- Un homme et son péché – clássico do Quebec revisitado
- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte II, a faceta “engajada”: Gallipoli, O ano em que vivemos em perigo, A testemunha e A costa do mosquito.
- Em busca do sentido Ryan (e Alter Egos)
- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte I, a faceta alegórica: Violência por acidente, Pic Nic na montanha misteriosa e A última onda.
- Pierre Perrault e a trilogia de Île-aux-Coudres: uma nação encontra a tradição
- O mágico: a delicadeza de Chomet encontra a melancolia de Tatit
- Michel Brault (final) - Les enfants de Néant e Les Ordres em conexão com Octobre, de Pierre Falardeau: jogos mortais de conformismo ou resistência
- Michel Brault, parte VI - L’Acadie, L’Acadie’?!, Elogie du Chiac em conexão com High School, de Frederick Wiseman: o ano sem fim de 1968 e belas lições cinematográficas.
- De Gypsy woman a Superfly: saudades do Curtis Mayfield
- Ainda a Juvenília: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (V) – Entre La mer et l’eau douce
- Juvenília: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (IV) – Le temps perdu e Geneviève
- Utopia e Barbárie: pedaços de bons e maus caminhos
- Mobilis in mobile: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (III) – Pour la suite du monde
- O Segredo de Seus Olhos ou as revelações do olhar de Campanella
- Breve Panorama do Cinema Sergipano
- A mente que mente ou a decência na decadência
- O momento decisivo: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (II) - La Lutte, Québec-USA ou L’invasion pacifique e Les enfants du silence
- O momento decisivo: Michel Brault e o cinema verdade no Quebec (I) - Les Raquetteurs
- Mon Oncle Antoine : pérola da filmografia quebequense (e mundial)
- Dalva & Herivelto - uma canção de amor: gratas surpresas na ingratidão do tempo.
- Parênteses anglófono no cinema do Quebec – II: Ted Kotcheff e O Grande Vigarista (1974)
- O Complexo Baader-Meinhof: encruzilhada civilizatória

por Nísio Teixeira
Especial Quebec – parte 2 – os anos 1940 e a continuidade do papel central católico sob melodramas e humor; a experiência da Renaissance Films e da Québec Productions: Le Père Chopin; Le Gros Bill; Le Curé de Village; Le Rossignol et le Cloches e ai
O traço mais marcante desse período no cinema do Quebec são os filmes melodramáticos ou levemente humorísticos, que trazem a figura do padre (curé, em francês) desempenhando um papel crucial na história: é o fiel da balança nos momentos decisivos dos personagens, em narrativas geralmente ambientadas em comunidades ao interior do Quebec. Sutilmente, também se percebe em algumas produções uma crítica à violência e ao consumo urbano, em detrimento da tranqüilidade e da boa qualidade de vida do campo. Foram vistos aqui os seguintes filmes: Le Père Chopin (também conhecido como L´Oncle du Canada); Le Gros Bill; Le Curé de Village; Le Rossignol et le Cloches; Les Brûlés (versão para o cinema de minissérie televisiva). Aliás, dos filmes vistos aqui, só Le Père Chopin consta da lista de Léver. Ainda não consegui assistir a uma produção dessa época que é tida como um dos clássicos: Un Homme et son Peché (primeiro um romance de sucesso, depois repetiu o êxito como radionovela no Quebec e, por fim, no cinema. Ganhou uma refilmagem recentemente). Les 90 Jours e Il Était une Guerre, igualmente indicados, igualmente ainda não vistos.
A diferença é que esta pode até ser uma linha predominante nas produções da época, mas, como veremos na parte 3 deste especial, algumas exceções, entre boas e razoáveis, também aconteceram. Folheando uma das bíblias do cinema local, o livro Le Dictionaire du Cinéma Québécois, de Michel Coulombe e Marcel Jean, cabe destacar ainda que são essas produções que tentam alavancar a indústria cinematográfica no Quebec, em especial a partir de duas produtoras: Renaissance Films (RF), em Montréal, criada por Charles Philipp, francês de origem russa, em 1944, e Québec Productions (QP), em 1946 na cidade do Quebec, por Paul L´Anglais e pelo investidor René Germain, com consultoria de Philipp. Ambas tiveram que negociar com o proprietário das principais salas de exibição do Quebec, Joseph-Alexandre DeSève, que se iniciou nesse mercado ao lado de Édouard Garand, com quem começa a importar filmes franceses a partir de 1931, formando a Franco-Canada Films a partir de 1934. (Pelo que pude auferir, DeSève seria um personagem semelhante ao nosso Assis Chateubriand, no que diz respeito ao poder criado através de uma rede de comunicação. Dúvida que pode ser minimizada com a leitura de biografia sobre DeSève, também do professor Lèver, cujo lançamento está previsto para setembro próximo).
