por Nísio Teixeira

Especial Quebec - Parte 8 – fechando os anos 1960: Le Révolutionnaire, La Vie heureuse de Leopold Z, La Visite du General De Gaulle au Québec e Faut aller parmi l´monde pour le savoir

Vimos como os anos 1960 foram especialmente cruciais para a história do Quebec (prefácio, mais Especial Quebec 5 a 7), no que diz respeito a mudanças políticas e comportamentais. Os filmes a seguir seguem refletindo essa mudança, enfatizando, predominantemente, o tom político. Exceção feita ao suave drama Leopold Z.

 

Le Révolutionnaire

 

Rodado em 16mm por Jean Pierre Lefebvre, o filme já traz, em sua epígrafe, a frase «àqueles que não morreram por nada». Segue o som de violino com planos gerais de paisagens gélidas e casarões. Dois fusquinhas cortam o cenário. Entrementes, um líder acorda e perfila seus asseclas sob a bandeira do Quebec. Câmera na mão acompanha o chefe que grita palavras de ordem : «disciplina», «silêncio», «ação». São 12 ao todo, incluindo o chefe – como Cristo e seus discípulos.

 

Os fusquinhas chegam e começa uma série de simulações de combate, com câmera lenta, até que o violino começa a dar um tom cômico em alguns momentos.  Entra uma animação pixilation que conta a relação índio, colono, padre, desde 1535 em terras canadenses. A simulação da história do Canadá vai até 1867, na Confederação, e termina tudo em briga.

 

Volta-se para o treinamento até quando, de repente, uma mulher surge em meio à floresta. Ela pede a paz, mas o líder quer a guerra. Mas, acima de tudo, quer mesmo paquerar a mulher e larga os preparativos revolucionários pro lado. Assim, começa a cortejar a mulher enquanto os discípulos, sem ter o que fazer, jogam cartas. «Esperamos o que?», pergunta um «Esperamos», responde outro.

 

O que sugere, a princípio, um thriller político, ganha cores de metáfora, ao mostrar o líder rebelde que troca a revolução pelo, digamos, «mundo da vida».  Provocação importante para tempos revolucionários não só no Quebec, mas em outros pontos do globo, como Cuba, Argélia,  Chile, o filme, contudo, arrasta-se nessa fórmula, como o próprio som de violino, que  reitera o tom enfadonho que o filme alcança.

 

Só a sequência final devolve  o filme ao seu ritmo e provocação originais: a mulher, por fim, será executada como mártir pelo líder, ao som de um hino, mas o disco emperra e os discípulos é quem são eliminados, um a um. Chegam representantes da confederação canadense, condecoram o líder pelo ato, hasteando uma bandeira do Canadá até que um dos discípulos, pensando ser traição, em seu último suspiro, atira e mata o líder. Os representantes descem a bandeira e vão embora, enquanto a mulher se liberta do poste de fuzilamento, chora a morte do líder e segue pela estrada em direção à câmera.

 

La Visite du Général De Gaulle au Québec

 

Já este documentário em cinema direto evidencia o clima de nervos à flor da pele no Quebec em 23 de julho de 1967, quando a província recebe a visita do general francês Charles de Gaulle cercado de entusiasmo popular.  De Gaulle chega de navio militar francês e faz uma série de discursos em prol do «Canadá-francês», sempre terminando com os dizeres «Vive le Canada-Français! Vive le Québec! Vive la France!». Mas, ao final de um discurso no Hotel de Ville acrescentou o famoso  «Vive le Québec Libre!». Entre o público, cartazes nos discursos anteriores já sugeriam isso. Outros, ao final, trazem a sigla do separatista RIN. No dia seguinte, retorna de avião para a França, sem ir à capital Ottawa, conforme previamente agendara. Afinal, havia sido recebido pelo primeiro-ministro e pelo governador-geral do Canadá, em um ano caro à história do país: em 1967 foi celebrado o centenário da confederação canadense. O visível apoio de De Gaulle ao movimento independentista quebequense, lembra o professor Yves Lever, fez com que as relações diplomáticas entre França e Canadá só fossem efusivamente reatadas quase dez anos depois.

