por Nísio Teixeira

Un homme et son péché – clássico do Quebec revisitado

Há cerca três anos, quando começamos nossa saga pelo cinema do Quebec, já havíamos adiantado aqui  como, diante do cenário instável gerado pela II Guerra, a Québec Productions foi criada a partir de um desejo de Paul L´Anglais e Rene Germain de filmarem uma história chamada Rendez-Vous au Château Frontenac, a ser dirigida pelo mesmo realizador de Le Père Chopin, o russo Fyodor Ozep. Com a compra de estúdios na região de Saint-Hyacinthe, no Quebec, em 1946, as filmagens começam, mas com um novo título ao filme: o bilíngüe e noir La Fortresse/The Whispering City, lançado ano seguinte.  

Produção cara aos padrões da época (cerca de US$ 1 milhão), a idéia de conquistar o mercado externo, dizem os críticos Michel Coloumbe e Marcel Jean, foi trocada pelo foco no mercado interno. E foi assim que a QP investiu em dois sucessos da radionovela quebequense, todos dirigidos por Paul Gury: Un Homme et son Peché, Le Curé de Village e a continuação Un Homme et son Peché: Séraphin, todos com êxito local. Talvez por isso L´Anglais tenta novamente o mercado internacional e produz Son Copain, que não emplaca. Em maio de 1951, L´Anglais sai da QP e Germain, com o apoio de DeSève produz Le Rossignol et le Cloches, o derradeiro título da QP que também encerra atividades em 1951.

Na ocasião em que abordava as produções da QP não encontrei a oportunidade para assistir ao célebre drama Un Homme et son Peché, bem como a continuação Un Homme et son Peché: Séraphin, inspirados em uma novela de sucesso de mesmo nome no Quebec, escrita em 1933 por Claude-Henri Grignon. O sucesso do livro se confirmou em sua versão para o rádio, adaptada em 1939, seguida pelas duas produções dirigidas por Cury, também por uma série televisiva nos anos 1950 até ser novamente revisitado, em 2002, pelo cineasta Charles Binamé nesta superprodução vencedora de seis prêmios Jutra, o principal do cinema do Quebec, que honra o diretor Claude Jutra, nas categorias, por exemplo, de melhor atriz (Karine Vanasse) e melhor ator (Pierre Lebeau). 

Em que pese a força da premiação, é curioso ver o século 21 no Quebec premiando um filme que remonta às suas raízes mais rurais e católicas,  pois o longa reúne a trajetória de Séraphin (Lebeau), um avarento e repugnante manda-chuva de uma cidadezinha em expansão nos gélidos rincões da Quebec na passagem do século XIX para o XX. Como se não bastasse, usa de seu poder para convencer a jovem Donalda  (Vanasse) a se casar com ele, ao invés de esperar pelo noivo Aléxis (Roy Dupuis), que tenta a vida nos entrepostos de colonização, para comprar sua própria terra na região. Tudo piora quando Alexis faz um empréstimo para honrar os compromissos, mas Séraphin usa de sua influência para impedi-lo de atingir seu intento e, ante a tentativa de suicídio do pai de Donalda, também endividado, reúne forças para convencê-la a ser casar com ele, o próprio ogro avarento – que, ao final, obviamente, terá a sua punição. 

Como se vê – e como discutimos em nossos especiais iniciais sobre o Quebec – trata-se de um drama bem ao gosto da era “medieval” do Quebec, em que ruralismo e catolicismo eram valores centrais e caros ao governo de Duplessis, principal chefe da província no período pré-Revolução Tranqüila (1920-1960). Não é por acaso que um dos principais críticos do Quebec, Yves Lever, vê no filme uma metáfora perfeita para esse período do Quebec, em que resignação e sacrifícios – como a da personagem Donalda e demais habitantes – eram comuns a uma força política poderosa.

Salvo essa curiosidade histórica de reconstituir e retomar uma narrativa que foi abolida pela própria evolução da província, e pela reunião dos elementos mais caros ao melodrama, o filme não traz nenhum outro mérito, que não a primorosa reconstituição do período, a atuação dos protagonistas e uma ou outra sequência, como o encontro de Séraphin e Alexis para um possível ajuste de contas, em uma luz azul noturna memorável e o enquadramento que Donalda faz de sua própria situação, confrontando os quadros de sua felicidade possível, ao lado de Alexis (primaveril, iluminada) com o de seu infortúnio ao lado de Séraphin (invernal, obscura).

 

Filmes citados

 

Le Père Chopin/L`Oncle du Canada (idem, 1945/Fyodor Otsep)

Whispering City (idem, 1947/Fyodor Otsep)

Le Curé de Village (idem, 1949/Paul Gury)

Un Homme et son Peché (idem, 1949/Paul Gury)

Un Homme et son Peché: Séraphin (idem, 1950/Paul Gury)

Les Lumières de ma Ville (idem, 1950/Jean-Yves Bigras)

Le Rossignol et les Cloches (idem, 1952/René Delacroix)

Un Homme et son Peché (idem, 2002/Charles Binamé)

 

Livros citados

 

COULOUMBE, Michel e JEAN, Marcel. Le Dictionnaire du Cinéma Québécois. Montréal: Boreal, 1999.

LEVER, Yves. Les 100 films québécois qu’il faut voir. Quebec: Nuit Blanche Éditeur, 1995