Foi precisamente devido à instabilidade gerada
pela II Guerra que DeSève resolve apostar não só na exibição, mas na distribuição
de filmes. Ele compra a maioria das ações da RF e cria em abril do ano seguinte
a Renaissance Films Distribution (RFD). Além de Philipp e DeSève, têm
assento no conselho o prefeito de Longueuil, Paul Pratt; Rosaire Beaudoin,
ligada ao futuro laboratório Mont-Royal e Léo Choquette, também proprietário de
salas. A idéia é criar toda a companhia como um centro de cinema católico,
inspirado pelo abade francês Aloysius Vachet, ele próprio fundador de uma
produtora de inspiração católica francesa, a Fiat Film, que se empenha
em conseguir recursos materiais e humanos para a RFD. Assim, em 1947, a RFD
compra uma área na região de Côte-des-Nieges, em Montréal. Mas DèSeve, tido
como autocrático, rompe com o grupo e cria a Les Productions Renaissance (LPR), que produz mais três filmes – Le Gros Bill, Docteur Louise e Les Lumières de ma Ville, antes de mudar seu nome para Excelsior Films
e entrar em falência, juntamente com a RFD, no verão de 1951.
Já a Québec Productions foi criada a
partir de um desejo de L´Anglais e Germain de filmarem uma história chamada Rendez-Vous
au Château Frontenac, a ser dirigida pelo mesmo realizador de Le Père
Chopin, o russo Fyodor Ozep. Com a compra de estúdios na região de
Saint-Hyacinthe, no Quebec, em 1946, as filmagens começam, mas com um novo
título ao filme: o bilíngüe e noir La Fortresse/The Whispering City,
lançado ano seguinte. Produção cara aos
padrões da época (cerca de US$ 1 milhão), a idéia de conquistar o mercado
externo, dizem Coloumbe e Jean, foi trocada pelo foco no mercado interno. E foi
assim que a QP investiu em dois sucessos da radionovela quebequense, todos
dirigidos por Paul Gury: Un Homme et son Peché, Le Curé de Village e a
continuação Un Homme et son Peché: Séraphin, todos com êxito local.
Talvez por isso L´Anglais tenta novamente o mercado internacional e produz Son
Copain, que não emplaca. Em maio de 1951, L´Anglais sai da QP e Germain,
com o apoio de DeSève produz Le Rossignol et le Cloches, o derradeiro
título da QP que também encerra atividades em 1951.
Mas, não por acaso, também firma-se um grupo
de excelentes atores e atrizes que farão aparições constantes nos filmes
quebequenses, como Paul Guèvremont (já citado na primeira parte), Ovila Légaré
(interpretou padres em três filmes dos citados acima, além de participar de The
13th Letter, de Preminger, filmado nos estúdios da QP, e I Confess,
de Hitchcock – aliás rodado no Quebec e que, por tudo que viemos apontando até
agora acerca do cinema quebequense, vai merecer uma análise em separado em
função dos 55 anos do filme), Gratien Gélinas, Juliette Béliveau, Lucie
Mitchell, dentre outros. Cabe também destacar diretores como René Delacroix,
Paul Gury, Jean Palardy, Roger Racine, Jean-Yves Bigras, Louis Portugais e
Bernard Devlin. Alguns atuando também como roteiristas e fotógrafos, muitas
vezes com o trabalho de Victor Jobin na montagem e/ou produção.
Le Père Chopin
Um caso à parte é Le Père Chopin. No
filme, a ação do curé será discreta e estranhamente tangencial ao núcleo
decisivo do filme, nos demais ela será, como dizemos, central. Produzido em
1945, é tido como o primeiro longa-metragem de ficção do Quebec (para aqueles
que preferem considerar La Croisée des Chemins como mera propaganda).
