por João Toledo

Curtas Série 2 – Mostra Foco: As Corujas, 98001075056, Fantasmas, Matryoshka, 24º Domingo do Tempo Comum, Cadernos de Viagem, Chapa

As Corujas, de Fred Benevides

por João Toledo

É sempre um enorme prazer assistir a exercícios cinematográficos entregues a um gênero, em especial o terror, tão pouco explorado no cinema brasileiro – ainda que o filme tensione ali a idéia de gênero dentro de um projeto que explora suas características de maneira bastante particular, investigativa dos efeitos de tensão e medo, sem incidir nas estratégias mais usuais. O que impressiona no filme é a segurança com que conduz uma mise-en-scène bastante complexa, que opera transformações no extra-campo e as revela a todo momento nos deixando perdidos em seu labirinto de operações secretas. A idéia de passagem de tempo se confunde inteira, e nesse caos somos arremessados para dentro do universo do vigia do necrotério, que protege os mortos das corujas que lhe comem os olhos. Essas operações mágicas no extra-campo criam uma sensação de intangibilidade do espaço, de que a imagem não precisa aquela realidade em quadro, de que tudo é moldado, tudo é antes sensação que fato, de que tudo pode acontecer. E é daí que surge seu suspense, da imprevisibilidade de uma imagem flexível.

Ao mesmo tempo em que as operações da câmera, elas próprias, se revelam como as ferramentas manipuladoras do clima de tensão e suspense, isso não nos desliga do processo narrativo por atração para o excesso de artifício. Nos mantemos presos ao desenvolvimento do filme, presos ao processo aterrador do personagem que se acirra em sua loucura e medo. Ao final, o filme se lava de seu artifício, lava o filtro do pesadelo que carregava seu clima colado à própria lente. Nos revela o dia. As corujas já não estão mais lá.

*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes

 

Fantasmas, de André Novais Oliveira

por João Toledo

A sessão da mostra foco série 2 parecia guiada inteira pela idéia de fantasmas, por aquilo que, independente de sua ausência, se faz presente seja através das imagens, da memória, de alucinações. Nesse sentido, Fantasmas é o filme mais simples - expondo essa falta com bastante clareza -, mas ao mesmo tempo o mais ambíguo -pois trava uma relação primeira com o espectador, uma relação de humor a partir do trivial e do patético da situação, mas que esconde apenas o quão terrível é aquilo que se esconde no risível. A escolha de uma imagem que se mantém única, e que implica uma série de ausências, deixando no extra-campo diversas coisas que se somam ao sentimento de falta – e não apenas a imagem do garoto, mas o próprio passado que o traz a esse momento –, dá a ela um estatuto de imagem-fantasma. Pois nela sobrevive a ausência, sobrevive a falta. A captação de uma imagem tem essa força de manter vivo até mesmo a própria morte. Ao final, uma manipulação da imagem dá a ela outra temporalidade. A fita que volta, arranca aquele instante do presente e o torna passado, um passado que segue a assombrar o personagem, que se torna ela própria o fantasma de um fantasma.

*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes

 

Cadernos de Viagem, Alex Lindolfo

por João Toledo

Apesar de ser o filme mais deslocado da sessão – e sofrer com isso por sua aparência banal, sua falta de peso e uma forma um tanto fácil, cujo imediatismo da relação constitui uma certa armadilha – existe nele um esforço de criação que, de certa forma, dialoga com Flash Happy Society na medida em que parte de contradições contemporâneas produzindo discursos no silêncio das imagens. A diferença é que o discurso em Flash Happy parte das ações dos outros, espontâneas, observadas. Isso enfraquece, em Cadernos de Viagem, a idéia da discussão, pois o curta se limita a ser um comentário construído a partir de si, de uma subjetividade que externaliza e ridiculariza atitudes contemporâneas, produzindo um discurso moral. O filme segue um viagem por entre paisagens várias que não são mais que o pano de fundo. A própria estrutura um tanto videoclíptica, com ritmo movimentado, guiado por música, esvazia qualquer potência da paisagem que é sempre ignorada, esquecida, desimportante para seu personagem. A beleza da paisagem nas imagens da bicicleta é sempre fugaz, passageira, e vai ficando pra trás. Em primeiro plano, a corrente da bicicleta, esse ciclo constante que não se interrompe, que mantém o personagem nesse eterno rodar sem sair do lugar. Olhamos sem ver, assim como o personagem – ele olha sem ver, e se desloca sem se mexer.

