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por João Toledo
Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo
Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo
por João Toledo
O desafio de se escrever sobre um filme como Corpos Celestes é o de não se deixar levar pela inércia, sob o amparo de um projeto crítico de posições prévias a respeito de determinados escolhas cinematográficas. Trata-se de um filme de armadilhas, embora não pareça objetivar de qualquer forma que o público sucumba às relações mais primárias com sua imagem. É simples pensar nele como pertencente a um espaço de ficção fácil, comum, urdido sob paradigmas de estrutura narrativa, roteiro de apresentação, desenvolvimento e conclusão, arco dramático, transformação do herói, o retorno à casa, personagens arquetípicos; tudo parece clássico, mesmo as escolhas formais de mise-en-scène, de travellings e gruas, trilha sonora marcante, tudo aponta para esse olhar que cai em um estereótipo cinematográfico que achata minúcias, buracos e estranhezas em função de uma facilidade de enquadrar o filme, de percebê-lo sob algum âmbito comum, de facilmente compreendê-lo sem precisarmos questionar nossos próprios procedimentos de aproximação das imagens.
É um filme, portanto, que nos desafia a descobri-lo, que pede um carinho especial, uma generosidade que muito poucas vezes o cinema de ficção clássico do Brasil hoje tem demandado com propriedade do espectador. Ele desafia essa rotulação logo de cara quando cria um longuíssimo momento de introdução – há um grande desapego pela idéia de precisão narrativa, de objetividade, o que interessa é a completude de uma expressão que se desvencilha de seus modelos. Trata-se – e isso se torna muito claro ao longo da projeção – de um filme anti-objetivo, de uma obra que se permite devaneios como o momento em que o taxista canta ópera, que cria momentos que não necessariamente se justificam ao longo do filme, que não se amarram.
Esse deslocamento da superfície clássica segue com a imagem que se ergue do herói, que é no fundo um errante amargurado e cuja grande vitória (seu sucesso profissional) é no fundo uma derrota amarga, um afastamento agudo de tudo o que é humano e relevante. A idéia do mentor que influi o protagonista é também uma idéia avessa, pois ele acirra a angústia do garoto, o mantém no chão, torna-o um observador distante, e não um impetuoso investigador. Há também a mulher misteriosa, impura, marcada por uma mácula ao mesmo tempo impalpável e insolúvel; seu papel parece ser o de desordenar a estrutura narrativa formal, incitar o caos, e todos os medos, inseguranças e dores guardados no passado do personagem.
Corpos Celestes desafia seu próprio classicismo, nos dá uma imagem de superfície que apenas esconde a angústia e o mal estar que regem o filme, esteriliza o peso do isolamento, do individualismo acentuado e da idéia de irrelevância e insignificância da existência da vida que marcam o personagem central. Toda essa construção visual funciona como um caminho avesso, pois traduz a falsa impressão de um estado de serenidade, de uma harmonia imediatista que não se completa, não se encaixa, é insatisfatória. Nenhum dos arquétipos se resolve; não se redimem as impurezas, nenhuma redenção é alcançada, não se desvenda o mistério da mulher, não se afastam os fantasmas do passado: a tortuosa relação com a família que resta, o filho do americano que traz à tona o peso do mentor na vida do garoto, tudo isso permanece ali, assombrando o homem que se confronta, afinal, consigo mesmo.
Trata-se de uma narrativa que desemboca em um fim essencialmente individual, sob a perspectiva de seu personagem, e que tem como principal momento de potência justamente o rompimento com a luneta, aquele símbolo que o afasta do mundo, que o torna pequeno em relação a grandezas inatingíveis. A própria onipresença das estrelas no filme, pretensa imagem de beleza e atração, opera uma opressão que sufoca o personagem diante do brilho do universo. Em um filme que dá atenção ao mínimo em detrimento de uma artificiosa eloqüência de sua macro-estrutura, faz sentido que seja resgatada, ao final, a importância de vidas tão pequenas e insignificantes como a nossa. Em um contexto de produção marcado por filmes nacionais guiados por um mal estar sem solução, o rompimento final, que encontra a galáxia no mínimo estilhaço de vidro, representa um enorme alívio – o sujeito, por menor que seja, por mais errante, mais amargurado, pode, enfim, importar.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Filmes Citados:
Corpos Celestes (Idem, 2009/Marcos Jorge, Fernando Severo)







