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- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte II, a faceta “engajada”: Gallipoli, O ano em que vivemos em perigo, A testemunha e A costa do mosquito.
- Em busca do sentido Ryan (e Alter Egos)
- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte I, a faceta alegórica: Violência por acidente, Pic Nic na montanha misteriosa e A última onda.
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- Michel Brault, parte VI - L’Acadie, L’Acadie’?!, Elogie du Chiac em conexão com High School, de Frederick Wiseman: o ano sem fim de 1968 e belas lições cinematográficas.
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- Juvenília: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (IV) – Le temps perdu e Geneviève
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- O momento decisivo: Michel Brault e o cinema verdade no Quebec (I) - Les Raquetteurs
- Mon Oncle Antoine : pérola da filmografia quebequense (e mundial)
- Dalva & Herivelto - uma canção de amor: gratas surpresas na ingratidão do tempo.
- Parênteses anglófono no cinema do Quebec – II: Ted Kotcheff e O Grande Vigarista (1974)
- O Complexo Baader-Meinhof: encruzilhada civilizatória

por Nísio Teixeira
Cinema no Rio - 3 de agosto de 2004 - Barra do Guaicuí
Onde se conhece a tripulação e o barco Luminar, tem-se início a viagem pelo São Francisco até a confluência deste com o Rio das Velhas, a tentação se apresenta em suave dourado, o antanho sob a forma de vapores, chatas e Richard Burton, a diversão sob socos mirins e, por fim, a comoção em momentos diferentes graças a uma impressionante ruína de igreja secular e ao cinema.
No dia seguinte, café tomado, Marisa Monte devidamente ouvida, malas prontas, seguimos para a viagem a bordo do Luminar. Agora sim, começaria o trajeto da equipe do Cinema no Rio pelo São Francisco. No barco, viajariam, além de mim, Inácio e Fiúza, toda a equipe do filme. A equipe de montagem seguiria por terra com o equipamento transportado em um caminhão e um carro – não antes sem nos ajudar a transportar nossa própria bagagem à Luminar. Afinal, nosso próximo destino era Barra do Guaicuí, distrito de Várzea da Palma, distante apenas 23 quilômetros de Pirapora pela estrada. Pelo rio, a distância chega a 30 quilômetros. Segundo o diário de bordo do piloto Valdir, saímos de Pirapora às 12h30 e chegamos em Barra do Guaicuí às 14h45, perfazendo, portanto, 2h15 de viagem. Ou seja, enquanto o carro faz a distância entre as duas cidades em aproximadamente 20 minutos, nós demoramos dez vezes mais, pois seguíamos a uma velocidade média de 12,5 km/h. Mas isso porque navegávamos a favor do fluxo do rio, pois o projeto seguiria, na ida, margeando a margem direita do São Francisco (Barra do Guaicuí, Ibiaí, Ponto Chique e São Francisco); quando retornássemos, teríamos uma velocidade ainda mais baixa (cerca de 10 km/h) porque encontraríamos a resistência da subida contra a corrente – o que iria acontecer a partir da cidade de São Francisco, quando o roteiro previa sessões nas cidades de São Romão, Cachoeira do Manteiga e Buritizeiro, esta vizinha de Pirapora.
O barco estava ancorado na então Companhia de Navegação de São Francisco (Franave), responsável pela navegação do médio São Francisco, em Pirapora. (A Companhia foi dissolvida em 22 de janeiro de 2007). É o mesmo local onde ainda hoje se encontra o vapor Benjamim Guimarães, sobre o qual falaremos adiante. Atracada ao porto, já percebia que a Luminar tinha dois pavimentos. Ao me aproximar e enveredar barco adentro percebi que embaixo, junto à popa, havia dois banheiros. Em seguida, a casa de máquinas ocupava quase a metade do espaço, enquanto que a outra metade era dedicada aos três quartos disponíveis no barco, cada um com três beliches e mais um banheiro. Junto à proa, no pequeno convés havia uma escada de acesso ao segundo piso, que trazia a cabine de comando, a do capitão e a da tripulação. Seguia-se a cozinha, com uma área de integração coberta, constituída por um filtro de água, freezer e uma grande mesa com cadeiras para as refeições. Ao fundo, uma nova escada dava acesso ao convés da popa, entre a casa de máquinas e os banheiros. Voltando-se à proa, uma bandeira fincada com uma estilizada imagem de Che Guevara mirando o horizonte, produzida a partir da clássica fotografia de Alberto Korda. Volta completa, aprovei o que seria nossa residência na próxima semana.
