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- O Complexo Baader-Meinhof: encruzilhada civilizatória

por Nísio Teixeira
O Complexo Baader-Meinhof: encruzilhada civilizatória
Passados mais de 20 anos, a música Baader-Meinhof Blues, do primeiro disco do Legião Urbana soa diferente. Naquela primeira audição, a canção soava como mais um lamento sócio-urbano, tão comum nas letras de Renato Russo. Foi quando, intrigado pelo nome esquisito da música, descobri que, estranhamente, o título se referia a marginais que aterrorizaram a Alemanha na virada dos anos 1960 e 1970 (pode-se gostar ou não, mas, cá pra nós, onde estão os cronistas políticos do rock brasileiro de hoje?). A coisa mudou de figura. Agora, no mundo pós 11 de Setembro, a noção de terrorismo vem à tona e o complexo ao qual pertenciam Andreas Baader e Ulrike Meinhof, a RAF (sigla em alemão para a Facção do Exército Vermelho) é reexaminado por Uli Edel.
Curiosamente, o nome do diretor também não é de todo estranho à geração 80, pois é dele o frisson (à época) Eu, Cristiane F., drogada e prostituída. Outro mergulho no “submundo” alemão da década de 1970. Mas se aqui Udel aposta (salvo melhor juízo) na fórmula de um drama de moralismo hiperrealista sobre as drogas, compensado pela trilha (e presença) de David Bowie, em Complexo Baader-Meinhof revê novamente a Alemanha daqueles tempos enfocando mais a égide da turbulência política, com ênfase, claro, nas ações da RAF.
Assim, é curioso constatar uma encruzilhada histórica na carreira de Udel que retrata, por sua vez, uma época de encruzilhada política e social da Alemanha, país que - para tornar realmente a coisa mais complexa – historicamente sempre funcionou como campo de entrelace entre teoria e prática das mais variadas idéias políticas e estéticas (ambas, não por acaso, têm em comum a esfera da representação. Nietzsche/Wagner; Adorno/Goebbels.... Tanto do ponto de vista artístico, político e filosófico, a Alemanha sempre foi uma importante encruzilhada histórica e radical de forças antagônicas.
Sob tais considerações é que emerge esta superprodução dirigida por Udel, não por acaso precisamente no ano comemorativo da queda do Muro de Berlim, outro importante ponto de inflexão de históricas forças - externas e internas - à Alemanha em seu próprio território. De um lado, o filme de Udel faz uma reconstituição impressionante dos fatos e da Alemanha dos anos 1970, seguindo quase que praticamente à risca a cronologia da RAF organizada por Tom Vague no livro Televisionários.
Procura fazer jus ao título ao expandir o conceito de complexo não só para descrever os agentes e as engrenagens nacionais e internacionais por trás da formação da RAF (ou seja, algo que se aproxima de uma noção de complicado, intrincado), como também complexo porque a organização reflete a obsessão pelas próprias ações ao ponto de atingir uma dimensão patológico-obsessiva (como verificamos na expressão “complexo de Édipo”). Evidencia-se o descontrole atingido pela própria RAF no uso de bombas, assaltos, seqüestros e morte contra o imperialismo dos EUA e um governo alemão acusado de ainda ter ligações com seu passado nazista – e tudo isso em nome de uma sociedade mais... humana?
Por isso e não por acaso, o filme de Udel também será complexo, mas também complicado. Ao querer retratar a cronologia e a construção da RAF, ele é complexo e, de um lado, sabe manejar bem a reconstituição de época, a direção de figurantes e de variado elenco. Mas é precisamente a partir daí que o filme vai, gradativa e ironicamente, perdendo o controle dos diversos personagens que se propõe a narrar – ou seja, se complica na própria rede que criou. Assim funciona, curiosamente, como metáfora do próprio grupo em suas ações (pois o filme se prolonga após a prisão dos líderes da RAF).
É curioso perceber como a temática da vendetta, especialmente àquela associada aos casos terroristas, vem ecoando com muita força em várias produções cinematográficas: de documentários como Um dia em setembro até mesmo a Munique, um dos filmes mais adultos de Spielberg, cujo final abre em um longo plano geral sugerindo que a coisa não terminará ali – da mesma maneira que este Complexo Baader-Meinhof, embora em um plano mais fechado, seco e violento. Finais que sugerem que a espiral da violência-que-gera-violência parece não ter mais fim.
Filmes Citados:
Eu, Christiane F., drogada e prostituída (Christiane F. - Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, 1981/Uli Edel)
Um dia em setembro (One Day in september, 1999/Kevin Macdonald)
Munique (Munich, 2005/Steven Spielberg)
O Complexo Baader-Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex, 2008/Uli Edel)
Livro Citado:
Televisionários – a história da Facção Exército Vermelho, mais conhecida (por engano) como Grupo Baader-Meinhof, de Tom Vague (São Paulo: Conrad, 2001).







