por João Toledo

Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil

por João Toledo

Uma Noite em 67, da dupla Renato Terra e Ricardo Calil, se constrói completamente em torno do famoso festival de música promovido pela Rede Record, involuntariamente responsável por mudar os rumos da música popular brasileira. No filme não há tangentes, contextualizações, discurso político implícito ou explícito, não angariam-se especialistas e teóricos para discursar sob diferentes vieses acerca da importância política social ou cultural do acontecimento, não se mitifica nada nem ninguém, nem se busca desconstruir paradigmas numa visão revisionista do momento.

 Parte-se de um princípio muito simples e essencial: não se necessitam teorias, nem exaltação, não é necessário descrever nada ou envelopar o evento em uma superfície de comoção fácil. A imagem é evidência, e descreve a si mesma. Opera, ela própria, o poder de fascínio e encantamento necessário para a potência de um filme que a aborda. Para quê camadas e hipertextos quando se tem um canal direto, objetivo. O grande poder do filme é justamente dar voz a esse momento e a seus protagonistas, sem querer operar sobre ele comentários diversos, usá-lo apenas como ponto de partida para outros objetivos, tornando o evento um meio ao invés de um fim.

Renato Terra e Ricardo Calil têm a lucidez de permitir a esse momento um grau de autonomia tal que faz com que cada momento supere seu caráter de lenda e ganhe dimensões humanas, ainda que permaneça sempre a aura da espetacular constelação de gênios da música em alguns de seus momentos mais expressivos, embrionários de transformações culturais significativas. O mais interessante, no entanto, na divisão brutalmente simples que o filme faz entre as imagens da Record e as entrevistas atuais com os protagonistas daquela noite, é uma visão muito objetiva do momento, sem qualquer glorificação ou nostalgia. E essa voz dos personagens, em completa sintonia com a voz do filme, nos aponta novamente para o âmbito real de importância dessas figuras; a arte, a música. A força está ali, naquelas composições, no calor daquele momento, sob vaia, sob ditadura, sob o peso da realidade, mas ainda impulsionados por um vigor que não se sabe de onde vem, que se transforma no momento em que se toca uma primeira nota, e que o palco de um teatro se torna palco da história da música e do Brasil:.

Qual é a relevância de mensurar a importância de uma experiência quando sua própria voz dá a dimensão total de sua potência, sem que para isso sejam necessárias equações, teorias e explicações? O filme, justo e maravilhoso, apenas devolve a voz às suas legítimas donas, as canções. A arte triunfa.

*Visto no 5º CineOP

 

Filmes Citados:

Uma Noite em 67 (Idem, 2010/Renato Terra e Ricardo Calil)