por Nísio Teixeira

Dersu Uzala e Sonhos: natureza e cinema (*)

Apresentar cinema, cidade e natureza como um fio condutor de filmografia possibilita uma associação quase imediata, por exemplo, quando falamos em filmes de John Boorman ou Werner Herzog.  Mas essa complexa relação entre cultura (tendo cinema e cidade como expoentes) e natureza aparece também de maneira enviesada em algumas obras do japonês Akira Kurosawa, aliás um mestre da – nem sempre fácil – conciliação entre homem e natureza, como se verifica em filmes como Dersu Uzala e Sonhos.

 

Afinal, com pouco mais de 30 obras, a filmografia de Kurosawa pulsa os encantos e desencontros entre o oriente e o ocidente e, neles, os encontros e desencantos entre homem e natureza.  No primeiro caso, os exemplos são vários, como os shakesperianos Trono Manchado de Sangue (1957), inspirado na peça Macbeth, e Ran (1985), inspirado em Rei Lear (e financiado por Francis Ford Coppola e George Lucas). Por sua vez os filmes Os Sete Samurais (1957) e Yojimbo (1961) tiveram suas histórias praticamente refilmadas, respectivamente (e sem o conhecimento de Kurosawa), em faroestes hoje considerados clássicos do cinema, como o americano Sete Homens e Um Destino (1960, dirigido por John Sturges) e o italiano Por um punhado de dólares (1964, dirigido por Sérgio Leone). 

 

Mas, por sua vez, como o mundo dá voltas e é muito pequeno, Kurosawa nunca escondeu a grande inspiração que teve pelos faroestes de John Ford antes de conceber tais filmes, vinculados à fase de histórias de samurai do diretor. Sai a cimitarra, entra o revólver. E vice-versa. Assim, os filmes de Kurosawa são exemplos de que a condição humana parece mesmo manter algumas similaridades em suas histórias. São pontos tanto finais quanto iniciais de um mútuo ciclo de influências ocidente-oriente (ou seria oriente-ocidente?). 

 

Não que isso fosse fácil. Por várias vezes, Kurosawa encontrou oposição no Ocidente (teve projetos recusados em Hollywood e um de seus filmes foi proibido durante a ocupação dos EUA no Japão) e no Oriente (em seu país de origem, muitos criticavam o diretor precisamente pelas referências ‘ocidentais’ em seus filmes). 

 

Mas é o segundo caso que nos interessa mais de perto, pois destacamos aqui os filmes Dersu Uzala e Sonhos.  O primeiro, Dersu Uzala, escrito pelo próprio Kurosawa a partir dos relatos do capitão russo Vladimir Arsenyev sobre seu encontro com um velho caçador da Mongólia, nas geladas terras da Sibéria, ainda na era czarista, é vencedor de vários prêmios internacionais, incluindo o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1976 (como filme ... soviético!). A fotografia, em 70mm, expande na tela a exuberante natureza retratada no filme e demonstra, sem pieguismo didático, uma relação homem-natureza, representada por Uzala, esquecida ou simplesmente desconhecida pelo homem urbano e sistemático, representado pelo capitão russo, em missão topográfica na Sibéria.

 

O filme é mesmo emblemático na conciliação por, pelo menos, três razões: i) afinal, trata-se de uma produção russa dirigida por um japonês no ano em que  uma sangrenta guerra entre os dois países completaria 70 anos; ii) mostra como duas culturas distintas podem ser tolerantes e amigáveis com a própria natureza e entre si (o próprio Kurosawa nunca escondeu seu apreço por escritores russos como Dostoievski e diretores como Eisenstein – o qual também, por sua vez, admite a inspiração em elementos da cultura japonesa como o kabuki, o Teatro Nô e os ideogramas na montagem de seus filmes. É o mundo dando voltas de novo...) e iii) além disso, estabelece uma conciliação do diretor com sua própria vida e carreira: resultado de um preparo de quatro anos, Dersu Uzala é o primeiro filme feito por Kurosawa depois de uma frustrada tentativa de suicídio. De fato, a paz de espírito encontrada pelo diretor contamina e é evidente na relação entre Dersu, o russo e a natureza.

