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Quando se aproxima, antes e depois da sessão de estréia, das histórias e causos piraporenses, com pelo menos um de matrizes sufistas, se conhece a equipe de montagem no momento em que levantam a majestosa tela, detecta-se a presença e perseguição de Marisa Monte e todas as tensões e dissabores da véspera e da estréia se dissolvem numa feliz noite regada à cerveja e surubim.
No dia seguinte, dia da estréia, as entrevistas começaram a ser produzidas. Helvécio nos leva à venda de seu Joaquim Sanchez, famoso contador de histórias, que ele já havia visitado rapidamente no dia anterior com Pedro Olivotto. Seu Sanchez mora bem próximo à ponte e, na ocasião, também foram ouvidos os colegas de Sanchez: Valdir de Paula e Tião. Um dos causos apresentados por Sanchez são desses que mergulham no mar de histórias universal e remete, por exemplo, a um conto da tradição sufi – O Aldeão, o Rei e o Sheik – no qual um simples aldeão, Abdulla, é quem acaba respondendo ao enigma de um persa, depois de todos os sábios do Cairo terem fracassado. A história foi apresentada por um performático Sanchez, trocando o universo persa pela regionalidade do São Francisco. Mas eis como consta em um livro de contos sufista:
Então o persa se levantou de seu almofadão, sinalizou com o dedo ao camponês e Abdulla respondeu sinalizando com dois dedos. Os cortesãos olhavam, prendendo a respiração. O persa levantou a mão e a manteve no alto por alguns segundos, ao que o camponês respondeu pondo, deliberadamente, a sua mão sobre o chão. O persa pegou uma caixa, abriu-a, tirou uma galinha e jogou no camponês. Abdulla pôs sua mão dentro da camisa, tirou o ovo e o atirou no persa. Nisto o persa sacudiu a cabeça e disse a todos os sábios presentes: - Vede, esse jovem respondeu à minha pergunta e eu agora sou um dos seus discípulos. (...) O Sheik que havia trazido Abdulla ao salão de audiência lhe disse, antes que ele voltasse ao seu povo: - Você fez bem e com valentia, querido jovem, mas me diga o que significam todos aqueles gestos que você e o persa fizeram durante a disputa. - Bem, senhor, disse Abdulla, assim foi como eu o entendi. Quando o cavalheiro apontou seu dedo para mim, pensei: isto significa que está dizendo “se você não mantiver seu olho aberto, meterei os dedos nos seus olhos se pretende fazer algo.”. Então, quando levantou sua mão e a manteve erguida por vários segundos, pensei que estava dizendo “se você me vencer penduro-o no teto”. Quando ele fez esse gesto eu me zanguei e pus minha mão no chão, o que queria dizer: “se me tratar assim eu o atirarei no chão e lhe despedaçarei o cérebro”. Então, quando me viu levando a melhor, ele pegou aquela caixa contendo a galinha para me dizer que tinha o hábito de comer a carne dos frangos mais finos. Ao que eu atirei o ovo, que havia levado comigo, para mostrar que também tinha o hábito de comer coisas boas, como ovos cozidos e coisas assim. Como você viu, ele ficou convencido de minha lógica e disse que queria ser um de meus discípulos. (...) Ao encontrar-se com o persa para a despedida, o sheik não se conteve e perguntou que significado havia tirado dos gestos do aldeão. - Somente os significados corretos (...) em todas as nações que apresentei essa controvérsia não havia encontrado até agora ninguém que pudesse responder corretamente às minhas perguntas. - Por favor, dizei-me, para que eu também possa me beneficiar – pediu o outro. - Sabei, ó sheik, que quando eu levantei meu dedo para ele, a primeira vez, foi como dissesse: “não há Deus senão Deus, o Único”. Sobre o que, levantando seus dois dedos, ele me deu a compreensão de que Deus é Deus, e Maomé o seu Profeta. Quando levantei minha mão ao alto em direção ao teto por alguns segundos, era como se dissesse: “Deus sustenta os céus em cem pilares”. E ele pôs sua mão no chão para responder-me que Deus era Deus da terra quanto do céu. Então eu joguei a galinha para ele dizendo-lhe que Deus produz vida da morte. Ele replicou, ao mostrar-me o ovo, que Deus produz morte da vida. (HISTÓRIAS DA TRADIÇÃO SUFI, 1993, p. 75-77)
Se quisesse realmente encontrar boas histórias sobre o São Francisco para se tornarem filme, ali, na venda e com seu Sanchez, estaria um vigoroso material. Mas era preciso seguir adiante, pois aquele era o dia de estréia. Assim, na seqüência, fomos registrar a armação da tela. Havia muita movimentação e curiosidade no local: carros de som foram contratados para anunciar a atração, faixas foram colocadas em alguns pontos da cidade e ali, à beira do rio, alguns carros diminuíam a velocidade para observar a instalação dos equipamentos. Pepê foi o contato local responsável pela divulgação do projeto nas cidades, já a equipe de montagem do equipamento reunia as seguintes pessoas: Pedro Luiz Vaz Teixeira (coordenador do grupo de montagem), Wagner Roberto dos Santos (técnico projecionista), William Luz (técnico operacional) e Ezequiel Batista Soares, Clauneir “Mussarela” Rodrigues Silva e Wanderson Afonso Lima (montadores).
