por João Toledo

Um Homem Sério: sinfonia do imponderável

Ninguém questiona a obra dos irmãos Coen quando se trata do estrondoso conhecimento de causa no que diz respeito à estruturação de uma narrativa eficiente, ou ao domínio técnico absoluto, aplicado ao desenvolvimento cênico. Reviravoltas e virtuose: como sempre, o talento de alguns é diminuído em face de pressupostas contradições; valores são ajustados em virtude de um jogo retórico da crítica. O excesso de precisão (preciosismo?) formal dos Coen anularia a força expressiva dos filmes por aprisionar seus personagens em um universo de rigidez excessivamente consciente e auto-importante na exuberância de seu estilo. Isso tornaria o sujeito em quadro um escravo dos caprichos sádicos de seus criadores, mera informação visual que serve ao propósito único de ser vítima de uma sucessão de situações onde incorpora determinado grupo social a ser ironizado e ridicularizado. O cinema para os irmãos, seguindo este raciocínio, seria ferramenta de expurgo crítico; não necessariamente destinado a teses, mas onde toda a criatividade estaria voltada para a criação de um espaço de comentário – às custas dos personagens, sujeitos de experimentos behavioristas cruéis. O rigor e as desventuras – nessa visão – refletiriam respectivamente a obsessão e a crueldade da dupla de diretores superiores.

 

Esse pensamento é de um atraso monumental. Há uma justa medida para o sofrimento de personagens, ou uma equação moral que que torne justificável a imposição da dor? Talvez seja necessário um recuo aqui, uma nova perspectiva. Descolemo-nos da dor protagonista e observemos o mundo que ele transita. O sofrimento não parece surgir como castigo divino, não é imposto por grandes corporações ou resultado de má gestão governamental, não é o destino dos homens comuns tampouco é a consequência de atos nefastos: é um dado, não uma questão. E, no entanto, é sempre posto como questão – e nunca respondido. Talvez Um Homem Sério seja, por excelência, ao lado de Onde os Fracos Não Têm Vez, o filme no qual se faz notar a presença da ausência de sentidos. Não há qualquer razão externa para os acontecimentos que angustiam o protagonista. Eles são, sim, elaborados pela instância criadora, e nesse sentido impostos aos personagens, mas a intenção é de diluí-los na ausência de causalidade que impregna a narrativa – mimetizando o que seria, para estes mesmos criadores, uma espécie de lógica orgânica da natureza humana.

 

Há duas forças que norteiam o projeto de cinema da dupla americana: em primeiro lugar, uma perspectiva realista da vida, uma visão de mundo bastante cínica e desinteressada em transformar a realidade, romantizá-la ou idealizá-la, mas uma visão certamente inspiradora, e passível de nos ensejar um olhar crítico para a realidade. Em segundo lugar, um interesse agudo pela engenharia expressiva do cinema, as possibilidades do jogo com os gêneros e a partir deles. O gênero e a narrativa são os meios, o suporte apenas – a imagem é sempre destino. Já o que habita a imagem é o homem e o seu mundo, talvez não exatamente como nós o vemos. Trata-se, a despeito do que se diz, de um mundo próprio do personagem, um mundo cuja percepção depende do olhar do protagonista – estamos, não distanciados ou superiores, mas ajustados à perspectiva peculiar do sujeito em cena. Toda a loucura se incorpora à diegese. Somos sujeitados sempre ao sonho, à piração, ao delírio, ao absurdo; à distorção de percepção do mundo própria daquele olhar.

 

No espaço cênico, as leis da física podem ser distorcidas, movimentos podem desafiar a lógica, o tempo pode adquirir uma pulsação diferente, um homem pode ser uma caricatura, e uma caricatura pode se tornar um homem, tudo em nome de uma afinação total entre a realidade e a quimera – basta, então, tornar visível a invenção. Não há nunca um problema de verossimilhança. Há, por outro lado, um problema de crença. Porque, a princípio, parece haver pouco espaço para uma autonomia do espectador dentro da rigidez que organiza a narrativa, mas é preciso se entregar à guia para se perceber perdido. Afinal, todo o rigor parece estar muito menos ligado à idéia de fechar, responder, concluir, que à vontade de desorganizar, desestruturar, questionar.

 

What’s going on?

 

Em meio à onda de acontecimentos terríveis que fazem da vida de Larry Gopnik um inferno em Um Homem Sério, ele parece estar sempre perdido, estupefato com o destino desgovernado de todas as situações com as quais se depara, dotado sempre de informações lacunares que não lhe permitem chegar à origem de qualquer problema. Sua pergunta usual (o que está acontecendo?) raramente ganha uma resposta. Sua perspectiva é matemática, física; para cada efeito, uma causa, para cada reação, uma ação, para cada consequência, um ato. E, no entanto, as reações aportam sem remetente. Uma cena quase nunca antevê a outra.

