por João Toledo

Curtas Série 6 – Mostra Foco: Ensaio de Cinema, Manassés, Lembro-me ainda de quando comíamos pão de mel toda manhã mas hoje acordei de ressaca, Pedra Bruta, O Menino Japonês, Ressaca e Um Par

Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro

por Leonardo Amaral

Um movimento de câmera suave, delicado, por meio de um zoom, se aproximando de Bardot. É assim que se inicia o filme sonhado por Gatto Larsen, que se centra na figura do companheiro, Bardot. Enquanto narra, através de referências que começam desde Morte em Veneza, de Luchino Visconti, a Passageiro: Profissão repórter, de Michelangelo Antonioni, Gatto, através dos gestos e representações, vai construindo seu filme, seguido de perto pela câmera de Allan Ribeiro. Uma performance, um ensaio de cinema, mas, principalmente, uma construção imagética que só se dá se ali coexistem corpos e câmera. Gatto e Bardot sonharam, o cinema é, bem provável, a arte em que mais se sonha.

Allan vai à casa onde, em Santa Tereza, os dois habitam. Um cotidiano de cumplicidade, mas, acima de tudo, bastante marcado por antigos hábitos, pela simplicidade de cada momento. Gatto prepara o almoço, enquanto Bardot arruma a casa. Eles se sentam à mesa para comer, ali confidenciam  e descansam. Ensaio de cinema tem o tempo certo daquele universo cercado pela cidade, que invade o apartamento pelos sons ou pela recriação das falas dos dois personagens. Não por menos, o ensaio proposto termina na janela, o plano sequência se finda nas mãos entreabertas de Gatto Larsen, para, em seguida, continuar o movimento, ganhar a janela, abrir para um plano geral de todo o bairro carioca. Não seguimos mais Gatto, a câmera, com movimento progressivo, passa pelas mãos, por ele, para unir os dois mundos, os dois pensamentos. Ao chegar na janela e co templar o horizonte, o tal ensaio, o sonho, nesse momento passa a ser simplesmente cinema.

* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

Manassés, de Luisa Marques

 

por Leonardo Amaral

 

Manassés se inicia com uma fotografia, imagem indicial de uma presença-ausência, representação de tempo ao qual não sabemos ao certo. A canção, que se interpola à imagem é o elo entre uma relação, a de um pai e uma filha, revelada na primeira das cartelas do filme. O som e a trilha são parte substancial no curta de Luisa Marques, por tudo aquilo que, para além de sugerir sobre o rompimento, constrói em suas relações de sentido acerca de um rompimento estabelecido a partir da morte.

 

O filme é fúnebre, a cada imagem vemos a vulnerabilidade do ser. O corpo é falho, ao curta é instaurado um mistério que está muito além das imagens do corpo que é colocado e visto de dentro, em suas entranhas. Luísa filma a falibilidade em seu interior, planos esses que se chocam com outros em que uma canção é cantada em enquadramento fixo: um homem canta para uma jovem, escutamos, na íntegra, toda a música, participamos, evidentemente distanciados pela fixidez e rigidez do quadro, de um momento, um tempo que remete à memória, mas que clama também pelo presente, uma imagem que resta forte, que se choca às do coração sendo operado em uma sala cirúrgica.

 

Eis que esses planos se fundem, se tornam um só: a fusão desloca todas aquelas imagens em favor de que elas passem a ocupar um mesmo espaço, os tempos agora coabitam e terrorizam aquela relação misteriosa. A montagem estabelece toda essa conexão, ao mesmo tempo que fragmenta essa relação. Escutamos a canção Killing parents, que reflete um pensamento, uma compulsão que se alia a outra música cantada, ao violão no início. Evidências de todas as contradições e ambiguidades que acompanham Manassés, de todos os anseios, vontades e lembranças do ser humano.

 

 Talvez essa seja a palavra definitiva: lembrança. Mas uma lembrança fantasmagórica, que está sempre presente. A memória afetiva que se cruza, compulsivamente, com vários resquícios afetivos e sentimentais que se confrontam. Ao final, uma voz feminina, sem acompanhamento musical, canta a canção antes cantada pelo pai. A música ecoa por espaços vazios, subexiste a tudo aquilo e resgata todas aquelas lembranças. A canção passa a ser indíce de todas as outras imagens para voltar a uní-las em um som plano. O mistério é garantido exatamente pela montagem e a tudo aquilo que ela remete. Uma memória não mais cognitiva mas sentimental, que funciona sob outros parâmetros, que se organiza em seus lapsos de tempo.

 

* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

O Menino Japonês, de Caetano Gotardo

 

por Leonardo Amaral

 

O menino japonês do curta de Caetano Gotardo não é uma imagem, é uma construção. Vemos, no começo, um homem que olha para o teto de um ônibus, a imagem agora vem antes de sua construção, vemos um deslocamento de contexto que move todo o filme. Caetano trabalha nas ressignificações que vão se estabelecendo a partir da relação entre aqueles dois personagens, daquele diálogo que transita o tempo todo entre evidências completas e transposições de palavras que vão redefinindo sentimentos. Não sabemos que é aquele senhor do começo, dentro do ônibus, e continuamos a não sabê-lo. A palavra traz novos sentido para a cena, mas não o explica, assim como também não o faz em relação ao que pode acontecer com dois homens que conversam e observam a vizinhança pela janela.