Nosso primeiro destino era o distrito de Barra do Guaicuí e, após as instruções de praxe do comandante sobre preservação do lixo, coletes salva-vidas etc, o barco partiu. Além dos citados, o barco levava alguns convidados para a exibição de Barra do Guaicuí, entre eles, a jornalista Luciana de Paula, pelos Diários Associados e dois representantes do Instituto Telemar, principal patrocinador do projeto: Tânia e Paulo de Tarso.
Aproveitei para conhecer um pouco mais do barco e da tripulação. Além de Valdir, pilota a embarcação o Zé Baixinho. Adilson e Viola são os motoristas mecânicos, que, juntamente com o Marcão, maquinista, comandam a casa de máquinas que impulsiona o barco, movido a diesel, e cuidam da ancoragem. Na cozinha, o chef era Pingo e, seu assistente, Tião. Sob o comando da tripulação e, conseqüentemente, dos passageiros, estava o comandante Lúcio Barreto – então também presidente da própria Franave.
Mais tarde, na cidade de São Francisco, é que cruzei as informações obtidas com um historiador do local, o sr. João Botelho, com as do capitão Lúcio Barreto. Ambos me explicaram que o Luminar era utilizado por um grupo de religiosos adventistas estadunidenses que percorriam o São Francisco em “missão social” (enfatiza Barreto, que comprou o barco do grupo em 1997), oferecendo, além da formação religiosa, assistência odontológica e, até mesmo, algumas projeções de filmes institucionais. Recentemente, em 2001, a Luminar havia participado da Expedição Engenheiro Halfeld, conduzindo pesquisadores pelo São Francisco até o lago Sobradinho, em Barra (Bahia). Além desse ponto o barco não pode seguir, pois as ondas ficam mais altas e fortes. Em matéria publicada no jornal O Tempo, de 26 de agosto de 2006, o jornalista Marcelo Fiúza (que viria a ser meu colega na viagem de 2005), diz que o preço para um passeio partindo de Pirapora com três horas de duração custa R$ 20. Em caso de grupos, a diária para 20 turistas custaria R$ 2 mil, incluindo pernoite e refeições.
No caminho, percebi que toda a equipe utilizava o tempo da viagem para organizar o trabalho: Zoe checando com Clarissa as fitas com a equipe – já se contabilizavam 16 entrevistas produzidas em sete horas de filmagem; Gustavo com seu equipamento de som, Helvécio e sua câmera Sony 3CCD. Sentado, Pedro acompanhava tudo e trocava uma idéia entre uma leitura e outra de Tristes Trópicos, de Claude Levi-Strauss. Inácio, junto à proa, conversava com Paulo e Tânia. Fiúza estava com eles, mas depois dirigiu-se ao quarto – pensei comigo se ele iria adotar a mesma estratégia no Canoeiros, quando, assim como no barco, dividimos o aposento: afugentar os mosquitos com a queima de incenso. Era uma escolha difícil, mas preferi o cheiro às picadas. Eu me lembro que foi Fiúza o primeiro a me apresentar o hoje conhecido Orhan Pamuk, ao fazer uma súmula entusiasmada do livro Meu Nome é Vermelho antes de cair no sono em uma das noites de Pirapora. Na Luminar, nós dois dividiríamos as beliches com Gustavo e Helvécio, precisamente no quarto vizinho à sala de máquinas; Zoe e Clarissa teriam um quarto só para elas e Pedro e Inácio dividiriam o terceiro, o mais próximo da proa. A tripulação e o capitão se instalavam nos quartos do primeiro piso.
