- Un homme et son péché – clássico do Quebec revisitado
- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte II, a faceta “engajada”: Gallipoli, O ano em que vivemos em perigo, A testemunha e A costa do mosquito.
- Em busca do sentido Ryan (e Alter Egos)
- Peter Weir: facetas diversas, conflitos semelhantes – parte I, a faceta alegórica: Violência por acidente, Pic Nic na montanha misteriosa e A última onda.
- Pierre Perrault e a trilogia de Île-aux-Coudres: uma nação encontra a tradição
- O mágico: a delicadeza de Chomet encontra a melancolia de Tatit
- Michel Brault (final) - Les enfants de Néant e Les Ordres em conexão com Octobre, de Pierre Falardeau: jogos mortais de conformismo ou resistência
- Michel Brault, parte VI - L’Acadie, L’Acadie’?!, Elogie du Chiac em conexão com High School, de Frederick Wiseman: o ano sem fim de 1968 e belas lições cinematográficas.
- De Gypsy woman a Superfly: saudades do Curtis Mayfield
- Ainda a Juvenília: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (V) – Entre La mer et l’eau douce
- Juvenília: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (IV) – Le temps perdu e Geneviève
- Utopia e Barbárie: pedaços de bons e maus caminhos
- Mobilis in mobile: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (III) – Pour la suite du monde
- O Segredo de Seus Olhos ou as revelações do olhar de Campanella
- Breve Panorama do Cinema Sergipano
- A mente que mente ou a decência na decadência
- O momento decisivo: Michel Brault e o cinema-verdade no Quebec (II) - La Lutte, Québec-USA ou L’invasion pacifique e Les enfants du silence
- O momento decisivo: Michel Brault e o cinema verdade no Quebec (I) - Les Raquetteurs
- Mon Oncle Antoine : pérola da filmografia quebequense (e mundial)
- Dalva & Herivelto - uma canção de amor: gratas surpresas na ingratidão do tempo.
- Parênteses anglófono no cinema do Quebec – II: Ted Kotcheff e O Grande Vigarista (1974)
- O Complexo Baader-Meinhof: encruzilhada civilizatória

por Nísio Teixeira
Especial Quebec – parte 3 – os anos 1950 e rupturas do papel central católico, ma non troppo: Dame aux Camelias (la Vraie); The Whispering City/La Forteresse; Buttler´s Night Off; L´Homme Aux Oiseaux; Lés Désouvres; Mécanique; Days Before Christmas e
Fyodor Otzep
Enquanto a RF e a QP lançavam suas bases em filmes sob a batuta de Otzep, outro importante núcleo de produção canadense havia sido criado. O National Board of Cinema/L´Office National du Film do Canadá, fundado em 1939 pelo documentarista John Grierson, a convite do governo canadense, paralelo ao órgão de cinematografia oficial. Grierson havia implantado um núcleo de filmes documentários (ao lado do brasileiro Alberto Cavalcanti) e também de animação para o império britânico. Mas, segundo o longo verbete (quase 20 páginas) sobre a ONF/NFB escrito por Pierre Véronneau ao dicionário de Coulombe e Jean, nenhum nome franco-canadense foi convidado a participar das primeiras produções. Grierson julgava que a dublagem resolveria o problema francófono.
Mas pouco tempo depois da integração do Escritório Oficial de Cinematografia canadense ao ONF/NFB, em dezembro de 1941, realizadores de origem franco-canadense começam a participar, como Vincent Paquette (que irá produzir mensalmente os cine-jornais Actualités Canadiennes até 1943, quando tornam-se bimensais e são rebatizados como Les Reportages até o fim em 1946, somando 118 filmes), Jean Palardy, Jean-Yves Bigras e, após a guerra, Victor Jobin, Roger Blais, Bernard Devlin, dentre outros. Ao lado dos cine-jornais, uma série de animações, Chants Populaires, inspirada no folclore quebequense, era produzida por René Jodoin, Jean-Paul Ladouceur e por aquele que logo que se tornaria o nome mais ilustre da ONF/NFB: o escocês, naturalizado canadense, Norman McLaren.
Grierson deixa a presidência do órgão em 1945, sendo sucedido por Ross McLean, que, diante do corte de orçamento, volta a defender a dublagem em francês, embora mantenha uma linha de produção de filmes francófonos. Pra complicar ainda mais, o governo quebequense de Duplessis entra em choque com a ONF/NFB, acusando de produzir “filmes comunistas” e restringindo as produções do órgão.