 

Toda a montagem, no magnetismo entre imagens que não pertencem a um mesmo âmbito lógico, contribui para o estado de confusão do filme, e nos coloca ao lado do protagonista, entoando o mesmo refrão de dúvida. Seja a partir da fábula inicial, que não se resolve nem nos leva logicamente a um entendimento mais imediato da história de Larry, seja na primeira cena do filme, em que o fone no ouvido do garoto não o leva à surdez na vida adulta como a montagem parece sugerir, seja na cena em que acompanhamos a ação paralela de dois carros e esperamos uma batida entre eles que nunca se concretiza. Há também a ida do irmão para o canadá, que em sua tragédia absurda se revela um pesadelo; o momento entorpecido, o qual a intenção da imagem de se aproximar do efeito da droga abarca uma distorção que não podemos mensurar em termos de perda de sentidos; ou a história do dentista que o filme tangencia como que em busca de alguma resposta, e que se traduz apenas em mais mistério.

 

A atração entre as imagens se utiliza de nossa percepção viciada, cria armadilhas, nos mostra o quanto uma imagem é frágil enquanto representação objetiva; não é possível diagnosticar o mundo com estes dados. Se posicionar é sempre uma atitude precipitada diante de tantas ranhuras na superfície. Nos resta seguir a narrativa, esta que insinua uma história no falso rastro de consequências, nos levando entre um e outro momentos rumo ao fim, que é, no fundo, o anti-fim, a anti-resolução; a implosão da razão e da consequência em face do incontornável peso do imponderável. E todo esse tempo nos sentindo guiados, descobrimos que estava o vazio a nos guiar; que não há nada por trás e nada além. Não há solução metafísica para o mundo – ou melhor, não há solução filosófica que não esteja representada em forma de pergunta em qualquer refrão de uma canção distópica de rock. Pois a solução é a questão que nos move. Não há respostas. Há o mundo, o homem, ou o palco e o personagem, e a vida é a dialética, cruel ou venturosa.

 

We can’t ever really know what's going on.

 

Juntar as peças, em um filme dos irmãos Coen, é descontruir o mundo, despedaçá-lo, notá-lo em sua irracionalidade, em sua incompreensibilidade; perceber o conjunto é desmontar a percepção de unidade. O caos é uma orquestra atonal, e sua regência é uma ilusão. Temos como pano de fundo em Um Homem Sério um momento de transição cultural, ou de um choque mais incisivo, em que certos valores tradicionais perdem o sentido e se encontram em estado de flutuação. Larry ainda vive plenamente sob esse código e se vê perdido entre a lógica matemática, a fé e natureza irracional da vida, em descompasso com suas duas crenças fundamentais. Se Deus testou a fé e a integridade de Jó, lhe impondo como desafio a severa perda de tudo quanto possuía, os Coen também testam os limites de seu protagonista– só que não se trata de uma provação que culminará em solução a partir de um ato de fé ou de pecado. Trata-se de uma visão revisionista do Livro de Jó, sob uma perspectiva humana, regida pelo acaso, sem respostas, triste e maravilhosa em sua corrupção, em sua adoção do errático como vereda incontornável.

 

A obra de Joel e Ethan pode ser dividida em duas categorias básicas: filmes os quais a trajetória errática de um homem leva a uma série de eventos absurdos: Fargo, Arizona Nunca Mais, O Amor Custa Caro, Matadores de Velhinhas, Queime Depois de Ler. E filmes em que desventuras sem fim assolam um homem comum sem qualquer explicação racional: O Grande Lebowski, Na Roda da Fortuna, Onde os Fracos Não Têm Vez, Um Homem Sério. Trata-se, nem de uma progressão na carreira, nem de um olhar dicotômico para a realidade, mas de um interesse de abordagem apenas. Está no seio de ambos a irracionalidade da sequência de descaminhos. E parece haver sempre uma instância do poder a se responsabilizar: Em Na Roda da Fortuna são as grandes corporações; em Queime Depois de Ler, o governo; em O Grande Lebowski, os poderosos; em Barton Fink, os grades estúdios; em Um Homem Sério, deus; Em Onde os Fracos Não Têm Vez, o monstro que habita o homem. Trata-se sempre de uma culpabilização vazia, de uma necessidade de atribuir a algo a responsabilidade por uma incontrolável força sem razão.

