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por Nísio Teixeira
House, M.D. – o policial volta ao jaleco
O bom filho à casa torna. No caso, literalmente, já que estamos falando de Gregory House e da série que carrega o sobrenome do médico. Mas, mais que isso, inclui Dr. House na galeria dos detetives clássicos e devolve ao mistério policial um de seus ingredientes de origem: a semiologia médica. Em especial, claro, falamos aqui de Sherlock Holmes e daqueles que influenciaram o médico Arthur Conan Doyle a conceber o memorável detetive: Edgar Allan Poe e Joseph Bell.
É inspirado nesta turma que David Shore, por sua vez, criou esta intrigante série, campeã de audiência no Brasil e no exterior, que, bastaram as duas primeiras temporadas (está na quarta, atualmente) para colocá-la entre diversas listas de “As 10 melhores de todos os tempos” e dar, consecutiva e duplamente, o Globo de Ouro e o Emmy de Melhor Ator ao personagem central, interpretado por Hugh Laurie – numa simbiose tão impressionante como as recentes David Duchovny/Fox Mulder (Arquivo X) e Sarah Jessica Parker/Carrie Fisher (Sex and the City): não há como imaginar o ator fora do papel. (A prática, muitas vezes diagnosticada como typecasting, já foi problema para vários atores, tendo como caso clássico o de George Reeves, que interpretou o Super-Homem na série antiga de TV e, não conseguindo se desvincular da imagem do super-herói, teria se matado por isso. Suposição, aliás, trabalhada no interessante longa Hollywoodland, de Alan Coutler – por sua vez
diretor de vários episódios de Arquivo X, Sex and The City e Law & Order).
Dr. Bell / Mr. Dupin
Mas voltando ao nosso paciente histórico, sabemos que muito do que se tornou a narrativa policial clássica já estava contido mesmo naqueles três contos iniciais e primorosos de Edgar Allan Poe, que inauguram as histórias de detetive com Auguste Dupin e seus Crimes da Rua Morgue, O Mistério de Marie Roget e A Carta Roubada. O trabalho do detetive é requisitado até mesmo pela polícia, devido à genial capacidade dedutiva de Dupin, embora não esconda certa presunção, preguiça e um comportamento arredio do mundo (cujo único elemento de ligação é, no máximo, um amigo fiel – o qual, no caso de Poe, assume a própria função do narrador, do qual nunca sabemos o nome). Mas isso quando não está “em ação” contra o crime. O personagem de Poe foi por demais inspirador a Arthur Conan Doyle. O então jovem médico, inspirado pelas histórias de Dupin, começa a escrever suas próprias histórias de crime e mistério recolocando em cena, agora, o detetive infalível - Sherlock Holmes - e o seu fiel amigo – Watson.
Mas sabe-se também que a outra vertente inspiradora de Doyle para a criação do detetive foi retirada da vida real, ou melhor, de um hospital Real: o de Edimburgo, onde o criador de Holmes estudava, estagiava e admirava o poder de diagnóstico de Joseph Bell, médico do hospital e cuja capacidade de dedução ia além da doença: incluía detalhes sobre a ocupação e o caráter do paciente. “O magistral detetive de Poe, Chevalier Dupin, foi um dos meus heróis desde os tempos de garoto. Poderia ser capaz, porém, de acrescentar-lhes algo de meu? Pensei em meu antigo professor, Joe Bell, em sua fisionomia de águia, em seus modos curiosos, em suas misteriosas artimanhas repletas de detalhes excitantes. Se ele fosse um detetive, certamente converteria esse negócio fascinante, mas desordenado em algo próximo de uma ciência exata”, escreveu Doyle certa vez ao comentar a criação de seu livro Um Estudo em Vermelho - um dos mais famosos de Holmes. Não que Bell fosse infalível, mas sua conduta era tida como impressionante. Bell defendia que seus alunos médicos se familiarizassem com as características de uma doença ou ferimento da mesma forma como eram capazes de distinguir um amigo em meio à multidão. Fã dos detalhes, não escondia que “a importância do infinitamente pequeno é incalculável”.
É de novo o próprio Doyle quem conta um diagnóstico de Bell a um paciente civil:
- Bem, meu homem, você esteve no Exército.
- Sim, senhor.
- Não faz muito que deu baixa.
- Não senhor.
- Um regimento nas montanhas?
- Sim, senhor.
- Sargento?
- Sim, senhor.
- Aquartelado em Barbados?
- Sim, senhor.