 

Eles olham para um dos apartamentos, onde um homem passa roupas. Um exercício simples do cotidiano, observado e narrado, redimensionado e trazido para outro contexto. O fio narrativo é simples: um rapaz que vai a casa do outro para montar um vídeo por ele realizado. O entorno oferece as possibilidades, as palavras constroem as situações. Vemos o homem que passa roupas, mas não vemos as outras coisas que ele faz dentro do apartamento, são apenas sugestões, não cabem no enquadramento, mas cabem na imagem, são construídas verbalmente, assim como se constrói a relação dos dois personagens, pelas palavras ou pelo poder que elas tem de sugestão.

 

O menino japonês talvez não exista, talvez seja apenas um conto inventado, uma história, uma possibilidade do momento. O menino japonês pode ser o próprio personagem que a narra, uma experiência compartilhada, uma lembrança retomada pelo encontro com aquele garota que fazia uma pesquisa para a escola. O menino japonês é a possibilidade de se dizer o que se sente, talvez a única, provavelmente a mais possível. As luzes do apartamento são acesas e os personagens se encontram de frente um ao outro. O corte para a tela preta reserva aos dois a intimidade que lhes é necessária, assim como no início, essa mesma montagem não deixou explicar o destino daquele homem no ônibus. Se ele chorou, não sabemos.

 

* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Ressaca, de Rene Brasil

por João Toledo

O filme de Rene Brasil se envereda muito claramente pelos caminhos de um cinema mais clássico, narrativo, mas não necessariamente óbvio. Existe – para além da ação muito bem narrada pela decupagem precisa, e de um olhar sem muitos filtros diante da realidade filmada – um universo outro, impreciso, de mistura entre fabulação e lembrança. A memória cria aqueles personagens, é ela que dá peso à relação dos dois. Há ali, naquele despertar, aquilo que se lembra, o que se constrói e o que se dilui no tempo. A garota sobriamente confirma as memórias duvidosas do homem, eles transitam por entre lembranças da noite anterior, pela festa de natal que, na sua amargura, apontou para um momento alegre do passado, ou outro natal da infância. No entanto, em meio à ressaca e à memória amarga da noite anterior, resta ainda alguma ternura. Em meio ao caos, resiste o sentimento de carinho e a impressão de que o amor ali se sobrepõe às dores, à ressaca do dia-a-dia.

*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes

Lembro-me ainda de quando comíamos pão de mel toda manhã mas hoje acordei de ressaca

por Ursula Rösele

Uma obra em uma das avenidas de maior trânsito de veículos de Belo Horizonte. Durante sua construção, uma rotina se estabelece àqueles que por lá trafegam. Moradores desapropriados de suas residências, muito barro resultante das chuvas que os habitantes de BH enfrentaram por um longo período e operários por todos os lados, caminhando e trabalhando diariamente em um panorama de caos urbano. Verdadeiros anônimos.

Na ausência de uma localização histórica na narrativa que nos permita compreender essa lógica de relação sugerida entre essas duas pessoas, se desenrola uma melancolia do desconhecido que acaba por evidenciar o artifício da câmera e da montagem, pois é através delas que se torna possível sugerir que esses dois, que provavelmente jamais estiveram defronte um ao outro, sejam colocadas em um plano e contraplano que denota uma relação não somente de um amor acabado, mas da construção de um discurso que somente o cinema é capaz de permitir.

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Pedra Bruta, de Julia Zakia

por Ursula Rösele

Nessa relação visceral que se estabelece entre a personagem de Pedra Bruta e o espaço que a circunda, entramos com ela em um verdadeiro transe, numa junção impossível daquele corpo ao redor das ruínas de um processo de destruição gerado por uma guerra infeliz. Aquela mulher está na Bósnia, executando um balé desse pós-caos e evocando um sentimento de resistência àquela dissolução de um passado que desconhecemos.

Em Pedra Bruta sentimos a todo tempo o efeito que o extracampo exerce sobre nós. Viemos a saber que aquele espaço é a Bósnia somente um tempo depois, assim como as origens da angústia colocada por aquele corpo que se debate com o concreto, com a impossibilidade de se definir um sentimento daqueles através de palavras. Resta, portanto, ao som daquela que representa o sentimento, tentar transpô-lo artisticamente nas mãos de uma outra mulher.

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Um Par, de Lara Lima

por Ursula Rösele

Novamente é o extracampo - e o mistério que ele guarda - o norte da tensão sutil desse filme que fechou a sessão de curtas ontem em Tiradentes. Este par, quando no mesmo quadro, quando olha nos olhos, parece em harmonia, sugere um amor, porém, sempre com algo em suspenso, que somente nós espectadores compactuamos com eles quando esses mesmos olhos se colocam frente à câmera, ainda que não olhando para ela.

A sutileza na mis-en-scène deste curta é toda construída em sequências em que o casal, quando junto, é visto em planos mais abertos e é justamente a aproximação da câmera a responsável por nos mostrar que há algo ali fora do lugar, uma espécie de angústia, de temor por uma verdade que jamais saberemos qual é.

Ficam perguntas, todo o tempo: o que há nessa interseção entre o estar presente no quadro e o que ocorre fora dele? O que pode haver quando um casal deixa as palavras de lado e se torna apenas par, apenas dois? O último plano, representativo, porém, difícil de se decifrar, mostra a casa vazia, sem a presença daqueles que parecem angustiados, aguardando-os, inerte.

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Filmes Citados:
Ensaio de Cinema (idem, 2009/Allan Ribeiro)
Manassés (idem, 2009/Luisa Marques)
Lembro-me ainda de quando comíamos pão de mel toda manhã mas hoje acordei de ressaca (idem, 2009/João Toledo)
Pedra Bruta (idem, 2009/Julia Zakia)
O Menino Japonês (idem, 2009/Caetano Gotardo)
Ressaca (idem, 2009/Rene Brasil)
Um Par (idem, 2010/Lara Lima)