Talvez seja interessante considerar a hipótese quando olhamos por um momento a
essa divertida produção pós-II Guerra com o olhar multicultural que é tão caro
ao Canadá atual: afinal, o filme é produzido por um francês de ascendência
russa, com atores quebequenses, mas, sobretudo, franceses, dirigido por um
russo, que explora as dicotomias campo/cidade e vida simples/vida sofisticada
do Quebec para terminar sob os auspícios da Confederação. Todo confronto é
vencido pela honestidade e pelo otimismo que lá no fundo, ainda habitam o
coração humano. Sabemos que, contrapondo-se ao filmes noir e ao neo-realismo, essa atmosfera ajudou a consagrar em
Hollywood, sobretudo, a grandeza de um Capra ou a beleza dos musicais. E eis
que é meio que sob o signo de Capra que essa atmosfera percorre o filme
dirigido por Fyodor Otsep. E aqui, novamente, a confluência de diversas em solo
quebequense: veremos que, enquanto uma tradição francófona faz a opção pela
veia otimista, a anglófona segue a pessimista – e cidades como Montréal e
Quebec acabam sendo palco para as duas, como veremos. (Otsep, por exemplo,
dirigiu seu noir Whispering City, no Quebec, dois anos depois de Le
Père Chopin).
Pra variar, a
história começa em um domingo de missa, com a chegada à cidadezinha de San
Sebastien do pianista Roger Debusson (Guy Maffette), ex-aluno do francês Paul
Dupont (Marcel Chabrier), professor de música, precisamente nosso père Chopin, o qual, radicado no Quebec por causa da guerra, e dada sua admiração
pelo pianista, tem o desejo de, um dia, reger toda uma orquestra com obras do
músico. Pai de cinco, uma de suas filhas, Madeleine (Madeleine Ozeray), é
antiga paquera de Debusson.
Orgulhoso, após a missa o pianista é convidado
por Dupont para tocar Chopin para publico reunido em festa organizada pelo curé local. Ao olhar Madeleine, tenta impressioná-la e, para espanto de todos,
Chopin em ritmo de rock. Muitos se levantam e saem, inclusive a própria
Madeleine. Segue-se então um primeiro confronto cômico entre o hábito urbano e
o hábito eclesiástico: Monsieur Dupont toma as dores da platéia desgostosa e
Debusson terá que se desdobrar um pouco para reatar os laços com a família.
Nesse meio tempo o segundo ato é forjado: o
rádio anuncia que um milionário, de sobrenome Du Pont, está em Montréal e,
moribundo, quer descobrir antigos parentes em Québec para deixar sua herança.
Enquanto oportunistas fazem fila no escritório do empresário, Du Pont segue o
dia em sua vilazinha, apesar da insistência dos amigos e até mesmo, dos
próprios filhos, os quais acabam, secretamente, acabam andando uma carta com
foto. A diversão continua, porque Du Pont descobre que, na verdade, estava só
com uma forte congestão e, saudável, pede logo um banquete para se refestelar
dos dias perdidos. No meio da comilança, ele quase desiste da sua moribunda
empreitada quando reconhece a mãe e o parentesco com Du Pont através da foto
enviada.
Terceiro ato, a chegada da família na casa
milionária muda os hábitos do tio afortunado, que não revela ter muita
paciência com as travessuras dos sobrinhos, com os romances das sobrinhas e,
principalmente, com a presença da família no dia a dia. Logo trata de
estabelecer os meninos a um pensionato e armar casamentos para as filhas,
provocando melodrama entre Madeleine e Roger – até um ponto em que “Père” Chopin, passivo na maioria do tempo,
entra em ação, rompe com o tio que, de volta a solidão de sua mansão, sente a
falta das travessuras, ressente-se dos atos e busca, ao final, sua gloriosa
reconciliação.
Le Gros Bill
Já em Le Gros Bill (1949), René
Delacroix – graças ao texto de Jean Palardy, que logo também se tornará diretor
– explora humoristicamente algo que, de tao óbvio talvez, não fora utilizado no
cinema : o caráter bilíngüe do Canadá. Tudo começa quando, durante o
inverno, um autêntico texano que, sem saber falar nada de francês, chega a uma
cidadezinha no interior do Quebec, onde ninguém sabe falar nada de inglês –
salvo, claro, por Clarina (Ginette Letondal), a bela filha do morador que o
acolhe no dia de chegada, sr. Chouinard (Paul Guèvremont, novamente), que
aprendeu o idioma com uma família americana durante o verão. Ele é o único
herdeiro das terras de um tio quebequense e vai com a intenção de se instalar
no lugar, apesar de também não possuir qualquer experiência em fazendas.