O momento especial foi quando a tela inflou-se. Pra mim, inclusive, porque ainda não a tinha visto. E eis que se tinha um plástico no chão e, sobre ele, outra série de camadas plásticas – que, logo descobri, tratava-se da própria tela, antes compacta, agora desdobrada ao máximo. Dali a poucos instantes é dada a ordem e o ar começa a encher os plásticos até ela alcançar sua dimensão colossal. Nesse momento, quatro funcionários do projeto se posicionavam segurando fortemente as cordas para que, uma vez inflada, a tela não se deslocasse ao sabor das fortes correntes de ar que havia ali naquela pequena praia às margens do São Francisco. Em seguida, amarravam as cordas a estacas que tratavam de garantir a firmeza de todo o equipamento. Uma vez inflada e segura, a enorme tela funcionava como novo marketing para o projeto, pois chamava a atenção dos transeuntes e funcionava como propaganda para a sessão que aconteceria dali a algumas horas.
Uma dupla de meninos se aproxima de mim, Pedro, Helvécio e Gustavo e pergunta quais filmes serão exibidos. Diante da resposta sobre a atração principal da noite, o filme de Helvécio Ratton, Uma onda no ar, dizem: “mas vocês poderiam passar umas coisas mais legais como Matrix Revolutions ou Homem Aranha 2”. Eu argumento dizendo que esses filmes daqui a pouco podem passar na TV. “Mas eu nem tenho televisão”, diz um dos meninos. “Então”, penso comigo mesmo em reflexão que depois compartilho com Pedro quando os meninos se afastam “como podem pedir blockbusters como esses?” Ao que Pedro, num suspiro, sugere uma explicação: “colônia é colônia.”. Outro personagem importante registrado foi um vendedor de redes, que contou sua história e os desafios de seu mercado ao Pedro.
Retorno ao Canoeiros para um banho e, logo em seguida, sigo para o local da exibição, já com tudo pronto – inclusive com as 100 cadeiras dispostas no lugar. Faltando pouco menos de meia hora para o momento da estréia, o principal suspense foi gerado por Maurício Kubrusly, repórter do quadro Me Leva Brasil! do programa Fantástico, da TV Globo. Um membro da equipe disse que ouviu dele sua preocupação, pois faltava menos de meia hora para o início da sessão e havia poucas pessoas no local, porque, “afinal”, havia o Jornal Nacional, a novela das oito... Mas, então, gradativamente, o fluxo de pessoas foi jogando por terra essa apreensão até se consolidar na estimativa, por baixo, de três mil pessoas que deixaram a programação global em casa e foram ver cinema na rua, gratuitamente, à beira do rio, em plena segunda-feira. No programa de estréia, projetou-se um vídeo institucional da Telemar, seguido de uma edição de Nascente de Helvécio (a única vez que o trailer do filme seria exibido naquela viagem), o curta Negócio Fechado, de Rodrigo Costa e, por fim, o longa de Ratton.
O pescador Pedro Domingues acompanhava atentamente a exibição do trailer de Nascente, comentando com os parentes cada trecho do rio onde era possível identificar região ou cidade. Com isso, Domingues se animava porque mais cedo, quando fomos informá-lo de que ele seria um dos personagens a serem filmados pela equipe naquela noite, estava macambúzio – apesar da visível animação das filhas e parentes que ouviam som alto na porta de sua casa. O motivo da tristeza de Pedro é que ele havia percorrido horas de estrada para buscar um carregamento de peixes em uma cidade, mas, na volta, como não tinha o licenciamento, teve toda a carga apreendida numa blitz. O prejuízo recaiu no dinheiro empregado para refazer a viagem e readquirir o lote, além de uma possível multa.