A chegada de Arthur Irwin à presidência não muda o quadro; ao contrário, segundo Véronneau, L´Homme Aux Oiseaux (1952, ler texto abaixo) foi considerado muito caro para só atender ao público francófono. Albert Trueman assume em 1953 e cria dois estúdios: o E, dedicado a filmes francófonos para a TV e dirigido por Bernard Devlin e também o F, dedicado à produção cinematográfica francófona, dirigido por Roger Blais. É aí que Devlin irá produzir Les Brûlés e Blais dará início a uma série de pequenas histórias da vida franco-canadense com Silhouettes Canadiennes – uma delas, por exemplo, Le Cocher, mostra um dedicado condutor de charretes na velha Quebec. Entusiasmado ele faz às vezes de condutor, mas também de guia turístico, que nem sempre encontra passageiros interessados.
Nesse mesmo ano o órgão compra terrenos em Montréal visando estabelecer um núcleo no seio da francofonia canadense, que é finalmente estabelecido em 1956. A imprensa local faz campanha por um setor francófono na ONF/NFB e tudo sinaliza para tal com a ascensão de Guy Roberge ao posto principal. Uma das primeiras decisões é precisamente a criação de duas séries que possam tratar da sociedade franco-canadense. São assim produzidas as séries Panoramique (1957-1958) e o início de Profils et Paysages. A primeira consiste na produção de minisséries que, ao final, gerariam um filme. Além do já comentado Lês Brulés, temos os dois filmes (citados no início do texto anterior) de Louis Portugais – Il Était une Guerre e Les 90 Jours – dois de F. Dansereu – Le maître de Pérou e Pays Neuf e ainda Les mains nettes, de Claude Jutra.
O final da década de 1950 vai marcar também a entrada em documentários no estilo do cinema direto e revelar outros nomes importantes, como Gilles Proulx – que aí deixamos para o próximo texto. Vale lembrar que, dos filmes trabalhados nesta seção, só dois constam da lista de Léver: L´Homme aux Oiseaux e La Petit Aurore. Voilá!
Dame aux Camelias (la Vraie): Gélinas e a leveza da comédia
Se na seção anterior, terminamos o panorama dos anos 1940 encaixando no perfil um filme do final dos anos 1950, agora faremos o contrário: abriremos nosso panorama dos anos 1950 apresentando uma verdadeira pérola do início dos anos 1940: o curta-metragem La dame Aux Camelias (la Vraie), filme “heróico-artesanal” no dizer de seu diretor, escritor e ator, Gratien Gélinas. Filme colorido em curta-metragem, rodado em 16 mm, revezava com o diretor na fotografia e na captação do som, o apoio dos amigos Jean-Marc Audet (studio modelo), André de Tonnancourt e Henri Paul.
Gélinas já era conhecido ator no Quebec, especialmente Montréal, graças ao seu personagem cômico Fridolin, sucesso no rádio entre os anos de 1938 e 1946. Ele coloca o personagem no filme como um sujeito perdidamente apaixonado por uma atriz pilantra, intérprete de Dame aux Camelias, a sempre divertida Juliette Béliveau. Também atuam no filme Fred Barry e Julien Cippé.
Comédia non sense, irônica no gesto, na forma, na música, num formato que usa e abusa do cabaré, mas também da câmera subjetiva e da metalinguagem para romper a narrativa e brincar com o espectador. Tive que conter as gargalhadas dentro da cinemateca. Depois do peso melodramático de tantos filmes, a micro-produção de Gélinas ajuda a respirar um pouco. E aí, quando você percebe já está rindo de tudo: dos atores, da história e até mesmo do cartaz do último espetáculo da atriz: “o lago do Cisne. Quem morrerá primeiro: a atriz ou o Cisne?”. Não por acaso, também fala de um universo estranho aos filmes comentados anteriormente: boemia urbana, jogos, prostituição.
Como o filme não estava na lista de Léver e tampouco no IMDB, resolvi fazer uma pequena pesquisa no acervo da cinemateca e encontrei uma boa entrevista de 1982 com Gélinas (que morreu em 1999, aos 90 anos) publicada na revista Séquences. Nela o ator, roteirista e diretor explica que os equipamentos foram comprados durante o verão de 1942 em Nova Iorque: uma Cine Special Kodak e gravador acoplado à câmera.
