por João Toledo

O Equilibrista: recodificando símbolos

O Equilibrista é um filme que, com bastante sutileza, nos guia por entre os espaços de fabulação do passado através da memória de seus personagens, cujo caráter fantástico é a todo tempo desafiado pela objetividade das imagens reais. Mas aquelas imagens reais são tão desafiadoramente inacreditáveis que o caráter lúdico da narração realmente nos lança para o interior de uma espécie de universo paralelo, um universo apolítico, acrítico, um mundo onde não existe conflito social, crise financeira, choque de poder ou intolerância. Um lugar onde somente a poesia é possível, somente a beleza é real, onde a transformação só se dá através do poder de criação do impossível, de reimaginação das coisas a partir do que elas podem ser para cada um de nós, e não de aceitação da forma como são vistas por todos. Pois é justamente aí que reside sua força política, seu poder crítico. Na pretensa alienação de seu protagonista – o equilibrista de corda-bamba Philippe Petit – está a semente de uma certa esperança, que habita o olhar puro, descontaminado de toda significação que já vem colada às coisas.

 

O filme de James Marsh se centra nesse retorno ao passado, e o faz como forma de repensar o mundo, as formas, os espaços e, principalmente, o poder das imagens. Reconstrói-se aos poucos os passos de Petit em direção ao maior de seus sonhos, ao grande abismo onde mais tarde no filme ele irá se equilibrar, a centenas de metros do asfalto (ou do mundo real), numa corda bamba, equilibrando ao mesmo tempo a concretude e o delírio. Enquanto os personagens relembram aquela absurda jornada de jovens sonhadores, delineia-se na tela uma construção paralela, uma reinvenção dos momentos relatados através de fragmentos de detalhes, tornados em imagens de beleza e mistério vigorosos.

 

Essa imagem, em um preto e branco que parece acentuar a impressão ficcional da história através do jogo de sombras e luzes que se cruzam para criar formas onde só havia enigma, de algum modo se (con)funde às imagens documentais de um jovem Petit, que treina em um sítio ou executa suas primeiras loucuras nas torres de Notre-Dame – talvez haja em todas elas uma mesma pulsação, uma tênue harmonia entre o prazer e a tensão. De todo modo, em todas as imagens a nós oferecidas – sejam elas criadas para o filme, sejam fotografias ou imagens de arquivo da construção das Torres Gêmeas – todas elas têm em comum a potência da imagem, a força transformadora do olhar. No filme de James Marsh, a imagem está sempre em primeiro plano.

 

Logo nos minutos iniciais, a reconstrução do passado nos belos recortes em preto e branco parece querer remeter à ideia de terrorismo, de destruição: a palavra coup (golpe, em francês) marcada no calendário, a Casa Branca na televisão e ao fundo flechas sendo devidamente armazenadas em um tubo – no mistério ali conotado parece habitar uma certa impressão de revolução, de transformação, a iminência de algo estrondoso. Mas se aqueles eram jovens revolucionários, qual era sua revolução, afinal?  Em certa medida, há no ato proposto por Petit e seus companheiros uma espécie de destruição, de demolição de um ícone, de renovação de uma imagem. A revolução está justamente na simplicidade do seu processo de reconfiguração do mundo. Petit, quando acorda o mundo com seu desfile flutuante em meio às torres do World Trade Center, quando surge no céu, perdido entre dois imensos blocos de realidade, voando no meio da cidade perplexa,  demole algo e planta outra coisa no lugar.

 

Essa demolição diz respeito àquele seu sonho, ao que ele supostamente representa. O que ele destrói é a representação do World Trade Center; ignora-o como símbolo do capitalismo, do imperialismo, do poder, e torna-o palco de um sonho, picadeiro de um milagre. Ele observa aquele lugar primeiro enquanto forma, enquanto estrutura, e faz dessa imagem o que bem entende. Ele a reconfigura e, assim, a todo o mundo ao seu redor, pois nos mostra a possibilidade de encanto e beleza naquilo que parece tão manchado de conceitos e ideologias. O olhar é puro, novo. O objeto é visto como se nunca houvesse existido nada igual, é visto como revelação, e é preciso inventar seu uso. Há nesse processo algo que remete à infância, ao olhar de descoberta da criança, que cria significados alheios à funcionalidade do real, completamente inocentes, desprovidos de moral, inclassificáveis e, acima de tudo, vivos.

 

É preciso, pois, aprender com Petit. Aprender, sobretudo, a desaprender a olhar, a classificar, a decodificar. Reaprender a descobrir o novo em tudo o que se avelhanta ao nosso redor. Compreender a importância de olhar para o mundo com a generosidade de quem o explora e o descobre, e não de quem o decifra e o resolve. Às vezes é preciso ignorar o enigma da esfinge, essa incessante necessidade imediatista de soluções e respostas, para não sermos devorados pela cruel objetividade das coisas todas do mundo, que, cínicas, nos devolvem seu olhar cansado.

 

Filmes Citados:

O Equilibrista (Man On Wire, 2008/James Marsh)