por Nísio Teixeira

Parênteses anglófono no cinema do Quebec – II: Ted Kotcheff e O Grande Vigarista (1974)

Depois do filme de Cronenberg, seguimos com nosso parênteses anglófono no cinema do Quebec trazendo algumas breves considerações sobre um filme dirigido por seu conterrâneo de Toronto, o diretor Ted Kotcheff: O Grande Vigarista - sim, o mesmo de Rambo I e Um morto muito louco.  Bem, vamos tentar comentar o filme sob duas perspectivas: primeiro, mais rápida e displicentemente, pelo que chamo aqui “viés do nome próprio” e depois, mais detida e seriamente, pelo viés do roteiro, adaptado por Lionel Chetwynd do romance do escritor Mordecai Richler, The Apprenticeship of Duddy Kravitz – que também dá nome ao filme de Kotcheff .

 

Kravitz, Rambo e Bernie (o morto muito louco do filme, cujo título em inglês é Weekend at Bernie’s). Em se tratando dos três, é divertido pensar que, além do nome próprio – nos títulos e de Kotcheff, que assina a direção – outro possível e tênue ponto comum entre eles é o típico argumento de uma enrascada na qual os personagens se metem e depois têm que se safar. Bernie, coitado, morto, mas que leva, pior, seus amigos vivos; Rambo, coitado, veterano de guerra desprezado pelo infeliz personagem delegado de Brian Dennehy e seus colegas e Kravitz, coitado, engolido pela própria ambição. Gradativamente, poderíamos desdobrar daí uma outra linha: a enrascada acontece porque, no primeiro caso, Bernie simplesmente morre; no outro porque Rambo se mete nela involuntariamente e, por fim, Kravitz porque se mete nela voluntariamente – vamos a ela...

 

O grande vigarista é a primeira adaptação, para o cinema, de um livro de Mordecai Richler pelo amigo Ted Kotcheff. A parceria já tivera início na TV canadense em 1961, quando já haviam trabalhado uma versão do romance lançado por Richler dois anos antes. Pra variar, A Aprendizagem de Duddy Kravitz (que mantém o nome do livro na versão original do título do filme) seria mais adequado que O Grande Vigarista, pois trata, exatamente, do momento em que o jovem Duddy Kravitz sai do colégio e idealiza um futuro melhor para sua vida. Contudo, gradativamente,  Kravitz transforma seu idealismo em ambição e não hesita em envolver o pai, o irmão, um amigo, a namorada, um rico empresário e até mesmo a máfia em sua complicada ciranda.

 

Duddy Kravitz é uma narrativa de formação com todas as escolhas e renúncias que o personagem faz para definir o início de sua fase adulta. Muito contribui para isso a presença de Richard Dreyfuss no papel principal, em um momento em que experimentava a sensação em sua própria carreira como ator: Kravitz foi rodado após o despontamento geral de Dreyfuss em American Graffitti e antes de sua explosão em Tubarão, Contatos Imediatos e a consagração em A Garota do Adeus, que lhe valeu o Oscar e, em seguida, uma pausa da cena por alguns anos. Vale destacar a presença também do jovem Randy Quaid, além dos veteranos Jack Ward e Denholm Elliott e da atriz Micheline Lanctôt, cuja importante atuação em La vraie nature de Bernadette, já foi mencionada aqui em nossa saga do cinema quebequense.

 

Falado em inglês, o filme se passa em Montreal e, mais especificamente, no universo judaico da cidade, o que valeu, dado o argumento do filme, críticas de antisemitismo à produção – nada muito novo para o roteirista Mordecai Richler. Polêmico e intempestivo, por causa de seus textos, livros e declarações, Richler brigou com todos: a comunidade judaica, à qual pertence, os canadenses anglófonos e os quebequenses separatistas. É aguardada para 2010 a adaptação de A versão de Barney, com Paul Giamatti e Dustin Hoffman, na qual Richler faz uma espécie de exercício autobiográfico espelhado em nomes ficcionais no qual apresenta sua versão sobre a suspeita de ter assassinado o próprio amigo.

 

Não o amigo Ted Kotcheff, nascido no mesmo ano de 1931, que faria outras adaptações das obras de Richler após Kravitz ao cinema, como a primeira versão de Fun with Dick e Jane, com Jane Fonda e George Segal, lançado no Brasil com o belíssimo título de Adivinhe quem vem para roubar (outra versão foi lançada recentemente, com Jim Carrey e Téa Leoni) e, três anos depois de Rambo, outra adaptação de Richler, com roteiro do mesmo: Revivendo a vida, com James Woods e Allan Arkin. Atualmente, Kotcheff assina a produção executiva e alguns episódios da série Law & Order – Special Victims Unit.

 

Filmes Citados:

La Vraie Nature de Bernadette (idem, 1972/Dirigido por Gilles Carle)

Loucuras de verão (American Graffitti, 1973/George Lucas)

O grande vigarista (The apprenticeship of Duddy Kravitz, 1974)  *

Tubarão (Jaws, 1975/Steven Spielberg)

Contatos imediatos do terceiro grau (Close encounters of the third kind, 1977/Steven Spielberg)

A garota do adeus (The goodbye girl, 1977/Herbert Ross)

Adivinhe quem vem para roubar  (Fun with Dick and Jane,1977) *

Rambo I (Rambo – First Blood, 1982) *

Revivendo a vida (Joshua then and now, 1985) *

Um morto muito louco (Weekend at Bernie’s, 1989)

As loucuras de Dick and Jane (Fun with Dick and Jane, 2005/Dean Parisot)

A versão de Barney (Barney’s version, 2010 [previsão]/Richard J. Lewis)

* Filmes dirigidos por Ted Kotcheff