- Vejam senhores, explicaria Bell aos alunos, o homem aparentava ser uma pessoa de respeito e, no entanto, não tirara o chapéu. Eles não o fazem, no Exército, e, por outro lado, ele teria aprendido modos civis se tivesse dado baixa há muito tempo. Ele possuía um ar de autoridade e trata-se, obviamente, de um escocês. Quanto a Barbados, sua enfermidade é elefantíase, que é das Índias Ocidentais e não britânicas.
“Não é de admirar que após o estudo de tal caráter”, segue Doyle, “eu tenha usado e amplificado seus métodos quando, mais tarde, tentei construir um detetive científico que resolvesse casos por seus próprios méritos e não por, e apesar dos, desatinos do criminoso”
Holmes/House: tá tudo em casa
Atuantes em um hospital de Nova Jérsei, a equipe de House inclui George Foreman (interpretado por Omar Epps), Robert Chase (Jesse Spencer) e Allison Cameron (Jennifer Morrison). Mas ainda participam das tramas a diretora-geral, Lisa Cuddy (Lisa Edelstein), o oncologista, mas também o fiel amigo de House, o doutor (de sobrenome elementar – ou familiar – meus caros) James Wilson (Robert Sean Leonard). Num texto bem interessante sobre House - Os Coxos também dançam -, o colunista João Pereira Coutinho assume sua preguiça e seu caráter arredio do mundo ao se trancar em casa para poder ficar próximo de seu fiel amigo, o médico Gregory House e assistir, de uma tacada só, a vários episódios. Coutinho, em seguida, aponta para as semelhanças de House e Holmes, seja no uso da bengala (House é coxo), seja no vício (vicodin para House, cocaína para Holmes – aliás, aproveitando o parêntese, poucas vezes tratada nas adaptações do famoso detetive ao cinema, salvo, por exemplo, A Vida Íntima de Sherlock Holmes, de Billy Wilder).
Semelhanças, claro, que não páram por aí: o apreço pela música (Holmes ama o violino, House o piano e tenta a guitarra); deleite pop (Holmes com os tablóides, House com as novelas e videogames), o qual, por sua vez, também evidencia a preguiça e o isolamento dos personagens – sem falar, ainda, na arrogância que, no caso de House, beira o insuportável. Sites da internet garantem até que o número da casa de House é 221B – o mesmo de Sherlock Holmes em sua Baker Street.
Mas, com Dr. House, David Shore parece mesmo pagar um tributo mais ao lado Dr. Bell do que a Mr. Dupin: afinal, a doença é o criminoso. Uma idéia bem mais interessante do que o inverso, pregado por certa sociologia orgânica – e por algumas séries e filmes - que vê o crime como uma doença no organismo social. Explicação de Coutinho: em boa parte da Europa e América do Norte, pode-se passar uma vida sem conhecer um crime, um roubo ou homicídio. O que ocorria na Inglaterra vitoriana de Doyle é, hoje, mais comum nos bolsões de miséria do Terceiro Mundo. Sobrou, então, como vilão, a doença – e até, diríamos, mais raramente, as doenças de Terceiro Mundo...
Se, como vimos, para Holmes, a fórmula era que, a despeito do criminoso, o crime pode ser decifrado por deduções racionais, para House, a doença também pode ser diagnosticada, apesar do doente. House evita os pacientes (“todos eles mentem”) e prefere recorrer aos recursos humanos e científicos de que dispõe. O problema, diabos, é que ele tem que acabar descobrindo onde o paciente está “mentindo” para chegar a um diagnóstico verdadeiro. Por esse grande sacrifício é que House prefere submeter sua equipe aos casos mais complicados e foge da clínica geral – na maioria das vezes, para ele, apenas um reduto de hipocondríacos mal informados.
Boa parte da primeira e segunda temporadas da série se estrutura dessa forma: o fato propulsor da trama tem início fora do ambiente de ação dos personagens, para, em seguida ser submetido a eles (leia-se: após a vinheta de apresentação e o primeiro bloco comercial. Receita conhecida em várias séries como Law & Order e Arquivo X, por exemplo). Entremeando o diagnóstico complicado que dá a linha chefe do episódio, temos as situações de clínica, muitas hilárias: em uma delas o sujeito reclama da dormência em uma das mãos. Observando o paciente, House simplesmente pede para que ele desaperte o relógio. Outro reclama da dormência no braço. “Você, por acaso, não anda dormindo em cima dele?”, pergunta House. “É, doutor, mas é o único jeito que eu acho de dormir”. “Bom, então você terá de parar com isso”. “Ah, não. Não tem outro jeito? Só durmo assim”. “Claro”, diz House tirando um formulário da gaveta. “Basta preencher isso pra mim”. “Mas isso é uma autorização para cirurgia! Amputação de membro do corpo!”. “É, você não me deixa outra escolha”, debocha House ante um zangado cliente. E, o que seria para ser uma simples série de polícia médica, transforma-se também em veículo para um humor fino e corrosivo, anti-politicamente correto ao extremo, como poucas vezes se vê na TV.