Palardy explora muito bem as possíveis piadas
do confronto lingüístico, com o uso de inside jokes em francês, mímica e
tiradas como quando Bill pergunta a Clarine como se diz “I like you” em
francês. “Je vous aime beaucoup” “Oh, so you too, ahan!” “No, Bill”, diz
acanhada. “I was just teaching you”. Delacroix usa recursos de profundidade de
campo e elipse como ingrediente na dramatização de situações, como também o
gigantismo de Bill (interpretado de forma meio canastra pelo ator Yves Henry, o
que acaba ajudando a acentuar um certo ar blasé que traz o personagem) nas
comicidades, em especial quando confrontado com a pequena tia Mina (a excelente
Juliette Béliveau, atriz do delicioso Dame aux Camélie, la vraie, sobre
o qual falaremos à parte). Interessante notar que, a princípio arredios pela
presença de um anglófono, Bill vai, aos poucos, ganhando a simpatia do povoado.
Mas o amor dos dois será abalado por Alphonse (Maurice Gavin), o rival
enciumado porque é apaixonado por Clarina, mas ela prefere Bill. Gavin apronta
um crime erroneamente atribuído a Bill. E aqui transparece a escolha católica
de Delacroix, pois o padre (Claude Lapointe) tem o bom senso, mas, em um
primeiro momento, não consegue convencer a população da inocência de Bill.
Clarina reza para que a justiça seja feita - e ela acontece no púlpito da missa.
No caso quebequense, como visto (embora também
o seja em alguns casos de Capra), o catolicismo – ainda que despojado da visão
catecista dos filmes anteriores - desempenha papel central: nas crises, os
personagens recorrem à oração. Em ambos, há pelo menos uma cena em que os
membros da família se reúnem para rezar. O padre é sempre o ponto de referência
e de bom senso nas soluções dos problemas – em especial em Le Gros Bill,
quando o personagem título é finalmente inocentado dos crimes que não cometeu
(inclusive do roubo de um dízimo caritativo à Saint-Anne) não em uma corte de
justiça, mas no púlpito, pelo padre, durante a missa de domingo (como vimos,
cenário onde se apresentam os personagens de Le père Chopin) – momento
de encontro e referência social das pequenas cidades (como aliás Proulox
mostrou bem em seu En Pays Neufs). A família também exerce papel central
no suporte ao drama dos personagens ou seja como turning point da trama
(um parente distante moribundo ou morto desencadeia o choque cultural)
O idílio amoroso
dos personagens centrais permite uma cena de beijo roubado (no rosto) dos galãs
sobre as mocinhas (Roger-Madeleine e Bill-Clarina), mas não se mostra o
explícito – o que remete inevitavelmente me remetia ao padre censor de beijos
de Cinema Paradiso. Os hábitos do campo, o trabalho, especialmente com a
madeira, no caso de Le Gros Bill, retratam alguma das fontes econômicas
quebequenses da época, ao passo que em Le père Chopin destaca mais o
progresso urbano da Montréal dos anos 1940, como se evidencia no caráter
consumista e fugaz da irmã de Madeleine.
Le Curé de
Village
Com roteiro original de Robert Choquette, o filme abre nos créditos com o curé de uma pequena cidade no Quebec jogando beisebol com as crianças, damas com os mais velhos até a primeira seqüência efetiva, na verdade um plano-seqüência de nosso personagem central, interpretado por Ovila Légaré, caminhando pela vila, saudando e sendo saudado por todos, até entrar na igreja.

O Curé de Village
O padre tornou-se responsável pela jovem Juliette Martel (Lise Roy) após o pedido do pai da moça, em seu leito de morte. Como todas as mocinhas dos filmes vistos aqui, Martel é religiosa, atenciosa e meiga. Ganha a vida trabalhando no posto de correio da vila e é cortejada pelo bom partido da cidade, Lionel Theberge (Denis Drouin), cuja mãe (Jeannette Teasdale) desaprova o romance, dada a baixa condição financeira de Martel. A pobre e órfã jovem é galanteada pelo dono do cartório da cidade (Camille Ducharme) que, ao saber da chegada de um homem misterioso na cidade à procura do pai de Martel, procura armar uma tramóia com Mme. Theberge para afastar os dois.