 

Trata-se de um filme de distopia, este último, como quase sempre na obra dos irmãos. Mas adiciona um dado novo em relação a Onde os Fracos Não Têm Vez, cuja falta de sentido em tudo se traduzia apenas em amargura. Em Um Homem Sério há, de certa forma, uma celebração do ilógico – o filme aponta um caminho. Não precisamente um caminho para os personagens, o qual qualquer solução seria de uma imposição inconveniente, mas um caminho que se delineia nos meandros mais delicados do olhar de Joel e Ethan Coen. “Aceite o mistério”, parecem nos dizer através de um personagem. Abrace o mistério como quem abraça o inevitável, como forma de compreender o que não se explica. Não se trata de se conformar, mas de harmonizar com a falta de razão, com a eminente falta de respostas. A vida, afinal, se faz de perguntas. Em meio ao absurdo, elas nos mantém lúcidos, quase sempre.

 

A rational man, a good man, a simple man, a serious man

 

Não há, na obra dos Coen, o elogio ao homem comum, aquele que perpetua os valores americanos essenciais e é por estes mesmos valores recompensado ao longo de sua trajetória – como em Forrest Gump. Não se trata, por outro lado, da negação desses valores em si, mas talvez da lógica de que há uma espécie de equilíbrio cósmico compensatório, que nos devolve de acordo com o que damos. Eles ironizam a idéia do “triunfo do homem médio” como uma categoria narrativa privilegiada pelos intelectuais em obras de responsabilidade social, nas quais a catarse os alivia da culpa – é a irônica autoimportância que governa Barton Fink. Mesmo no otimista Na Roda da Fortuna, não há o elogio do homem simples; a recompensa não se dá na lógica do destino, mas do acaso, da sorte. O triunfo do acaso, na obra dos Coen, sempre se impõe a qualquer trajetória, seja de fracasso ou de sucesso.

 

Pois em Um Homem Sério, há toda sorte de homens simples, racionais e sérios, quase todos bons, e sempre ingênuos ante a expectativa de um mundo justo. Os Coen não celebram o homem bom; o destino dele é incerto. Mas, ao longo de sua trajetória, em especial esta – talvez a mais pessoal da obra dos Coen –, nos apaixonamos por estes homens, por seus problemas. Afinal, nosso apego não está atrelado ao destino final. Está sempre fixado intimamente à trajetória, ao caminho, e ali nos permitimos rumar sem qualquer bússola moral ou estética, pois nos deixamos guiar e perder. Afinal, dentro de toda a plenitude estética dos Coen, a força maior dentro do plano não é o espaço, o picadeiro, mas o herói que nele habita, que nele resiste, em seu impulso de vida. Esse apelo humano – por mais caricato que seja às vezes – é a busca por harmonia no caos narrativo e o ruído visual na perfeição estética, é nosso interesse maior.

 

When the truth is found to be lies, and all the hope within you dies, then what?

 

Há uma sinfonia em curso, tanto em Um Homem Sério quanto na obra dos Coen de maneira geral, e a harmonia criativa jamais se desestrutura em face da gravidade dos ruídos. Nessa sinfonia estética somos levados pela melodia de cada plano como se estivéssemos a ouvir uma canção. Uma canção grandiosa, de conflitos e graça, de contemplação do absurdo, do abismo irracional da vida. De perplexidade pura diante da beleza do imponderável. O furacão sempre pode ser símbolo; mas ele é, antes de tudo e depois de tudo, evidência. Ele é uma imagem magnífica; incontrolável, incontornável. Destruição e beleza, poder e ruína. Devora tudo. É o fim e o prelúdio da vida. A essa imagem, se cola novamente o refrão da canção Somebody to Love. Os ecos da pergunta não servem mais aos personagens – seguem o espectador.

 

Filmes Citados:

Um Homem Sério (A Serious Man, 2009/Joen e Ethan Coen)

Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008/Joen e Ethan Coen)

Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, 2007/Joen e Ethan Coen)

Matadores de Velhinhas (The Ladykillers, 2004/Joen e Ethan Coen)

O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty, 2003/Joen e Ethan Coen)

E aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?, 2000/Joen e Ethan Coen)

O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998/Joen e Ethan Coen)

Fargo (Idem, 1996/Joen e Ethan Coen)

Na Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy, 1004/Joen e Ethan Coen)

Barton Fink (Idem, 1991/Joen e Ethan Coen)

Arizona Nunca Mais (Raising Arizona, 1987/Joen e Ethan Coen)

Forrest Gump (Idem, 1994/Robert Zemeckis)