Gélinas teve três semanas para rodar o filme, porque Fridolin iria iniciar uma temporada no teatro e Béliveau tinha outros compromissos. “Como estávamos em período de guerra, havia racionamento para a compra de rolos de 16 mm: cada pessoa podia comprar, por mês, um rolo de 100 pés de filme. Então fui com toda a equipe numa loja e compramos, cada um, os 100 pés de filme, o que permitiu chegar a um total de 2 a 3 mil pés. A cada rolo enviávamos para a revelação em Toronto.”, diz Gélinas.
Mas, para ganhar tempo, recorreu, com os amigos, a dois estudios de câmera escura para revelar o som do 16 mm (optaram pelo modo variable area ao invés do density) e uma versão preto-e-branco do 16mm. Optou pela montagem final em Nova Iorque, então menos vulnerável ao problema do racionamento que Toronto. Mas teve que entrar com o filme revelado no Canadá de forma clandestina. “Deixei o original em Nova Iorque e ele, depois de tudo, acabou se perdendo por lá”. O “depois de tudo” é porque, ao chegar, Gélinas viu que a cópia ficou com todas as cores trocadas. Nova ida à Nova Iorque. No retorno a Montréal, uma tempestade de neve pára a viagem, sem praticamente nada para comer ou beber no trem ou nas proximidades. “Saímos segunda à noite e só conseguimos chegar na quarta de manhã”.
O sufoco da produção, mais as dificuldades impostas pelo racionamento e a parca oportunidade de exibição, fez com que Gélinas vendesse todo o equipamento dois anos depois. Ainda assim, ele não desistiu do cinema. Em 1945, Roger Blais filma as principais esquetes de Fridolin no cinema com o curta Fridolinons e, em 1953, o personagem volta a cena no ultra-recomendado Tit-Coq (mas, como o anterior, impossível de achar uma cópia em DVD ou VHS, mesmo na cinemateca). Escrito por Gélinas e co-dirigido por René Delacroix, o filme foi produzido por Paul L`Anglais (da extinta Quebec Productions) com o apoio financeiro de DeSève (da extinta Renaissance Films Distribution, cujos estúdios, contudo, foram utilizados para a produção do filme). Posteriormente, presidiu um dos órgãos de financiamento do audiovisual no Quebec, a SDICC, entre 1969 e 1977 – onde defendia que ter um bom roteiro é essencial para se ter um bom dinheiro – e atuou em algumas produções internacionais como Agnes de Deus, de Normam Jewison.

Juliette Huot e Gratien Gélinas em Tic-Coq
Como dissemos no início deste texto e do anterior, parece que, enquanto, no cinema dos anos 1940 e 1950, a vertente francófona seguia um caminho mais rural, iluminado e católico, a anglófona optava pelo urbano, obscuro e laico. O filme de estréia da QP pontua um outro tom do cinema quebequense: o submundo do crime, drogas, intriga e corrupção. Mas, bem entendido, só neste filme de estréia., porque L´Anglais, ambicionava, de certa forma, o mercado externo. Todavia, o filme foi também rodado em francês. Portanto, ao que conta, escolhido o take válido de uma cena em inglês, o elenco passava então a repetir as tomadas da mesma cena, em francês, produzindo, ao final, o mesmo filme nas duas línguas.
Esse trabalho dobrado de Otzep e equipe produziu um resultado que, apesar de irregular, não é de todo ruim. Começando para um detalhe curioso, mesmo para um filme noir: não há a femme fatale, aqui a mulher assumiu o papel de “detetive”: é a jornalista Marie Roberts (Nicole Germain) que obtém de uma antiga e famosa artista, Renée Brancourt (Mimi D´Estée) em seu leito de morte, após sofrer acidente de carro, a informação de que seu noivo, outro conhecido artista, não teria sido morto em acidente semelhante, mas assassinado. O que a leva a Albert Fréderic (Paul Lukas), advogado e patrocinador de obras de arte, no momento em que ele recebe o compositor Michel Lacoste (Paul Dupuis), que está prestes a finalizar um concerto para a orquestra do Quebec. Lacoste está envolvido com problemas financeiros e também conjugais: sua mulher, Blanche (Roy Lafleur) tem ataques histéricos e só dorme com ajuda de substâncias injetáveis.