Já no filme do outro Helvécio, o Ratton, era curioso observar a reação cômica da platéia a cada palavrão mencionado pelos atores no filme. Logo mais à noite, na exibição, um quadro que iria se repetir constantemente nas outras sessões: a presença da tela e dos filmes não só como uma atração em si, mas uma razão para a promoção social, ao propiciarem simplesmente uma razão para o encontro de pessoas da cidade, sejam conhecidas ou não. Isso fica claro quando detectamos um formato bem característico do nível de atenção e dispersão dos espectadores com relação ao filme. Numa gradação aparentemente óbvia, à medida que nos afastamos da tela, o nível de dispersão da atenção (e do aumento de burburinhos e mesmo conversas) torna-se maior. Jovens, mulheres, crianças, idosos, a participação era geral: os mais próximos à tela, atentos. Os mais distantes às vezes recorriam ao banco do bar mais próximo, à bicicleta, à moto, ao próprio chão, ou mesmo ficavam circulando entre rodas de amigos e, conseqüentemente, escolhiam ângulos diferentes para ver o filme (coisa que, por exemplo, nós não podemos fazer em uma sala de cinema convencional...).
Ao final da sessão, saí em busca de depoimentos das pessoas sobre a experiência. Por mais de uma vez, perambulei entre os colegas jornalistas Miguel Anunciação (Hoje em Dia), Silvana Mascagna (Magazine), Luciana Ribeiro (Estado de Minas), que tratavam de fazer o mesmo, além de Kubrusly e da equipe de filmagem do projeto.
O estudante Alessandro Furtado e um amigo assistiram à sessão. Entusiasmado, o amigo disse: “A idéia de vocês é uma coisa diferente aqui pra Pirapora. O pessoal aqui está acostumado sempre com a mesma coisa. A opção de diversão aqui é sair, vir aos quiosques aqui, às danceterias. Não tem nada de diferente aqui. Tava comentando com ele sobre isso. Um negócio desse aí chama a atenção, porque eu te garanto o que ia dar de gente para vir aqui ver...”. Em seguida o entusiasmo já vislumbrava sugestões futuras: “o pessoal ia deixar de ir para esses cantos aí, para esses barzinhos, para vir para cá, curtir uma coisa legal, uns filmes diferentes. Achei legal a idéia de fazer aberto, aqui, na beira do rio, para se ter a visão do rio, um céu desses igual tá hoje aí, aberto, limpo, estrelado, clima fresco, gostoso... Pôxa, isso é legal. Tava até falando com ele aqui de viajar um pouco nas idéias, pra fazer, tipo assim, um lugar mais fechado na frente com cadeiras para o pessoal, mas aqui mais atrás, uma área tipo de estacionamento aqui, pro pessoal quiser ficar de dentro do carro assistindo, entendeu? Um negócio assim diferente, achei legal mesmo”.
Outro estudante, Giovanilson Andrade Batista, elogiou o filme de Ratton “é bastante criativo porque lá no Rio, e em todos os lugares do Brasil, tem muitas pessoas jovens que não têm seu lugar, não têm seu espaço, como diz uma música que o Charlie Brown fez, que o jovem, no Brasil, nunca é levado a sério, o que é uma verdade”. Seguiu em sua explicação: “o poderio... os políticos lá na frente poderiam pegar e ouvir mais um pouco sobre os jovens. Porque os jovens têm muitas idéias boas que poderiam lançar no mundo, mas que nunca foram ouvidos. Quando o cinema chegou a fechar aqui eu era muito pequeno, entendeu? Então eu não cheguei, assim, a participar do cinema aqui. Isso seria muito bom porque Pirapora tava precisando de alguma coisa para os jovens aqui, porque hoje não tem”.
Alessandro diz se lembrar de uma única sessão em Pirapora: “Foi o Rambo o único filme que eu assisti no cinema aqui. Era perto... perto da Caloi Center... Cine Vitória, isso mesmo! Eu era muito pequeno. A época que o cinema acabou aqui eu devia ter uns 10 anos de idade mais ou menos”.
Com um pouco mais de idade, a piraporense Vânia Regina Stepanelli chegou a ver “bons filmes na cidade. Não me lembro agora, mas teve Candelabro italiano. Muito bom. Dos nacionais, Lampião, o rei do cangaço. Tá precisando de voltar o cinema, né? Foi acabando. Teve uma época que teve três cinemas aqui, a concorrência era até boa, apesar de dois serem do mesmo dono... mas já tá na hora de voltar”.
Durante as entrevistas, também resolvi seguir as linhas de perguntas por mim estabelecidas na reunião da noite anterior. Se alguma história da região do São Francisco fosse virar filme, seria, na opinião dos dois amigos, a descida de Três Marias. “Nós fazemos todos os anos essa descida. Viemos lá de Três Marias, são três dias de viagem descendo esse rio aí e vendo essa natureza maravilhosa conhecendo, a cada vez que a gente desce, uma coisa diferente. É um bicho diferente que a gente vê, é uma história diferente que tem um acontecimento diferente. A maneira como as pessoas recebem a gente na cidade lá em cima. É o pessoal ribeirinho que recebe a gente. As histórias que eles têm de vida, né, um pessoal que a gente nunca imaginava, assim, encontrar na beira do rio. É tanta gente diferente. Eu acho que isso aí dava uma boa história”. Quando terminou, pensei que, num exercício de futurologia, talvez ele já estivesse usando exatamente as palavras que poderia aplicar a mim mesmo após a experiência do projeto.
