por João Toledo

Mostra Oberhausen – 1: “Chock of Time”, “Remake”, “Scarlet Sails”, “The Future Is Behind You”, “Axis of Evil”, “Wild Boy”, “Lost Property Hong Kong”

por João Toledo

Chock of Time, de Sun Xun

Essa obra de Sun Xun se soma aos trabalhos outros deste realizador, que parece bastante interessado em refletir sobre a China, seu processo histórico e seu estado atual. Através de animações em stop-motion ele se engaja na busca expressiva por meio de uma semelhante estruturação de discursos simbólicos. Sobre vários jornais, que de alguma forma representam a passagem de tempo, ele cria figuras que impõe visões críticas da realidade através de símbolos vários: uma máquina derruba cimento no chão, essa mancha toma a forma da geografia do país; um mágico sem cabeça faz aparecer um enorme relógio, cujo pêndulo tem a forma de um pac-man; o mapa adquire novas formas, enche de rachaduras, se torna a ruína de uma figura. Formalmente são muito ricas as suas obras, e têm um ritmo e um olhar muito pulsantes e criativos no âmbito da animação, mas são ensaios de discurso sem grande peso. Ao menos não parecem se pretender definitivos demais; há espaço para que a imagens respirem, e, por conseqüência, que respire o espectador.

 

*Visto no 11º Festival de Curtas de BH.

 

Remake, de Hangover Ltd, Claudia Splitt

 

O que um filme desse tem e pode ter de mais positivo é o estado que propicia, terminada a exibição, de uma absoluta incompreensão de suas intenções formais e de suas abordagens no que tange aos sujeitos em cena. Ao invés de ficcional ou documental, parece antes de tudo lisérgico, entregue a uma experimentação bizarra. Mas uma experimentação antes psicológica que estética. Ao começo, mulheres divagam sobre o que querem da vida; logo em seguida, com uma câmera na mão completamente descoordenada e despreocupada com o rigor do enquadramento, do raccord ou da continuidade, observamos a essas mulheres em uma minúscula boate enquanto dançam com um homem alto e forte. Tudo o que haviam dito, sobre encontrarem um amor verdadeiro, é jogado de lado nesse espaço de loucura e dança, de muita bebida e muita contradição. E há ali muito mais disputa e inveja do que diversão, em qualquer medida. O curta se perde nesse estranhíssimo processo de rendição das mulheres aos seus anseios primários e não produz nada a partir disso além de uma relação meio boba de contraste entre desejo consciente e desejo inconsciente.

 

*Visto no 11º Festival de Curtas de BH.

  

Scarlet Sails, de Olga Egorova, Natalia Pershina


Uma seleção se torna francamente incompreensível quando escolhe um curta como esse para representar o que de mais instigante a curadoria de um importante festival tem a mostrar. Para além do enorme e inútil texto que abre a projeção, um interminável preâmbulo que nos quer guiar a percepção por entre as imagens que veremos, temos um processo de escolhas formais realmente constrangedor. Não há unidade alguma naquelas imagens; alguns detalhes escolhem o plano fixo, alguns planos vagam com a câmera na mão, outros falseiam um plano fixo meio descuidado, alguns angulam o quadro numa estetização um tanto vulgar. E tudo em um preto-e-branco inexpressivo que se justifica ao fim, quando as velas escarlates são carregadas no píer pelas senhoras que os foram tomar no galpão da fábrica. Pode haver de tudo na proposta; verdade de quem idealizou, boas intenções acerca do assunto escolhido, uma idéia de resgate bonita – só não há, de fato, cinema.

 

*Visto no 11º Festival de Curtas de BH.

 

The Future is Behind You, de Abigail Child

 

O curta começa como uma espécie de documentário sobre uma família de origem judia (mas desligada das tradições religiosas após um casamento com um católico) na Alemanha do pré-guerra. Uma voz feminina narra suas memórias de infância mediadas pelas imagens de uma garotinha, enquanto imagens desse passado em família se acumulam, interrompidas apenas por interlúdios que anunciam a progressão dos anos e da violência da guerra. A recriação do som é bastante curiosa, e acentua certos detalhes como os constantes beijos entre os personagens. A montagem, no que propõe uma ficionalização dessas imagens banais, consegue criar momentos bastante fortes, associada ao uso dramático de música. Poderia ser um filme realmente muito bom, quiçá um grande filme, apesar de sua temática surrada, se não sentisse a necessidade constante de se revelar através das perguntas retóricas insistentes sobre a constituição da memória, a construção do passado, a realidade das imagens. De tanto reforçar, acaba tornando óbvia a condição de arquivo daquelas imagens, retrabalhadas, reconfiguradas, renovadas pelo olhar da cineasta. O filme já dizia tanto; às vezes é preciso calar.