Marie é apresentada como mulher independente: tem seu próprio emprego, apartamento, carro e cigarro. Além disso, creio que inaugura também, no Quebec, filmes que tratam de jornalismo, já que seus embates com o editor, Edward Durant (John Pratt) serão constantes, a medida em que ela avança suas suspeitas sobre Fréderic. Em que pese uma boa apresentação, na qual o filme é contado como se fosse uma mera história de um charreteiro a um casal enamorado que passeia pela Quebec projetada ao fundo (sim, aqui a QP mostra a grana e já lança mão do bom e velho back projection), as fórmulas a seguir são um pouco óbvias, bem como as pistas (evidentes demais), até o momento da reviravolta, em que entra em cena uma espécie de Pacto Sinistro avant la lettre (o filme de Hitchcok é de 1951, e o romance homônimo de Highsmith é de 1950) e que dá outro impulso ao filme, cinematográfico inclusive e, talvez não por acaso, hitchcockiano. Aliás, tema de nosso próximo texto, é Hitchcock quem vai produzir o segundo filme noir da história do Quebec com seu I Confess, totalmente rodado na cidade, com Ovila Legaré (que em Whispering City faz uma ponta como detetive) no papel da Valette, assassinado no início do filme. Quanto a Otzep, trata-se, infelizmente, do último filme dirigido por ele, que teria um ataque cardíaco fulminante dois anos depois em Hollywood. Seria interessante vê-lo em ação novamente: de qualquer forma, entre as duas produções quebequenses, ainda encontrou tempo para dirigir um filme luso-espanhol, Cero de Conducta, que desconheço. E deixou, em dois filmes distintos entre si, um começo interessante para o cinema quebequense.

The Whispering City
Butler´s Night off: receita do melodrama francófono em outra incursão noir
Butler´s Night off, também filmado nos estúdios da RFD, produzido pela obscura Mount-Royal Films traz a estréia do fotógrafo Roger Racine na direção, após ter trabalhado em Le Curé de Village e Les Lumières de ma Ville. Também fará a fotografia de La Petit Aurore, l´enfant martyre.
O filme de Racine não conseguiu distribuição e é uma obra curiosa porque se passa e retrata a Montréal dos anos 1950, sendo totalmente falado em inglês e com elenco praticamente novo, salvo Maurice Gavin que aparece rapidamente como um membro de gangue que ainda incluía, vejam só, de William Shatner, que faz seu début no cinema. Aborda o submundo da máfia e da noite montrealense (com bares, bêbados e prostituição), ao mesmo tempo em que parte de uma premissa do melodrama francófono: Butler é, literalmente, o mordomo - e de um milionário em Montréal. Mas é também apaixonado pela filha do patrão, Marion, que, contudo, prefere Roger Larouch, um benfeitor que cuida de crianças abandonadas (e pela primeira vez vejo um personagem negro como uma delas). Diante da recusa do pai em doar dinheiro a Roger, Marion sugere que ele assalte a casa – mas nosso Butler ouve tudo. E é assim, o mordomo começa como culpado, mas no final quer ser herói.
A mistura desses ingredientes não pega muito bem e o resultado é uma história fraca e desconexa. Serve, contudo, como veículo para Racine mostrar seu domínio ao explorar um e outro plano interessantes no jogo de luz e sombra e uma curiosa e silenciosa apresentação do personagem Butler no início do filme.

William Shatner,o cap. Kirk
La Petit Aurore, L´Enfant Martyre: cinema com requintes de crueldade
Produzido por uma companhia de curta duração criada por DèSeve, a L´Alliance Canadienne du Cinema (além deste, vai lançar o Tit-Coq) e apesar da boa fotografia de Racine (e talvez exatamente por causa dela), o filme de Bigras devolve o peso católico, com toda a força, à produção cinematográfica. Filme de grande sucesso no Quebec, conta a história de Aurore, uma pobre criança que vê a mãe falecer pela negligência da viúva vizinha que banca a enfermeira, mas na verdade quer mesmo é se casar com o pai de Aurora.