Após conversar rapidamente com Luciana, lamentando que ela, como os outros colegas jornalistas, tivessem que abandonar tão interessante pauta em função dos cronogramas e enxugamentos apertados da redação jornalística atual (os demais seguiram de Pirapora, ela faria a cobertura só até Barra do Guaicuí), também eu me sentei e, enquanto a Luminar deslizava rio adentro, as margens do São Francisco se apresentavam a nós, ora com uma pequena tapera, ora com um pescador isolado, ora com um grupo familiar acenando à margem no caminho. Então me dei conta de que estava ali, no rio da “integração nacional”, fazendo um percurso que, décadas antes, era de um tráfego intenso de vapores e chatas.
Um pouco antes ainda, dava-me conta, passava por ali um dos meus mais queridos personagens históricos: Richard Burton. O explorador inglês, fã de Camões, poliglota, que havia descoberto a nascente do Nilo com Gordon Speke, sobrevivido a uma lança africana que lhe trespassou o rosto, tocado a Kaaba vestido de árabe (e correndo o risco de morte instantânea), vivido no Paquistão, havia sido cônsul no Brasil; conhecera as minas de Morro Velho antes mesmo de Belo Horizonte existir, percorrido as cidades históricas como Mariana e Ouro Preto e, em 1867, viajado pelo Rio das Velhas desde Sabará até ali, na confluência com o São Francisco, onde seguiria para o Atlântico – sem falar em outras atividades, como a primeira tradução (sem cortes) para o inglês de As Mil e Uma Noites. Cada etapa da vida deste descobridor poderia render um filme. Aliás, rendeu um: o bom As Montanhas da Lua, de Bob Rafaelson, que trata da descoberta do Nilo.
Encontrei, à página 159 de seu Viagem de Canoa, de Sabará ao Oceano Atlântico, publicado pela primeira vez em 1869, o trecho em que descreve o encontro dos rios em Guaicuí: “se algum lugar merece o selo da grandeza conferido pela mão da Natureza é essa confluência. É o meio do caminho do glorioso vale ribeirinho; tem, ou antes, pode ter, ligação fluvial com Sabará, Diamantina, Curvelo, Pitangui, Pará (ou Patafúgio), Dores do Indaiá, Campo Grande, Paracatu, São Romão e as outras localidades do rio São Francisco. Faz a ligação das províncias de Goiás, Pernambuco, Bahia e Minas, e, dentro de alguns anos, os navios a vapor e a estrada-de-ferro farão com que ela se comunique com a Capital do Império. Falarei mais do que pareceria suficiente acerca das localidades atuais; assim, quando minhas previsões sobre sua futura grandeza se mostrarem justificadas, o viajante poderá comparar o seu Presente com o meu Passado, e encontrar, portanto, novo padrão para medir a marcha do Progresso, enquanto este avança e deve avançar, com passos de gigante, na Terra do Cruzeiro do Sul”.
A menção ao vapor não é gratuita, pois, como ensina o historiador Fernando da Matta Machado em Navegação do Rio São Francisco, desde agosto de 1833 a Regência concedeu ao navegador Guilherme Kopke o monopólio do Rio das Velhas, estendido ao São Francisco em novembro do ano seguinte. Mas é a partir de 1889 que o Império, ao criar, a Companhia de Viação Central do Brasil, começa a estabelecer as linhas mestras do São Francisco como rio da integração nacional. A idéia é usar o rio como sugeriu a ambição de Burton: unir o interior das Minas Gerais aos principais portos do país, como Recife, Salvador e Rio de Janeiro – as capitais seriam ligadas a pontos estratégicos do São Francisco por linha de trem. Mas essa história logo de início gerou uma rivalidade entre Rio de Janeiro e Salvador pelas vantagens da conexão férrea e pelo controle do São Francisco. Mas deixemos o detalhe desse entrevero para mais tarde. Afinal, já era possível avistar a Barra do Guaicuí.