Para o jovem Nilton Santos, uma sugestão seria um filme sobre “um ex-prefeito nosso, que infelizmente abandonou a carreira política e, depois de dois anos, morreu afogado no rio. Se ele estivesse vivo hoje, a população teria votado nele mais uma vez e teria outra... a proposta seria outra, porque Pirapora acabou, né? Não existe mais turismo”. Retruquei: “mas aí vocês, jovens, vão levantar essa bandeira, com certeza”. Nilton falou: “mas aí não depende só da força de vontade. Depende muito da politicagem, não só de Pirapora, mas do Brasil todo, entendeu?”. Comentei de novo: “Você não acabou de ver um filme aí que o pessoal não dependeu dos políticos para fazer a rádio deles lá em BH”. “Isso! Um filme que daria, também, bom aqui em Pirapora é a realidade de todos aqui. Porque tem muita gente que tem muita história pra contar. Tem várias realidades aqui,... às vezes têm muitas histórias pra passar pra nós que não conhecemos ainda”, afirmou Nilton.
Já Vânia defendeu como boa história do São Francisco para virar filme a trajetória dos barranqueiros. “O pessoal daqui mesmo, que vive da pesca, né, tem muita coisa bonita para ser contada, aí também, das lendas, como a do caboclo d’água porque é a mais famosa. Das carrancas que eles fazem. ‘Os moldes dos espíritos’ que eles falam, né. Acho que daria um bom filme a beleza nossa”, comentou.
Findas as atividades do primeiro dia – público – de trabalho, todos se reúnem em peso no restaurante do Egnaldo, especialista em surubim na brasa: aliás, o melhor que já comi. O tempo de preparo aguça o paladar para a generosa porção do restaurante: arroz branco, purê de batatas – tudo fresquinho e fumegante – pirão e suculentas postas grelhadas de surubim servidas em espetos. Jogue-se uma pimentinha por cima e... ah, delícia! Ou, como exclamei após saborear primeira garfada, repetindo uma máxima de gourmet: “Vida: esse espaço aborrecido entre as refeições!...”. Inácio, que concedia uma série de entrevistas à imprensa durante o jantar, aproveitou para contar um causo esclarecendo que o surubim oferecido no Egnaldo é o famoso surubim-atleta. Explicou: há dois tipos de surubim. Existe o surubim-atleta e o surubim-preguiçoso. Este fica no fundo do rio, sossegadão, de boca aberta, esperando a bóia chegar; aquele não: nada contra a corrente, enfrenta o curso do rio, corre atrás da comida e, por isso, apresenta pouquíssima gordura... Os risos, o ânimo e o bom-humor das pessoas – logo depois a equipe dos montadores se integrou aos presentes – sim, aquele quadro propiciado pela anedota era o melhor retrato da bem-sucedida noite de estréia do projeto.
A espera do prato também aguçou o ouvido: eu e Zoe percebemos que a trilha sonora do local era um interminável CD de Marisa Monte – que, curiosamente, também foi a presença sonora constante ao longo de todos os cafés da manhã do Canoeiros. Então nós dois suspeitamos: ou a Marisa Monte é unanimidade das instituições turísticas piraporenses ou ela está nos perseguindo...
Enfim, saciados e em paz no corpo e no espírito – afinal, a primeira noite fora um sucesso de público, cobertura, olhos, ouvidos e estômago - seguimos para o hotel, pra dormir e acordar com um novo café – e, claro, Marisa Monte - mas nos prepararmos para uma nova parada. Agora sim, no dia seguinte, embarcaríamos no barco Luminar, que seria nossa casa dali em diante na subida pelo rio São Francisco. Ou seja, o projeto havia começado, mas a viagem pelo rio ainda não.
Livros citados: HISTÓRIAS DA TRADIÇÃO SUFI. Rio de Janeiro: Instituto Tarika, 1993.
Filmes citados: Candelabro Italiano (Rome Adventure. EUA, 1962/direção de Delmer Daves) Lampião, o rei do Cangaço (idem. Brasil, 1963/Carlos Coimbra). Rambo (First Blood. EUA, 1982/Ted Kotcheff) Uma onda no ar (idem, 2002/Helvécio Ratton) Nascente (idem, 2005/Helvécio Marins) Matrix (The Matrix, 1999/Andy e Larry Wachowski) Homem Aranha (Spider Man, 2002/Sam Raimi)
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