O homem misterioso que chega é Leblanc (Paul Guèvremont) e é logo retido na paróquia pelo padre. Ex-presidiário, procura por Juliette. Então, mostra-se o rosto do padre e, em fusão para um flashback, a face do curé ouve agora o pedido do pai de Juliette. Mas antes, revela um segredo: ele não é o pai da garota. O pai verdadeiro cumpre prisão nos EUA. Mas, no leito de morte, outra testemunha da verdade, o dono do cartório, que está lá para fazer o testamento. Foco no rosto do padre. Fim do flashback. O curé está, portanto, no meio de um dilema, sendo pressionado pelo burocrata cartorial e por Leblanc: “Regarde votre coeur”, pede o padre a Leblanc. Mas, poderia esse insensível vilão olhar para o seu coração e não contar o passado a Juliette? – e tudo isso bem na hora em que uma jovem, Ângela, parte para Montréal e vai até a paróquia para pegar as recomendações do padre.
Homem do teatro, Gury consegue explorar muito bem os recursos cinematográficos para atingir as emoções dramáticas e, em especial – com a ajuda do roteiro de Choquette – a seqüência final em que as verdades vêm – ou não – à tona, quando trabalha diálogos e personagens colocados dentro e fora do quadro. De novo, polícia e justiça quase ficam fora da trama, salvo por um pequeno detalhe ao final. E, mais uma vez, nessa aparição, um garoto comenta que polícia é coisa de cidade grande. Na vila, não acontecem crimes.
Le Rossignol et les cloches
Última produção da QP, também dirigida por Delacroix, sobre roteiro de Joseph Schull, de novo temos aqui o papel central desempenhado por um curé (Clément Latour) para fazer com que um jovem e talentoso cantor, Guy Boyer (Gérard Barbeau) comporte-se adequadamente para uma apresentação beneficente de uma famosa pianista, Nicole Payette (Nicole Germain), em prol dos sinos da Igreja. Apesar da insistência de seu agente René (Jean Coutu) na boa ação, Payette, por sua vez, anda meio cansada de caridade e quer um foco maior em sua carreira – chance que parece faltar ao pobre Boyer, que, apesar da bela voz – ele é o rouxinol – e da paixão pelo repicar dos sinos da igreja, é invejado pelos demais colegas do coral.
Além disso, ele e a avó (Juliette Béliveau), mal conseguem dinheiro pra comer. As histórias de Nicole e Guy se desenvolvem em paralelo até o momento do primeiro concerto. Sem roupa adequada, é o padre quem consegue um paletó para Guy e dá dinheiro para que ele compre uma camisa branca. Peripécias acontecem e Guy acaba tendo que ir a Montréal acabar de conseguir o dinheiro para os sinos e se desculpar com Nicole. Curioso notar que, ao perguntar pela pianista a um passante, ele diz “sorry kid, I did not speak French”.
Entrementes, há o papel da irmã Estella (Janine Fluet) que funciona como espécie de conselheira para Nicole e Guy e ainda Antônio (Ovila Légaré), dono de um restaurante que, indignado com a presença das juke boxes de pop-rock, resolve manter uma de música clássica, para que Guy possa aparecer algumas vezes e dar uma canja aos fregueses. (No lugar não se vê bebida alcoólica, apenas café e leite).
O filme serve como veículo para a interpretação do consagrado Barbeau, que, já ídolo no Quebec, volta após uma turnê pela França e Vaticano, onde é recebido pelo papa Pio XII. Pelas razões religiosas apresentadas, o canto coral era bem apreciado e o jovem Barbeau – a “voz de Ouro do Quebec” - se mostra absolutamente à vontade no canto e na atuação. (Não há muita informação sobre a doença que causou a morte do cantor pouco tempo depois, em 1960, aos 24 anos).
A religião, a oração e o canto aparecem novamente como refúgio aos personagens em seus momentos de dúvida. Da mesma forma, a metrópole é apresentada como espaço anômalo, mas ainda capaz de gerar alguma solidaridade, como a que Guy encontra no restaurante e, ao final, junto a pianista, que revê suas ambições. Tudo isso pesa muito mais que o bom elenco quebequense, produzindo um filme bem inferior à graça de Le Gros Bill, anteriormente dirigido pelo mesmo Delacroix. Outro elemento constante dos filmes vistos é a presença da conversa à meia-boca, da fofoca entre mulheres e senhoras acerca do que está acontecendo na cidade.
Les Brûlés
Fechando esse nosso ciclo, temos Les Brûlés. O filme é, na verdade, resultado da montagem de uma série produzida para a TV, em 1957, por Bernard Devlin, um dos primeiros nomes que surgem aqui provenientes d´ Office National du Film/National Board of Cinema (detalhes no próximo texto) e a partir da decisão, em 1953, da ONF/NBC iniciar o investimento em TV.