Já próximos à chegada, veio a hora do almoço. Pingo e Tião arrumavam pratos e talheres e dispunham as iguarias: salada, arroz, feijão, angu e frango ao molho pardo. Reparei que naquele dia, assim como nos seguintes, curiosamente o peixe não seria incorporado ao cardápio do barco, dada a dificuldade de conservação e a preferência, no caso, por adquirir peixe fresco nas imediações. Em outros tempos, talvez, a pescaria no rio seria mais fácil, mas fato é que só voltaríamos a comer peixe em um restaurante na cidade que leva o nome do rio: São Francisco. Tião, muito simpático, tinha um jeito de menino moleque: falava pouco e sorria muito. Fiquei espantado quando me disse ter 40 anos e, creio, dois filhos. Pingo era exatamente o contrário do que poderia sugerir o apelido: era gordo e relativamente alto.
Logo, logo aprovamos o tempero do Pingo. E, para meu dilema, percebi que o freezer trazia latas de refrigerantes e cervejas. Logo ali, naqueles dias ensolarados, fui inventar de fazer minha quarentena cervejística! Tudo piora quando o primeiro desavisado retira uma latinha e, abrindo-a, produz o primeiro estalido clássico, enchendo o copo daquele líquido dourado, de forma a produzir uma suave espuma e, sorver todo o conteúdo de uma só talagada. Em seguida produz o segundo estalido clássico: uma vez bebido o conteúdo, a boca se abre, os lábios se expandem emitindo um ruído rouco atropelado por um “grande ah” de alegria e prazer. Não podia ter escolhido momento pior – ou melhor – para testar minha resistência, a qual, volto a frisar, conforme dito no prólogo, nada tinha de religiosa. Tudo bem. Peguei uma lata de guaraná e repeti o gesto. Funcionou. Passado algum tempo, é a vez da equipe de montagem aparecer para o almoço. Aí soube que teríamos outra companhia por terra: um carro da Telemar/Velox que faria o marketing da instituição ao longo do trecho. A equipe era composta por duas pessoas, das quais não me lembro o nome, apenas o apelido dado pela trupe da montagem e Fiúza: o motorista era o Mário Bros., pela semelhança com o personagem do videogame e o jovem era o Fanta Uva, assim chamado pelo inusitado pedido específico de refrigerante que fez logo ao chegar.
Em Barra do Guaicuí, paramos em uma espécie de ancoradouro, próximo a uma espécie de pousada, numa rua que, ao final, nos levaria a uma impressionante ruína de igreja de pedra, secularmente abandonada ali às margens do rio, com um detalhe que salta aos olhos. Na extremidade frontal de sua fachada, lá de cima da igreja, uma gameleira cresceu e, além de se manter frondosa no cume da fachada da igreja em ruína e sem teto, suas raízes, do lado de dentro e de fora, percorrem toda a extensão da parede em direção ao chão, propiciando um clima enigmático e curioso. Algumas informações dão conta que ela foi construída no século XVII pelos jesuítas, com o auxílio de índios. É o jovem Ítalo Nunes, de 11 anos, morador da casa vizinha à igreja, quem explica sem titubear e de maneira rápida que a chegada dos bandeirantes alguns anos depois atrapalhou a construção pois eles queriam escravizar os índios, que fugiram. “Ficaram só as índias velhas, que em tupi-guarani significam guaicuí. Por isso o rio se chama Rio das Velhas e aqui se chama Guaicuí”. (Outra versão, contudo, afirma que foram os jesuítas que desistiram do empreendimento após perseguição dos índios Cariris que vinham do... Ceará!). Mas Ítalo, vestindo um conjunto verde-oliva, como um pequeno escoteiro local, diz que repreende quem vai ali para depredar o local. A Igreja de Bom Jesus do Matozinhos, explica Ítalo, recebeu esse nome porque o santo é o padroeiro dos jesuítas. Mas com o abandono da construção, uma outra igreja foi erguida na cidade vizinha de Porteiras com o mesmo nome. Já na pracinha de Barra do Guaicuí está a imagem do bandeirante Fernão Dias Paes Leme, que teria sido o chefe dos bandeirantes que chegaram ao local no século XVII.
