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por João Toledo
Sessão de Médias: "Na Trilha do Bonde", Virgínia Flores, Rodolfo Caesar e Alexandre Fenerich e "Variante", de Pietro Picolomini e Ester Fer
Na Trilha do Bonde por João Toledo Na Trilha do Bonde se revela inicialmente um registro documental de época; são imagens do centro urbano do Rio de Janeiro da década de 40, onde a câmera está sempre a seguir seus bondes por todas as ruas. A construção, no entanto, se dá sobre a imagem, no âmbito do áudio, onde todo um desenho de som é criado para sonorizar essas imagens de arquivo e dar vida ao período a partir de sua sonoridade típica. Nessa intervenção sonora (e às vezes visual, com colorização parcial ou integral de cenas), chama-se a atenção para alguns detalhes que poderiam passar desapercebidos no fluxo das imagens mudas. No entanto, esses detalhes não chegam a constituir uma narrativa. Somos levados, guiados por ruas e pela beleza dos espaços que se revelam em novas esquinas, e nada mais. O tom nostálgico impera, acentuado pela limpidez do áudio recriado, que ajuda a manter a imagem em um âmbito da idealização desse passado. Ser levado por esse espaço não é desagradável, mas esse tipo de intervenção também não tem nada de novo. Parada, curta-metragem russo de 2000 já fazia isso com mais desenvoltura, extraindo das imagens, através do som recriado, grande potência. Há no filme um momento no qual um túnel serve de ponte para um outro tempo, e utiliza-se o ruído de uma película desgastada para criar esse intervalo. Ao final, chegamos ao centro urbano mais desenvolvido na década de 60, onde ônibus e automóveis poluidores tomam as ruas e substituem os bondes e todo o ritmo que imprimiam aos espaços por onde circulavam. Algo se perde, ao que parece, uma certa inocência; o filme cria essa dicotomia e a explora com um certo rancor, como se quisesse de volta aquele tempo perdido. A ironia é que o filme mantém viva aquela poesia, assim como a mantém, por exemplo, a literatura de Machado de Assis, sem que sua beleza necessite de contraste com outro tempo para se evidenciar. Variante por João Toledo Variante se alinha a uma linha documental muito particular, onde o objeto é a própria imagem da coletividade, e não um dado na imagem ou uma história, moral ou conceito a partir dela. Não há personagem que não represente todos os personagens, e não há voz a guiar nosso olhar para o universo abordado. Toda a pluralidade de imagens e sons constrói uma espécie de sinfonia da cidade, ou dessa cidade de São Paulo(dentro das várias possíveis dentro de uma única) sobre a qual o filme escolhe deitar seu olhar. Há um cuidado enorme na concatenação de todos os sons, que se equilibra entre o realista e o expressionista. Valoriza todos os sons sem operar neles uma transfiguração que mascare sua nuance de melancolia. Se há algo no filme que o diferencia de todas as famosas sinfonias dedicadas a cidades desde aquelas promovidas por vanguardas diversas na década de 20, na Alemanha e Rússia especialmente, é seu olhar pouco afeito a exaltação e a elogios. Não se busca enquadrar o belo em meio ao sujo. O filme permite à realidade abordada sua própria sinfonia, sem lhe impor uma composição própria, e sem nunca deixar de expor o que existe de triste, feio ou contraditório ali, buscando o homem em meio à informação moderna, às máquinas, a uma lógica de mundo que lhes é imposta, que lhes permite sobreviver, mas que em alguns momentos – a partir da liberdade interpretativa que o filme nos outorga – ganha um tom bastante triste. Tanto no plano da escada rolante que segue rolando mesmo após a passagem de todos os transeuntes, quanto no plano final, no qual a câmera observa a chegada do metrô na estação completamente vazio (em dialogo com a famosa imagem dos Lumière), o que se percebe é que a lógica desses mecanismos não existe para o homem, mas apesar dele, impondo uma lógica mecânica ao mundo, obrigando-nos a adequar a esse sistema e obedecer ao seu ritmo. Há uma espécie de revisionismo do elogio irrestrito do ritmo da modernidade que víamos em Vertov, que aqui recupera o fôlego dos planos mais longos dos filmes dos irmãos Lumière, e, assim como eles, permite que a realidade em quadro construa, ela própria, sua voz, sua sinfonia. Filmes Citados: *Visto no 5º CineOP Filmes Citados: Na Trilha do Bonde (Idem, 2009/Virgínia Flores, Rodolfo Caesar e Alexandre Fenerich) Parada (The Halt, 2000/Sergei Losnitza) Variante (Idem, 2010/Pietro Picolomini e Ester Fer)