 

Se o ficcional Le Revolutionnaire duvidou da revolução ante o «mundo da vida», a câmera de Michel Brault, Bernard Gosselin e Jean-Claude Labrecque evidencia o contrário no «mundo da vida» quebequense. Seu impressionante posicionamento mergulha e alterna o quadro entre a perspectiva da multidão de quebequenses e a do governante francês, seja a partir da movimentação das ruas, seja do palanque de De Gaulle, seja do carro aberto em que desfila pelas ruas de Montreal. 

 

Faut aller parmi l´monde pour le savoir

 

Dirigido por Fernand Dansereau com câmera de Michel Brault, o filme é uma espécie de grande reportagem sobre o que pensam os quebequenses de seu próprio país, após os trágicos acontecimentos de outubro de 1970, que culminaram na morte do ministro Pierre Laporte. Começa precisamente com um retrospecto televisivo do sequestro e morte de Laporte, em cena assistida por um garoto, sendo intercalado pelo discurso de Trudeau e os manifestos da FLQ.

 

É como se, após os estopins revolucionários, a sociedade quebequense mergulhasse em um processo de ressaca, dividindo o material em três partes: 1) uma longa frustração; 2) uma população que se procura e 3) a paixão pelo combate. A estrutura constitui-se basicamente de depoimentos de quebequenses de toda a província, sempre intercalados por externas que mostram o ambiente em torno do lugar de onde se toma o depoimento.  Num deles, bem singelo, meninos brincam de hóquei na neve nas ruas como os nossos peladeiros suburbanos de futebol.

 

La Vie heureuse de Leopold Z

 

Delicada ficção dirigida por Gilles Carle, o filme é estruturado como um falso documentário sobre Leopold Z, que tem o seu próprio caminhão de remover neve nas ruas de Montreal. Mas, na véspera de Natal, tem que conseguir escapulir do trabalho para resolver uma série de coisas como comprar um presente para a mulher Catherine, buscar a prima Josette, cantora de jazz e Bossa Nova – por quem tem uma queda – na estação e ainda tentar chegar para assistir à apresentação do filho no coral no Oratório Saint Joseph.

 

Como se não bastasse, o seu supervisor, Theophile, o pega duas vezes no flagra (na escapulida da compra e na estação) e promete fazer uma vista grossa destas ausências de Leo ao trabalho, se ele ajudar Theophile a pegar um móvel para a sua esposa. No caminho, os dois param para ver Josette, bebem e conversam, enquanto os outros seguem trabalhando. Num momento da viagem etílica, ambos imaginam conquistando o coração da cantora. Até ambos acordarem para voltar correndo ao trabalho depois da birita.

 

O filme traduz como poucos um espírito de Natal nada afeito ao consumismo e todo ele afeto à solidariedade. Toda situação de conflito possível é gerada sobre Leopold Z: chefe, mulher, filho, prima, trabalho, trânsito e, em todas, ele resolve com serenidade e simpatia.

 

Talvez nem mesmo em Days before Christhmas (especial Quebec 3) a Montreal natalina esteja tão bem filmada em preto-e-branco.  

 

 

Filmes citados:

Days before Christmas/Bientôt Noel (idem, 1959/George Dufaux, Terence MaCartney-Filgate, Stanley Jackson, Wolf Koenig)

Le Révolutionnaire (idem, 1965/Dirigido por Jean Pierre Lefebvre)

La vie heureuse de Leopold Z (idem, 1965/Dirigido por Gilles Carle)

La Visite du Général De Gaulle au Québec (idem, 1967/Dirigido por Michel Brault, Bernard Gosselin e Jean-Claude Labrecque)

Faut aller parmi l´monde pour le savoir (idem, 1971/Dirigido por Fernand Danserau)