De fato, mesmo em ruínas – ou talvez mesmo por causa disso - a igreja abandonada pedia um profundo respeito. Suas paredes seculares, invadidas por raízes de gameleiras, deixavam entrever pequenas aberturas, além de um resto de púlpito – como se sagrado ali fosse, exatamente, o seu caráter histórico, de testemunha de uma gente que não existe mais. É um exemplo mais comovente que algumas outras rebuscadas de barroco. Aí é que me lembrei, por exemplo, de Burton. Ao conferir, posteriormente, no livro citado, a provável menção à igreja arruinada, ela estava logo na página 160 e apresentada tal e qual nós a encontramos hoje – com exceção da grandiosa gameleira. Acho que a igreja, no fundo, representava isso: na confluência de dois grandes rios, a confluência, nua e crua, das imponências histórica e natural.
A produção decidiu que ali, no adro em frente à secular igreja é que seria instalada a tela e as cadeiras para a sessão. Por um problema na distribuição, o curta que revezaria as apresentações com Negócio Fechado, Uma História de Futebol, de Paulo Machline, não chegou a tempo para a sessão. Aliás, nem chegaria a tempo para todo o projeto, o que chateou Pedro Olivotto, que pediu para fotografar os cartazes e faixas de divulgação do filme. “Vou registrar pra mostrar aos responsáveis a oportunidade que eles perderam”, diria adiante, em Ponto Chique, outra cidade prevista para receber o curta. Como Helvécio não quis exibir o trailer do Nascentes nas outras cidades, então Negócio Fechado tornou-se a primeira atração constante das sessões.
Assim o curta de Rodrigo Costa abriu a principal atração da noite: o filme Tainá – uma aventura amazônica, de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch. A escolha foi acertada pois o público foi, em sua maioria de crianças e adolescentes, que se divertiam muito no filme. À família de Ítalo coube a tarefa de gerenciar a pipoca.
Epa. Menti feio há pouco. Na verdade, em algumas cidades, antes mesmo da exibição dos vídeos institucionais, que antecedia o curta, um imenso telefone laranja de base roxa desfilava entre a platéia. Ou melhor, sacudia ao som de uma música agitada, como se estivesse tocando. Àquela inusitada cena, no mesmo espaço de um cinema armado e uma igreja secular, uma inusitada reação: os meninos pulavam e gritavam junto, até a hora em que um deles desferiu um soco em direção ao aparelho. Os demais seguiram o exemplo. Eu, que via a cena de longe, enquanto me dirigia novamente ao espaço após tomar um banho, só percebi, mais perto, os protestos de quem vestia a telefônica fantasia: era o jovem Fanta Uva, que, além de ser um negociador da Telemar, cumpria ali outro papel institucional de entreter o público. Apenas a sua cara, entre o gancho e o discador, era visível. Os braços esticados ficavam meio que crucificados pelo gancho do telefone, que terminava à altura do joelho, em um par de pernas devidamente coberto de uma meia calça igualmente roxa. Mas, ao perceber que a brincadeira tinha tomado um rumo mais agressivo diante das investidas mirins em direção à fofa fantasia, Fanta protestou contra a atitude em vão, até sair de cena rapidinho para a entrada dos filmes – que, enfim, seguraram as crianças, que já começavam a formar uma fila atrás do fantasiado. Desnecessário dizer que, depois dessa estréia, Fanta foi mais comedido ao usar a sua indumentária.
