por João Toledo

Mostra Vila do Conde - 2: “História Trágica com Final Feliz”, “A Suspeita”, “China, China” e “Beacon”

História Trágica com Final Feliz, de Regina Pessoa

por João Toledo

 

A animação portuguesa História Trágica com Final Feliz é desses curtas singelos, que lidam com o universo retratado com bastante sensibilidade. Ele retoma em sua forma algo do expressionismo alemão, reconfigurado para um universo mais inocente, da fábula infantil. Trata-se de um filme, como dizia Bazin, que acredita na imagem (em contraponto aos que acreditam na realidade), no qual a representação da realidade busca acrescentar algo a ela, produzir qualquer tipo de pensamento ou adotar determinada postura crítica sobre o universo representado. O filme trata do sentimento de inadequação; a garota cujo coração bate tão forte que chega a incomodar os vizinhos, torna-se reclusa, distante, invisível, até que começa a se descobrir e se aceitar. A sociedade que a repelia, e que depois aprendeu a conviver com sua presença ausente, se vê de repente sem ritmo, sem vida, no momento em que a garota parte, tornando-se o pássaro que sempre foi. A tragédia, por um lado subvertida na liberdade da garota que cria asas, simbólicas ou não, é também mantida sob a ironia do final do filme, cujo ponto de vista permanece ao chão, a observar o que ficou pra trás. O que era a felicidade, afinal? Ao mesmo tempo em que se deixa enquadrar dentro da lógica de um filme de fábula moral, rompe com um certo simplismo implícito desse tipo de produção e deixa soltas algumas pontas, alguns sentimentos perdidos.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte.

 

 

A Suspeita, de José Miguel Ribeiro

por João Toledo

 

Bem acabado e bem desenvolvido, narrativa e visualmente. Pleno de momentos de criatividade na criação visual dos espaços, dos personagens, da utilização da fotografia. Impecável, enfim. No entanto, é curioso como determinado cinema de animação se rende à linguagem cinematográfica formal a ponto de se tornar refém de suas formas, como se buscasse respeitabilidade na semelhança e não na diferença. Quão livres poderiam ser, e, no entanto, quão apegados são a modelos estéticos e narrativos – e isso não quer dizer falta de criatividade, mas decerto uma criatividade adequada a um modelo, um modelo do qual a animação não depende, não precisa. Nada de realmente mal pode ser dito sobre o filme em si. Funciona como entretenimento justamente a partir da forma, não subjuga a imagem ao roteiro, é bastante engraçado e carrega uma moral boba, mas divertida; o velho “as aparências enganam” parece reger a idéia central do curta. Chega-se ao final, no entanto, e o filme se basta. Esgota-se em si mesmo; nada a ser dito ou pensado a respeito ao fim da sessão. Alguns filmes fazem concessões demais. Parecem não saber o quão livres são (ou poderiam ser).

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

China, China, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

por Marcelo Miranda

O tema do choque cultural ganha neste curta camadas profundas de ironia sem deixar de tentar captar, com a força da imagem e do som, o estado quase catatônico com que a protagonista parece se movimentar. A falsidade de uma posição ativa da personagem central só nos é explicitada ao final, num desenlace que, se num primeiro momento pode aparentar o mais vagabundo dos finais-surpresa típicos de um cineminha de roteiro cíclico e "surpreendente”, logo nos revela as reais intenções dos realizadores de transformar a breve saga da personagem num pequeno mergulho debochado e autorreferente de uma mente em constante perturbação.

Há uma cena especialmente forte e representativa em China, China capaz de sintetizar à perfeição o embalo do curta: a menina chinesa pula e dança em cima da cama, enquanto escuta uma música portuguesa tendo ao fundo a imagem do World Trade Center, obviamente pré-11 de Setembro. Ali, naquele plano único, reúnem-se os diversos elementos que oprimem a personagem: ela é estrangeira não apenas geograficamente (uma chinesa em Portugal), mas também no mundo como um todo e, consequentemente, dentro da própria casa. Ao se aproximar de marido e filho, ela assiste com eles a trechos de um clássico de ação do diretor John Woo; o filho pequeno brinca de “atirar” na tela com um revólver de videogame, enquanto o ator Chow Yun-Fat realmente massacra um bando de inimigos nas cenas filmadas por Woo. Logo a chinesa também empunha uma arma, e outra cena de impacto (este, mais sutil) se apresenta: a moça dá dois supostos tiros com a arma, mas o espectador não vê o destino das balas. Tudo fica no extracampo – inclusive o som, “aproveitado” do filme de John Woo.

Daí o final não ter nada de “surpreendente”. Os diretores preferem acumular pequenas situações cotidianas que explicitem a noção de perda de espaço da personagem. Desde o cumprimento aos conhecidos na rua até, especialmente, a batida dos calcanhares dos sapatos (referência das mais óbvias – e encantadoras – a O Mágico de Oz, usada inclusive por David Lynch em Coração Selvagem) ou a informação de que a mulher está “saindo de viagem”, tudo vai transmitindo a falsa impressão de uma atitude concreta. Mas o que vemos, ao fim, é a passividade: a chinesa continua com sua vida conciliatória. Se um último tiro – desta vez, sem John Woo – parece quebrar a harmonia, nada na imagem nos garante que aquele não seja apenas mais um dos devaneios libertários de uma jovem matriarca cuja maior característica é não encontrar ambientação para si mesma, esteja onde estiver.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.


Beacon, de Christoph Girardet e Matthias Müller

por Marcelo Miranda

As facilidades tecnológicas e as possibilidades libertadoras do formato vídeo geram trabalhos como este Beacon, típico representante de um certo viés de cinema videoartístico cujo interesse está bem mais interiorizado do que transformado em trabalho de compartilhamento mínimo com o olhar do outro. Não que Girardet e Müller sejam incompreensíveis, mas é que a “viagem” empreendida por ambos – viagem literal, pois o curta nasceu de imagens captadas em dez lugares distintos, todos rodeados pelo mar – tem o ranço de um conhecimento pleno do mundo que se busca retratar, sem muita margem para que o espectador crie, ele mesmo, este mundo junto com os cineastas. A narração em off apenas potencializa a experiência quase frustrante, em palavras repletas de lugares-comuns sem poder mesmo de transmitir alguma noção para além da autoindulgência. Existe algo de intenso na indefinição das imagens mostradas em Beacon, disso não restam dúvidas, mas o filme, de fato, não parece acontecer.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH

Filmes Citados:

História Trágica com Final Feliz (idem, 2006/Regina Pessoa)

A Suspeita (idem, 1999/José Miguel Ribeiro)

China, China (idem, 2007/João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata)

Beacon (idem, 2002/Christoph Girardet e Matthias Müller)