 

Sonhos, indicado ao Globo de Ouro de 1991 e vencedor de vários prêmios dentro e fora do Japão, em especial destaque para a fotografia e a direção de arte do filme, é, na verdade, a reunião de oito histórias distintas, mas com um fio comum: todas elas partiram de sonhos que o cineasta teve. Alguns mais otimistas, outros já bem pessimistas diante da condição humana no planeta. A paz de espírito oscila, portanto, entre alguns sonhos e verdadeiros pesadelos.

 

Estes surgem a partir das experiências de guerra vividas pelo Japão, único país bombardeado com duas bombas atômicas (Hiroshima e Nagasaki) nos episódios O Túnel e O Demônio Chorão. A hecatombe nuclear também está apontada em Monte Fuji em Vermelho e sugerida em A Nevasca.  Aqueles trazem uma reflexão mais positiva, mas ao mesmo tempo mais autobiográfica na relação com a natureza em Um Raio de sol através da chuva, O Jardim dos Pessegueiros, Os Corvos e Povoado de Moinhos. Em todos eles, ecos da formação de Kurosawa desencadeados por alguma atitude de intromissão em um mundo mágico. Em Um Raio de sol através da chuva, um garoto testemunha o enlace de lendárias raposas japonesas – as kitsunes – e deve trocar o privilégio por outro.

 

Corvos traz outro diálogo importante e caro à formação do diretor: a pintura. Kurosawa pintava (havia tentado a Escola de Belas Artes antes do cinema) e, muitas vezes,  as próprias cenas que filmaria a seguir. Aqui, uma espécie de alter ego do diretor, durante uma exposição, pára diante do último quadro pintado por Van Gogh – Campo de Trigo com Corvos – e, de repente, mergulha dentro da tela, passeia entre as obras do holandês (interpretado pelo diretor Martin Scorsese) com quem trava uma conversa sobre como o envolvimento com a beleza da natureza é crucial ao trabalho da pintura.

 

Jardim dos Pessegueiros mostra um garoto que, ao perseguir uma menina, mergulha no Dia da Boneca, dedicado, na cultura japonesa, à época do florescimento dos pessegueiros. Cada boneco representa uma árvore. Mas não há celebração, pois não há pessegueiro: todos foram sumariamente cortados. O menino se comove e algo extraordinário acontece.  Povoado de Moinhos retoma, de certa forma, Dersu Uzala: a sábia relação de um velho com a natureza faz lembrar um jovem urbano e ambicioso de coisas esquecidas, como a água fresca e o ar puro, e a idéia de que, bem vivida, a saída da vida pode ser, sim, muito bem celebrada.

 

Ecos do Inferno de Dante, kabuki, Van Gogh, homem, natureza. Assim, Sonhos reforça o projeto conciliatório de Kurosawa e, desta vez, realçando a convergência entre as artes plásticas e a maneira apurada com que fotografa. No ano do lançamento do filme, Kurosawa recebe o Oscar honorífico da Academia de Hollywood pela carreira, das mãos de Steven Spielberg – um dos produtores.

 

À época do lançamento do filme, na fila de entrada do extinto cine Pathé, comentava-se que, na verdade, seriam 12 os sonhos sonhados por Kurosawa a serem transformados em filme. Entendidos no assunto, Spielberg e o colega George Lucas (de Guerra nas Estrelas) teriam dito resignados que os outros quatro episódios superavam o que toda a tecnologia do cinema, disponível até então,  conseguiria transpor às telas.  Nunca consegui confirmar essa história, mas que é uma lenda que merece ser publicada, merece.

 

* O presente texto foi originalmente produzido para o projeto Cine Mutuca, da Associação Pró-Mutuca, em fevereiro de 2008 e contou com a colaboração de Rafael Ciccarini. 

 

Filmes citados:

 

Os sete samurais (Shichinin no samurai, 1954) **

Trono manchado de sangue (Kumonosu jô, 1957) **

Sete homens e um destino (The Magnificent Seven, 1960/Dirigido por John Sturges)

Por um punhado de dólares (Per un pugno di dollari, 1964 /Dirigido por Sérgio Leone)

Yojimbo (idem, 1961) **

Dersu Uzala (Дерсу Узала, 1975) **

Guerra nas estrelas (Star Wars, 1977/Dirigido por George Lucas)

Ran (idem, 1985)  **

Dreams (idem, 1991) **

 

** Filmes dirigidos por Akira Kurosawa.