pública, parece que esse período musical, esses nomes e essa importância não existem. Parece que a MPB começa com a Bossa Nova. Enfim, se ligamos o rádio e a TV brasileiras, que são o que são hoje por causa dessas pessoas, elas estão ausentes dessa história. Recentemente, aliás, coube ao cinema, mais uma vez, cumprir esse papel com uma miríade de filmes documentários e ficcionais sobre vários nomes de nossa MPB (Cartola, Noel Rosa, Paulinho da Viola, dentre outros). Enfim, é de causar perplexidade, pra não dizer vergonha ou ingratidão, a ausência dessas vozes e do trabalho desses compositores e orquestradores na programação eletrônica brasileira. Não fossem esses raros programas de rádio e TV, ou iniciativas importantíssimas como o acervo musical do site do Instituto Moreira Salles, que digitalizou milhares de fonogramas a partir do árduo trabalho de compilação Brasil afora de discos 76 e 78 rotações feito pelos pesquisadores José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi, essa história estaria perdida.
Pronto. Feito o desabafo, vamos ao que interessa, porque, ainda assim, olhando para a minissérie, que se encaixa no rol destas importantes iniciativas, o débito sai negativo. A razão é simples: a estrutura escolhida, como anunciado nas chamadas e mesmo na vinheta (um disco partido ao meio) reforça o argumento central da trama, que é a série de desentendimentos do par central Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. O problema, do meu ponto de vista, reside aí, porque a minissérie resolve contar um momento importante da vida artística e social brasileira a partir do argumento corriqueiro em qualquer outra novela da Globo: um casal que se desentende, o drama familiar, as intrigas, os “núcleos” cômicos (Dercy, pelo lado da Dalva; e Otelo, pelo lado de Herivelto) e por aí vai. Ou seja, incorpora elementos que são garantidos na teledramaturgia brasileira e não ousa tanto como, por exemplo, Luiz Fernando Carvalho em Os Maias, dirigido por Carvalho e escrito por Maria Adelaide Amaral, quem, aliás, assina também a minissérie de Denis Carvalho. Mesmo daí se afastou o ator Fábio Assunção, que parece incorporar o tipo irrequieto que marcou suas interpretações mais recentes da TV. OK, os Maias durou quase 50 capítulos, enquanto Dalva & Herivelto, apenas 5... Mas esse é ponto: talvez por tamanha microssérie, não há outra solução a não ser deixar tudo no osso, ou seja, apelar aos núcleos e às fórmulas mais tradicionais.
O primeiro capítulo evidencia isso muito bem, em especial pela ingratidão da pressa: com uma montagem frenética passamos rapidamente pela apresentação dos personagens para logo esticar e deixar bem claro o argumento central de amor, ciúme e traição. Se a primeira impressão é a que fica, a do primeiro capítulo não foi nada boa – salvo, desde então, pela impecável direção de arte e caracterização, em especial no direcionamento à reconstituição do rádio e dos cassinos (mas em menor grau para algumas intervenções digitais em planos gerais da então capital federal nos anos 1940 e 1950).
Mas a sobriedade desse trabalho (reforçado por um casting formidável) parecia não ser acompanhado pela cinematografia - e aí me lembrei do célebre memo vazado anos atrás do Boni, então um dos chefes da emissora, pedindo pra evitar o “efeito MTV” (narração rápida, cortes secos, montagem frenética) na imagem global. No primeiro episódio, Boni teria razão: uma sensação de absoluta incongruência. Efeito MTV pra falar da segunda e mais áurea fase do rádio, quando o compasso mais rápido era o das emboladas de Manezinho Araújo ou de Carmen Miranda cantando Bambu-bambu-bamboleo...
No segundo e terceiro capítulos, o início de uma boa surpresa: parecia que, gradativamente, a série queria respirar e, felizmente, o texto de Maria Adelaide consegue transparecer um pouco mais. Fala afinal, de outros personagens e episódios importantes, do risco do fechamento dos cassinos para aquela indústria instituída e de outras coisas que pareciam não acontecer no mundo onde tudo o que parecia existir eram as rusgas domésticas entre Dalva e Herivelto.
No penúltimo capítulo, enfim, um espetáculo: parece que, uma vez que os barracos recíprocos de Dalva e Herivelto estão armados e a série parece chegar aonde sempre quis o tempo todo, há tempo, enfim, para uma refinada cinematografia: um plano sequência em plongée que exalta a solidão e o sofrimento de Dalva e a acompanha pelo quarto. Também a discussão entre Herivelto e Nilo Chagas (Maurício Xavier, excelente), que culmina com a saída de Chagas. A cena mostra um plano com os dois sentados, discutindo, até que Chagas se levanta e sai. Então a câmera desliza em panorâmica, mostrando que os espectadores não eram os privilegiados daquele momento, mas também a esposa de Herivelto, Lourdes (Maria Fernanda Cândido, assim como Adriana Esteves no papel de Dalva, estão bem convincentes), que comenta o caso. Elipses e jump-cuts explorando a música (ou melhor, a guerra musical entre os amigos compositores de Dalva e Herivelto), ora cantada nas rádios, depois, no corte a outro plano, recaindo no aparelho de rádio ligado em casa.
O show em que Herivelto é vaiado, após uma sequência de apresentações das “rainhas” do rádio e do samba, incluindo Dalva e Chico Viola, em um delicioso pot-pourri de sambas e marchinhas, exibe, literalmente, um show... A sequência da feira, em que o carro de Herivelto sofre uma chuva de tomates e xingamentos em câmera lenta. E ainda a profundidade de quadro é explorada, como no plano final, em que Herivelto (um Fábio Assunção mais comedido), a filha e o filho Peri Ribeiro estão dispostos no mesmo quadro e o compositor, dando as costas aos filhos, segura as lágrimas, deixando essa informação com o espectador – o que suaviza (um pouco) a imagem rude de Herivelto.
Enfim, a minissérie, quando parece atingir um equilíbrio razoável entre o argumento central, a cinematografia, o casting, a direção de arte... dá uma leve desarticulada no último episódio e aí, simplesmente, termina – como este texto. Mas, voltando ao desabafo, se todo esse esforço representar o início de um retorno das emissoras e de boa parte dos espectadores para o momento importante de nossa história cultural, a contribuição da série já será inestimável.
Minisséries Citadas:
Os Maias (idem, 2001/ Luiz Fernando Carvalho)
Dalva & Herivelto – Uma canção de amor (idem, 2009/Denis Carvalho)
Site Citado:
Instituto Moreira Salles: www.ims.com.br