 

*Vistos no 11º Festival de Curtas de Belo Horizonte

 

 

Axis of Evil, de Pascal Lievre

 

Um dos curtas mais dementes que já pude assistir. Um casal, vivendo situações de uma pieguice sem fim – seja diante das cataratas do Niágara, seja diante da lareira de um quarto de hotel, na banheira de hidromassagem –, canta uma música absolutamente baranga e com total entrega emocional às intenções mais empolgadas de sua melodia. O que cria uma certa intriga no espectador é o fato de estarem cantando uma música pop sobre os perigos do acervo nuclear e do terrorismo no Iraque, que mais tarde descobriremos ser baseada no discurso de Bush que deu inicio à pretensa guerra contra o terrorismo. O casal canadense, que parece estar em lua de mel ou em qualquer tipo de viagem romântica de férias, cria uma mise-en-scène que busca acentuar todo o ridículo do imaginário de um romantismo americano, usando o clichê para ridicularizar uma cultura estranha a eles. A graça da estranheza passa logo, e torna-se apenas meio patético assistir a dois sujeitos que se humilham em um discurso meio grosseiro, sem qualquer sutileza.

 

*Vistos no 11º Festival de Curtas de Belo Horizonte

 

 

Filmes Citados:
Shock of Time (Idem, 2006/Sun Xun)
Remake (Idem, 2004/Hangover Ltd, Claudia Splitt)
Scarlet Sails (Idem, 2005/Olga Egorova, Natalia Pershina)
The Future is Behind You (idem, 2004/Abigail Child)
Axis of Evil (Idem, 2003/Pascal Lièvre)
Wild Boy (Idem, 2004/Guy Ben-Ner)
Lost Property Hong Kong (Idem, 2006/Choi Bin Chuen)

 

 

Wild Boy, de Guy Ben-Ner

 

Uma estranha e tortuosa refilmagem, em termos, do filme Garoto Selvagem, de Truffaut, sobre um menino encontrado na floresta por um professor que toma para si a tarefa de criar o menino e lhe oferecer as ferramentas necessárias para estabelecer algum tipo de comunicação. Não parece haver no projeto, no entanto, qualquer articulação cinematográfica muito complexa, ao menos alguma que referencia ou se baseia em qualquer cinema anterior; parece que se trata de uma invenção de uma forma a partir da vontade criadora. Se a montagem parece criar estranhas vizinhanças entre uma imagem e outra, o som então, no seu vai e vem sem muito rigor, dá um aspecto bastante artesanal ao filme, de uma experimentação meio rústica, um tanto precária, mas nunca limitada. Há uma criatividade pulsante no filme, e um humor desconcertante, que emana desse seu caráter de novidade, de um cinema que nos deixa perdidos entre serem suas escolhas propositais ou não. O realizador inventa a floresta do garoto em sua cozinha, cria dentro de casa o espaço que lhe permitirá transitar entre civilização e o mundo selvagem, produz mecanismos vários num estilo meio MacGyver. Mas, sobretudo, faz um bastante afetivo retrato de sua relação com esse garoto que parece ser seu filho, cria com ele um jogo de interação e de ensino mesmo; a relação de instrumentalização do sujeito a partir das ferramentas de comunicação faz misturar a relação professor e aluno com a de pai e filho.

 

*Visto no 11º Festival de Curtas de BH.

 

Lost Property Hong Kong, de Choi Bin Chuen

 

O curta-metragem, uma espécie de genealogia do passado de seu realizador, parece tratar em parte de uma revisita saudosa, mas ao mesmo tempo de uma espécie de despedida, visual ao menos. Isso porque o realizador retorna à cidade natal e enfrenta naquele ambiente a memória transformada, um passado irrecuperável – lida o tempo inteiro com a visibilidade das coisas e busca enfrentar suas próprias fraquezas. Nada chega de fato a ser revelado, nenhum dado objetivo sobre alguma condição enferma do olhar, mas existe um jogo forte do filme com aquilo que é ou não visível. Desde a busca por um peixe cego – um que lida com o ambiente através de ondas que emana do corpo –, passando também pelo cartomante cego, por uma fotografia de amigos na qual ele insere digitalmente outros ausentes, um plano cujo zoom digital faz perder toda a definição da imagem, ou momentos em que filma tudo sem foco por estar sem seus óculos. Lidando com o passado, o cineasta lida com suas limitações, sua finitude, e o faz através de uma presença ausente, invisível, perdida, difusa no meio de sua tentativa de recolher algo do passado no meio da Hong Kong atual. Um bonito filme íntimo, capítulo de um diário em imagens, sobre imagens que aos poucos se perdem.

 

*Visto no 11º Festival de Curtas de BH.

 

 

 

por João Toledo


Chock of Time, de Sun Xun