*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes

 

Chapa, de Thiago Ricarte

por João Toledo

Chapa já se revela impressionante longo nos primeiros segundos por uma naturalidade que nos desconcerta, pois, aqueles personagens, não se pode crer que sejam atores. Em cena, eles vivem. O silêncio é fundamental; o olhar do protagonista descreve sua trajetória enquanto os outros falam, conversam entre si, dizem-lhe coisas desimportantes. Ele se revela, mas ao mesmo tempo preserva o mistério, oculta algo que pouco importa diante de um olhar como aquele. O filme segue, com rigor de câmera, os personagens que cruzam o caminho do homem a esperar sua filha. Enquanto uns vão e vem, o dia passa. O dia? O céu se transforma; o tempo se transforma. Quanto tempo dura sua espera? À medida que sua extenuante jornada de silêncio e fixidez se aproxima do crepúsculo do dia, o sentimento da falta o arrebata com a presença de uma ternura que, se não é aquela da filha que ele espera, remete àquilo que lhe faz permanecer a esperar. Já não há mais como guardar tanta coisa no seu olhar, que derrama o choro contido.

*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes

 

98001075056, de Felipe Barros

 

por Gabriel Martins

 

Em uma sessão que certamente buscou discutir a imagem enquanto estado permanente de memória, 98001075056 foi provavelmente o filme que mais diretamente lidou com uma espécie de tema central da sessão: a imagem da morte. Sombrio e curto, é um filme afetivo travestido de horror. Através de um efeito de dissolução de fotos – é difícil entender exatamente em que consiste o processo – Felipe Barros usa da desconstrução de imagens de pessoas mais velhas (possíveis familiares) para, depois, reverter o processo na construção de uma imagem de criança, provavelmente sua própria imagem (o diretor revelou antes da sessão que o nome do filme é o número de seu RG).

 

Uma obra curta que, ainda assim, consegue na força do diálogo de suas imagens falar sobre morte e nascimento. Felipe fala de algo como um abandono de uma sombra criada pela família para um prosseguir dele mesmo como pessoa –um processo de emancipação, uma possível perspectiva psicanalítica. Terror puro, de toda forma.

 

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

 

Matryoshka, de Salomão Santana

 

por Gabriel Martins

 

Matryoshka causa um deslocamento na sessão. Começamos na neve, uma neve melancólica pontuada por uma trilha que – junto à narração em off - parece anunciar algo como uma saudade do nada. Estamos em um outro lugar, que não é o Brasil. O espaço depois vira outro, e a personagem está em Fortaleza. Ela agora é quem está deslocada e permanecerá assim. As placas indicam várias direções mas ela está parada. Em uma rua, ela permanece em contramão. O preto e branco usado por Salomão Santana confunde a sua personagem com o ambiente, um interessante paradoxo com a própria situação de não pertencimento a qual ela se encontra.

 

Matryoshka é o silêncio, o vazio, a personagem-boneca que, filmada de forma rigorosa, nos passa sua ausência do mundo. Ela não cabe nos enquadramentos, e está quase sempre fragmentada por estes. Com imagem, dentro da imagem, Salomão nos descreve a melancolia.

 

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

 

24 Domingo do Tempo Comum, de Daniel Lentini

 

por Gabriel Martins

 

Logo a princípio um ponto positivo: um personagem se apronta para sair e, no café da manhã, mistura um suco...com um garfo. Esse detalhe, ficção com um quê de documentário (ou seria o contrário?), por mais bobo e pouco interferente no resto do filme, o valoriza enquanto naturalidade do momento. Tem-se aqui um processo de transferencia: o homem que vai até o culto celebrá-lo e a fiel que volta para casa. Belo momento essa volta, o mais forte do filme. Em cena longa, as imagens transparecem uma câmera que persegue a personagem, persiste em tê-la em quadro ao mesmo tempo em que a beleza da geografia também compete por um espaço. Esta personagem, em seu isolamento, na sua longa caminhada silenciosa, é uma bela representatividade de fé. É no seu rosto, ao fim do filme, na sua cumplicidade, que a transferência se encerra, fechando uma obra bastante interessante de olhar observacional carinhoso com o universo que retrata.

 

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes Citados:

As Corujas (idem, 2009/Fred Benevides)

98001075056 (idem, 2009/Felipe Barros)

Matryoshka (idem, 2009/Salomão Santana)

24º Domingo do Tempo Comum (idem, 2009/Daniel Lentini)

Cadernos de Viagem (idem, 2009/Alex Lindolfo)

Chapa (idem, 2009/Thiago Ricarte)

Fantasmas (idem, 2009/André Novais Oliveira)