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por João Toledo
Aquele Querido Mês de Agosto
A propósito de uma recente mostra organizada pela Teia, produtora mineira de cinema, pude rever numa boa cópia em película aquele querido filme que havia me encantado outubro passado, por um sem número de razões que nem eu mesmo parecia saber quando escrevi algumas inexpressivas linhas a respeito para a cobertura da Mostra de São Paulo de 2008. Essa revisão serviu para trazer à baila uma série de questões que eram tão potentes e evidentes no filme enquanto experiência, mas que ao mesmo tempo pareciam não encontrar nunca respaldo no papel, na argumentação; nada que fosse dito poderia de fato estar à altura da vivência do filme – e nem creio que deva estar, mas me chamou a atenção a incapacidade, evidente em meu texto e noutros diversos, de encontrar uma expressão que desse ao filme seu valor devido.
No debate que se deu após a exibição do filme português (que em sua proposta de altercação era ali uma espécie de contrassenso, justamente porque seguido de uma experiência tão plena, tão completa em si mesma), essa inabilidade ao tatear aquele objeto cinematográfico, ao buscar compreender sua forma, ficou ainda mais evidente. Ilana Feldman, num texto escrito especialmente para a ocasião, buscava lidar justamente com essa aparente intangibilidade do filme, que levava tantos críticos a centrar a discussão no entrelace entre documentário e ficção, fazendo assim do processo de decodificação dos estatutos da imagem uma espécie de triunfo crítico inútil. Ao mesmo tempo em que fazia isso, Ilana também trazia, implícita na escolha de ler um texto, a importância da construção formal na intenção de um diálogo com o filme, a importância de um discurso que seja em si uma forma de expressão pessoal, que lide com isso que o filme evoca, com essa pulsão de vida, essa força que parece emanar da natureza. O filme, em certa medida, nesse processo de troca, mais do que racionalização e interpretação, demanda emoção e entrega ao sabor da forma e seu poder de encantamento e fascínio.
Mas segue ainda na boca o gosto da dúvida, essa perplexidade diante de um objeto que me compreende mais do que eu a ele. Esse segundo olhar para o filme me afundou em pensamentos sobre a questão dos artifícios do cinema e seu uso bastante particular na criação do universo diante da câmera. A revelação do aparato cinematográfico surge em cena de forma muito diferente da habitual, talvez mesmo oposta àquela proposta no cinema de Brian De Palma. Ao contrário do que ocorre no cinema do diretor americano, o artifício em Aquele Querido Mês de Agosto não parece estar ali somente em função de um processo autorreflexivo, de um escancaramento de sua condição de construção, que explora a imagem como representação, como mentira, talvez.
No filme de Miguel Gomes – um filme que parte de um projeto com roteiro, personagens, enredo, diálogos, mas que incorpora ao processo sua própria despreocupação, seu descaso com a precisão do jogo ficcional, seu estado de férias, sua vontade de verdadeiramente pertencer ao universo que procura a ponto de se perder nessa realidade, permitindo sempre ser surpreendido por ela – não se pode falar de mentira. O que o filme parece propor nessa constante exposição dos artifícios da criação cinematográfica é uma espécie de documentação de seu processo de ficcionalização – este que nada mais é que uma nova esfera daquela realidade.
Quando o filtro é colocado na lente, quando a equipe entra em cena, ou mesmo quando na ponte é criada toda uma complexa mise-en-scène em torno do primeiro beijo do casal de adolescentes, aquilo não está ali para reafirmar seu caráter arquitetado; não está ali para nos mostrar que é tudo mentira, mas, pelo contrário, para descortinar sua construção. Torná-la óbvia para torná-la invisível. Nesse sentido, colocar o filtro na imagem é como tirar-lhe o filtro, é como mostrar ou documentar sua interferência, tornando-a uma não-questão, nos deixando, assim, livres para saborear cada momento, perdidos nos meandros da construção e desconstrução, e absolutamente despreocupados com a existência de limites entre pessoas e personagens, paisagens e cenários, cenas e acontecimentos.
Tudo em Aquele Querido Mês de Agosto é real, mesmo o que não existe, o que não estava lá. Um exercício sublime de descobrir o que não existe, de reinventar o mundo para falar do mundo que nos cerca, de colocar a técnica a serviço da vida, da paixão, do coração – fazer ficção como forma de documentar a vida. Esse foi o filme que eu vi, que eu ouvi e que espero ainda rever sempre que puder, e sobre o qual não creio que possa escrever muito mais. Porque é sempre importante salvar um pouco do mistério, deixar restar um frescor. Dissecar é procedimento para coisas mortas; não me interessa empreender nenhuma cruzada totalizante, esgotando o poder de fascínio de cada plano e fazendo secar aquilo que pulsa, cheio de vida. Às vezes, diante de um filme como este, é preciso calar.
Filmes Citados:
Aquele Querido Mês de Agosto (Idem, 2008/Miguel Gomes)