Apesar de produzido ao final dos anos 1950 – o que faz do filme uma exceção à nossa seção – decidi incluí-lo aqui por duas razões. Primeiro, porque, como antecipamos ao final de nosso comentário em En Pays Neufs, o filme de Devlin retrata a trajetória de uma certa colônia Saint Antoine sobre a colonização do norte do Quebec na década de 1930, tal como retratou o citado documentário de Proulox: a chegada dos colonos, os desafios impostos pela natureza, a importância e o tratamento da terra, a presença central da Igreja na organização prática e religiosa da vida colonial e do curé como elemento integrador e solucionador de crises (no filme de Devlin, até mesmo na hora de ensinar a dançar ou ninar um bebê).
Mas também a luta pelo poder, a corrupção e da chegada da alta tecnologia de então – os tratores – à rotina do campo: substituem, por exemplo, os bois na retirada do tronco e das raízes restantes das árvores cortadas para a terraplanagem do terreno. Reunidas, elas são queimadas e daí o título, porque, assim como regisrou Proulox nos anos 1930, era uma cena típica do início da colonização quebequense.
O elenco inclui o célebre poeta, compositor e cantor popular Félix Léclerc (interpreta um colono músico e artista), responsável, na música quebequense, da ligação e da apresentação dos temas e problemas do Quebec rural à população urbana e do Quebec como um todo à França e ao mundo. É ao som de sua música que o filme começa e, na seqüência seguinte, quando um plano interessante enquadra os colonos numa balsa, subindo o rio, em silêncio, apenas ao som da música de Léclerc e observando a paisagem do lugar (algumas tomadas em contra-plongée enquadram pinheiros longuíssimos).

FÉLIX LECLERC
Destacaria ainda outra seqüência dos colonos trabalhando ao final do dia, em planos contra o sol crepuscular, criando aquele efeito de silhueta que logo me remeteu à célebre fotografia de Chick Fowle para a abertura de O Cangaceiro, lançado quatro anos antes. Em compensação, há a inserção de um voice over no meio do filme para fazer a elipse do inverno – que, no caso canadense, parece ser mesmo o limite da ficção: salvo Le Gros Bill, os demais filmes não são rodados nessa estação. Curiosa contradição, pois uma das coisas mais impressionantes na história da colonização do Canadá, especialmente para tropicalistas como nós, é essa resistência e persistência ao frio, morando sem o conforto das calefações atuais e em meio a um rigoroso controle alimentar (até hoje, durante o inverno, o Canadá precisa importar boa parte da comida que consome).
Lançado em 1959 no cinema, Lês Brulés encerra assim, essa parte de nosso ciclo sobre os filmes do Quebec. Afinal, mesmo em se tratando da ONF/NFB, o ano representaria uma guinada definitiva ao cinema direto da organização. Mas, como disse, existem, entre boas e razoáveis, algumas curiosas exceções deste período, que vão de Dama das Camélias ao capitão James T. Kirk. É o tema de nosso próximo texto.
Livros citados
COULOUMBE, Michel e JEAN, Marcel. Le Dictionnaire du Cinéma Québécois. Montréal: Boreal, 1999.
Filmes citados
En Pays Neufs (idem, 1934-1937/dirigido por Maurice Proulox)
Dame aux Camelias (la Vraie), (idem, 1942/dirigido por Gratien Gélinas)
Le Père Chopin/L`Oncle du Canada (idem, 1945/Fyodor Otsep)
Whispering City (idem, 1947/Fyodor Otsep)
Le Gros Bill (idem, 1949/René Delacroix e Jean-Yves Bigras)
Le Curé de Village (idem, 1949/Paul Gury)
Un Homme et son Peché (idem, 1949/ Paul Gury)
Docteur Louise (idem, 1949/René Delacroix e P. Vandenberghe)
Un Homme et son Peché: Séraphin (idem, 1950/ Paul Gury)
Les Lumières de ma Ville (idem, 1950/Jean-Yves Bigras)
Son Copain (idem, 1950/J. Devraive)
The 13th Letter (idem, 1951/Otto Preminger)
Le Rossignol et les Cloches (idem, 1952/René Delacroix)
O Cangaceiro (idem, 1953/Lima Barreto)
Tortura do Silêncio (I Confess, 1953/Alfred Hitchcock)
Les Brûlés (idem, 1959/Bernard Devlin)
Il Était une Guerre (idem, 1959/Louis Portugais)
Les 90 jours (idem, 1959/Louis Portugais)
Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988/Giuseppe Tornatore)