Boa parte da equipe de House oscila ante o irremediável comportamento do médico. Foreman é um neurologista experiente e um típico self made man: deixou o passado das ruas e até mesmo de alguns pequenos crimes para apostar numa bem-sucedida carreira médica e com temperamento mais arredio e próximo de House. Cameron é o lado “Madre Teresa” da turma, querendo fazer com que House se humanize ao se aproximar e se comover com a história dos pacientes. Chase é ex-seminarista, o britânico indiferente, que oscila entre os dois campos em questão, razão e fé. “Britânico, não, australiano”, corrigiu certa vez, diante de uma provocação de House. “Vocês colocam a rainha em suas moedas, então ainda são britânicos”, responde o médico.
Mede forças e argumentos com Cuddy, na mesma proporção em que Wilson (cujo consultório traz pôsteres de A Marca da Maldade e Um Corpo que Cai) tenta funcionar como seu lado B, ou seja, lado Bom. O detalhe é que House não cede a ninguém – a não ser para o espectador. Aqui os roteiristas –David Shore à frente de todos, com outras colaborações como Lawrence Kaplow e Thomas L. Moran – cuidam daquela estratégia clássica, agora não mais do romance, mas do filme policial e, em especial (e aí não necessariamente policial) da solução bogartiana, que consiste em mostrar que o sujeito é duro e implacável com todos no filme, mas, somente ao espectador, deixa pistas de bom coração. (E à mente agora me vem a seqüência da roleta em Casablanca, quando Rick nega empréstimo para que um pobre casal de fugitivos possa pagar sua viagem aos EUA, mas, em seguida, deturpa a roleta para que eles, sem saber, obtenham o dinheiro solicitado).
Claro que, em meio a tudo isso, há as cenas invasivas de cirurgias, entubações e outras sanguinolências, mas não chega perto, por exemplo, do mau gosto e do exagero de algumas temporadas da série E.R. Mas, às vezes cai num desnecessário artificialismo de querer mostrar, via animação, anticorpos e bactérias em luta interna no organismo, como se fossem um infográfico do diagnóstico dito em off. Detalhes são importantes, diria Bell – mas talvez nem tanto.
Quando a temporada se aproxima de seu final, como esse texto, aparece em cena um personagem externo à equipe para desafiar House à altura. Na primeira temporada, foi um dos provedores do hospital, Edward Vogler (Chi McBride) que tentou demiti-lo e, em outra, um policial, Michael Tritter (David Morse), que tentou incriminá-lo pelo uso do vicodin (depois que, numa sessão clínica, House quebrou-lhe um termômetro dentro... bem, não foi dentro da boca). Tudo em vão: apesar de alguns efeitos colaterais, a sagacidade e o humor mordaz de House, ele continua bem-vindo ao pequeno e seleto grupo dos detetives e dos bons programas de televisão.
Em tempo: os trechos de Doyle e Bell foram retirados do livro O Signo de Três.
E Dr. House não tem paciência para ficar usando
jalecos.
Livros citados:
ECO, Umberto e SEBEOK, Thomas. O Signo de Três: Dupin, Holmes, Peirce. São Paulo: Perspectiva, 1983.
Filmes citados:
A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958/direção de Orson Welles)
Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958/direção de Alfred Hitchcock)
A Vida Íntima de Sherlock Holmes (The Private Life of Sherlock Holmes, 1970/direção de Billy Wilder)
Hollywoodland (idem, 2006/Alan Coutler)
Telesséries citadas:
Law & Order (idem, desde 1990/criado por Dick Wolf, vários diretores)
E.R. (idem, desde 1994/criado por Michael Crichton, vários diretores)
Sex and the City (idem, 1998-2004/criado por Darren Star, vários diretores)
Arquivo X (The X Files, 1993-2002/criado por Chris Carter, vários diretores)
House M.D. Primeira e Segunda Temporadas (House M.D. – 1st and 2nd seasons, 2005 e 2006/escrito e criado por David Shore, vários diretores)