Após a sessão, falei com alguns jovens moradores da vizinha cidade de Porteiras: Wanderley Santos Cabral, Paulo Henrique e Clauber Neves Queiroz. Wanderley defendeu que um cinema ia “animar para caramba” o lugar, no que concordou Alisson Evangelista Moura, de Lagoa Grande. “Legal. Muito legal. Rachei de rir pra caralho de Tainá”. Eles se declararam fãs de filmes como Exterminador do Futuro, Matrix, Homem-Aranha e ainda, das produções com Jackie Chan. Da cidade falou Rogério Aparecido Ramos, que defendeu o cinema porque “traz a comunidade para ver uma coisa que há muito tempo não vê.” Quando perguntei a ele o que daria um bom filme, foi direto: “essa expedição de vocês mesmo”. Foi aí que me dei conta que a equipe estava acompanhando Ítalo, que deu um forte abraço em Paulo de Tarso e murmurou, ao que parece, algumas palavras de agradecimento. Em seguida chorou. Logo após, já meio que desfazendo o abraço, Paulo também começou a chorar. Dupla comoção.
Voltei ao barco com Fiúza e, algum tempo depois, chegou Inácio e a equipe de filmagem. Entrementes, Pingo surgiu na cozinha e perguntou se a gente gostaria de um tira-gosto. Não titubeei. “Seria ótimo”, disse animado, mas logo desolado ao encarar o freezer. Logo Tião também apareceu e, ao pedido de Inácio, soltou uma cerveja e, inesperadamente, um grito: “Graaaaaannnde Inácio”. Ninguém entendeu, mas todo mundo começou a rir. E tudo ficou mais engraçado quando Pingo trouxe o que chamou de tira-gosto. Ele tinha prometido um filé acebolado. Mas não veio um filé, mas uns 15 ou 20, inteiros, bem passados, suculentos, todos amontanhados em um único prato. Um palitinho, delicadamente espetado no centro de cada um daqueles que ficavam mais à superfície, consolidava a comicidade do prato. Como vegetariano, Fiúza não perdoou a piada: “mas é um filé acebolado de... brontossauro, né”. E, pegando a ponta de um dos palitos virou o primeiro bife ao contrário e simulou uma mordida para concluir a frase, antes de devolvê-lo ao prato. A gargalhada foi geral.
Mas, ao clima de diversão, seguiu-se uma atmosfera de discussão, pois Pedro queria ficar e fazer outras entrevistas, com Ítalo inclusive, enquanto parte da equipe preferia seguir direto para Ibiaí. Após reincidir o eixo daquela discussão anterior, em Pirapora, ficou acertado que eles seguiriam de carro e fariam, em terra, uma tomada do barco chegando a Ibiaí. E assim um certo desgaste voltou à tona entre alguns membros da equipe de filmagem, rumo que só seria definitivamente acertado na próxima parada, lugar que ainda traria alguns sustos para Inácio e Helvécio.
Livros citados
Meu Nome é Vermelho, de Orhan Pamuk. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Navegação do Rio São Francisco, por Fernando da Matta Machado. Rio de Janeiro: Ed. Top Books, 2002.
Tristes Trópicos, de Claude Levi-Strauss. São Paulo: Companhia das Letras, 1955.
Viagem de Canoa, de Sabará ao Oceano Atlântico, por Richard Burton. Belo Horizonte/São Paulo. Ed. Itatiaia/Ed.Usp, 1977.
Filmes citados
O Exterminador do Futuro (Terminator, 1984/James Cameron)
As Montanhas da Lua (Moutains of the Moon, 1990/Bob Rafaelson)
Matrix (The Matrix, 1999/Andy e Larry Wachowski)
Uma História de Futebol (idem, 1999/Paul Machline)
Negócio Fechado (idem, 2001/Rodrigo Costa)
Tainá – Uma Aventura na Amazônia (idem, 2001/Tânia Lamarca e Sérgio Bloch)
Homem Aranha (Spider Man, 2002/Sam Raimi)
Nascente (idem, 2005/Helvécio Marins)