A partir daí, o fime torna-se insuportável, em todos os sentidos do termo: a madrasta consegue, na surdina, maltratar progressivamente Aurora até o fim. Tapas, humilhações, sabão engolido, espinhos na cabeça, tombos em escada, correias, prisão, castigo, queimaduras (na cabeça, na mão, na língua) – tudo sugerido, obviamente, mas de uma violência sem igual, que coloca Mel Gibson e seu gore movie A Paixão de Cristo no chinelo, ou melhor, em sandálias franciscanas.
A madrasta consegue esconder os maus-tratos ante a passividade covarde do pai, que acredita nas mirabolantes versões da nova companheira. O meio-irmão tenta confortar a dor da garota e de uma ou outra desconfiança da vizinhança. Detalhe curioso é que nem o padre acredita na menina, quando ela o procura, graças à intervenção da vizinha, para se confessar. A medicina e a Justiça assumem a descoberta e a decisão final. Tudo pontuado por previsível e terrível som de órgão.
Ainda que possa concordar com Léver em suas observações sobre como o filme funciona para denunciar o final dos tempos de glória e tranqüilidade do espírito rural, defendidos pelo governo de Duplessis e pela Igreja – o curé é mostrado com alguém que erra, enfim, e a Ciência e a Justiça triunfam – tendo a concordar com outra leitura proposta, a de um desfile sado-masoquista. A produção talvez reforce como nunca o moralismo cristão do sofrimento e do martírio – como o próprio título explicitamente e como a violência do filme implicitamente nos dizem. O filme se condena precisamente por mostrar aquela violência que – teoricamente – procura exatamente condenar.

La Petit Aurore, L´Enfant Martyre
L´Homme Aux Oiseaux
Produzido pelo ONF/NFB, este curta-metragem primoroso é dirigido por Bernard Devlin e Jean Palardy (que faria mais documentários, como Pour L´Amour de nous enfants, sobre o hospital de Saint Justine, voltado para as crianças, tendo feito sua estréia com o curta Metropole/Montreal by Night, que reuniu novamente o par Gélinas-Béliveau, com fotografia de Racine). Escrito por Roger Lemelin, o filme conta um dia na vida de José, um amante dos pássaros e que perde a noção do tempo quando sai em busca deles. Isso vai acabar lhe custando a perda do emprego em uma fábrica de sapatos e, pressionado pela mulher, deve sair em busca de outro. De bombeiro a estivador, José não consegue obviamente se encantar com tudo aquilo da mesma forma como se encanta e se entrega aos pássaros – e prefere ter um passarinho na mão a propostas de empregos monótonos ou perigosos voando à disposição.
O duo de diretores dá um show de cinema desde o primeiro ao último plano, explorando as intenções dramáticas e delicadas do personagem com sua curiosa e, às vezes, cômica estratégia de recusa das ofertas – mesmo uma feita pelo padre local. Sim, o curé está lá, bem como as fofoqueiras de plantão, mas tudo em função de um cuidado cinematográfico primoroso do som e do enquadramento, que garante a surpresa final. Tudo isso tendo como pano de fundo a cidade do Quebec, suas ruelas e arquiteturas coloniais. O filme, aliás, integra um souvenir oficial do 400o ano da presença francesa: o DVD quádruplo 400o vu du Chateau, que reúne toda a sorte de filmes produzidos ao redor ou dentro do chateau, o qual, entenda-se, é o próprio Castelo de Frontenac, imponente edificação secular da cidade.
Days before Christmas
Documentário curta-metragem produzido em 1959 por vários diretores ligados à NFB/ONF - George Dufaux, Terence MaCartney-Filgate, Stanley Jackson, Wolf Koenig – trata de abordar, no melhor estilo do cinema direto, ou seja, sem inserção de voice over, música, ou qualquer outro tipo de intervenção que ultrapasse o enquadramento e a montagem, os dias que antecedem a celebração de Natal em Montréal.
Começamos com um padre ensaiando um coral, cuja música permanece na mudança de quadro, agora enfocando a preparação de um presépio. Em seguida aparece o movimento dos bares, o twist, e, principalmente, das lojas, dos brinquedos, evidenciando já àquela época a febre do consumo. Outra seqüência curiosa é a de um Papai Noel fake chegando de helicóptero em meio a uma multidão de pais e filhos e a de uma família preparando a árvore de Natal. Um registro de época, enfim, do clima natalino, mas também, mais do que isso, da consolidação de Montréal como grande métropole canadense.
Mécanique e Les Désouvres
Respectivamente curta e média metragem dirigidos por René Bail, o segundo apenas restaurado posteriormente pelo ONF/NFB, mostra uma bem-vinda tendência mais experimental do cinema quebequense. O curta Mécanique, por exemplo, explora ângulos inusitados de dentro e de fora de uma escavadeira e sua ação sobre a terra, a estrada, pedras de brita. Como sugere o título, tais máquinas é que parecem mesmo ser o personagem principal não só do filme, mas também agora de uma nova realidade da paysannerie, do Quebec rural.
Les Désouvres é um filme bem interessante, produzido pela obscura Monarque Productions, com um impressionante tratamento da imagem em preto-e-branco e do som para os padrões da época. A câmera está absolutamente solta e explora travellings bucólicos da natureza até que um tiro irrompe a cena. Entramos numa fazenda onde começam os diálogos até que finalmente encontramos nossos personagens, um trio de jovens que, vestidos à James Dean, saem rebeldes sem causa numa espécie de road-movie rural e aprontam nas imediações, incluindo a entrada em uma casa abandonada e, nela, uma quebradeira geral. Curiosa dessacralização do espaço do campo e das maisons rurais nesta espécie de prenúncio das mudanças já em gestão no campo político, econômico e, claro, cinematográfico do Quebec. Mas em todo o filme há uma preocupação menor com a narrativa do que com as possibilidades oferecidas de captação de luz e som em ambientes internos e, especialmente no cair da tarde e à noite. Há uma pigmentação granulada que em muito se aproxima de algumas soluções posteriores do vídeo.
Assim, enquanto a linha ficcional do cinema quebequense se dividia em algo mais suave, melodramático e católico do lado francófono (tendo como bons exemplos Le Père Chopin, Le Gros Bill e Le Curé de Village) e em algo mais noir, urbano e laico do lado anglófono (The Whispering City e Butler´s Night Off), o documentário, graças a ONF/NFB caminhava para a consagração do cinema direto. Em meio a tudo isso e caminhando da narrativa para a experimentação, os bons L´Homme Aux Oiseaux, La Dame Aux Camelies (La Vraie) e Les Désouvres compõem uma bela, rara e curiosa contraposição imagética ao tipo de cinema até então apresentado.
Textos citados
BONNEVILLE, Léo. Rencontre avec Gratien Gélinas. Revista Séquences, janvier 1982, n. 107, p. 4-8.
Livros citados
COULOUMBE, Michel e JEAN, Marcel. Le Dictionnaire du Cinéma Québécois. Montréal: Boreal, 1999.
Filmes citados
La dame aux Camelias (La Vraie) (idem, 1942/dirigido por Gratién Gélinas)
Fridolinons (idem, 1945/Roger Blais)
Le Père Chopin/L`Oncle du Canada (idem, 1945/Fyodor Otsep)
Cero en Conducta (idem, 1945/Fyodor Otsep)
Metropole/Montréal by night (idem, 1947/Jean Palardy)
Whispering City (idem, 1947/Fyodor Otsep)
Le Curé de Village (idem, 1949/Paul Gury)
Butler´s Night off (idem, 1950/Roger Racine)
Les Lumières de ma Ville (idem, 1950/Jean-Yves Bigras)
La Petit Aurore, l´enfant martyre (idem, 1951/Jean-Yves Bigras)
L´Homme aux Oiseaux/The Bird Fancier (idem, 1952/Jean Palardy e Bernard Devlin)
Tit-Coq (idem, 1953/René Delacroix e Gratien Gélinas)
Le Cocher (idem, 1953/Roger Blais)
Pour L´amour de nos enfants (idem, 1957/Jean Palardy)
Mécanique (idem, 1957/René Bail)
Les Brûlés (idem, 1959/Bernard Devlin)
Les Désoeuvrés (idem, 1959/René Bail)
Il Était une Guerre (idem, 1959/Louis Portugais)
Les 90 jours (idem, 1959/Louis Portugais)
Days before Christmas/Bientôt Noel (idem, 1959/George Dufaux, Terence MaCartney-Filgate, Stanley Jackson, Wolf Koenig)
Agnes de Deus (Agnes of God/Norman Jewison, 1985)







