por João Toledo

Curtas Série 1: Medo do Escuro, O Vampiro do Meio Dia, O Elétrico Jardim da Escuridão, Duas Fitas e Não me Deixe em Casa

Medo do Escuro, de Cauê Brandão

por Gabriel Martins

 

Existem filmes que são realmente estranhos. Fazem algumas escolhas erradas em vários aspectos, de atuação à composição, mas conseguem mesmo assim despertar algum tipo de relação intraduzível com o espectador. Medo do Escuro é um exemplo. Tem problemas de atuação, aborda a violência familiar de maneira óbvia em certos momentos (a mão do pai no ombro da filha), mas, mesmo assim, cria certo climão – reforçado e muito pela bela escolha de ator para fazer o pai da família – que nos suga de volta para dentro do filme mesmo quando ele insiste em nos afastar. Os quadros fixos são bastante responsáveis por isso no momento em que eles deixam de ser uma opção narrativa para serem verdadeiros instauradores de suspense através do passado das personagens que é colocado nos bizarros olhares. Com opções estacionadas entre o óbvio e o sutil, Medo do Escuro é um objeto estranhíssimo e desconfortável sendo, exatamente por isso, relativamente interessante.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

O Vampiro do Meio-Dia, de Anita Rocha da Silveira

por João Toledo

 

 

vampiro

Verão. Um garoto parece deslumbrado com a imagem da menina que dança à distância. Sua observação é lasciva. Aos poucos, essa lasciva se desdobra em diversas outras imagens que exercem uma mesma força atrativa no garoto. O corpo molhado; o suor que dele escorre parece destacar-se de seu contexto, do corpo, seja ele qual for, e torna-se símbolo involuntário daquele processo de descoberta de uma sexualidade latente. O calor desperta, especialmente nas viagens de ônibus do garoto enquanto volta da escola, um incontrolável ímpeto de desejo que parece transcender a razão, como se se tratasse de uma lei física anterior a qualquer processo de escolha racional.

O filme produz um discurso fragmentário que parece se amparar na potência simbólica do fragmento e nas significações oriundas de sua ordenação; nesse sentido, remete à montagem dialética de Eisenstein. O filme dá grande importância ao recorte, ao detalhe e a noção do todo só se dá a partir da montagem – que faz uso de uma série de procedimentos que tornam transparente essa manipulação, que chamam a atenção para o aspecto construtivo do filme, como, por exemplo, o processo de matização que se repete. Há algo de interessante na forma como esses símbolos se constroem, pois não se apóiam em elementos óbvios, e constituem uma série de enigmas que são ao mesmo tempo compreensíveis e indecifráveis – os balões vermelhos que pairam no ar em contraponto com o balão d’água, os exercícios de escola comentando vagamente a relação do garoto com seu mundo e etc.

No entanto, a partir de determinado momento, os procedimentos de montagem de certa forma se esvaziam na repetição e perdem a força ao se tornarem não mais um escancaramento excessivo de um método, o que por si só não diz muita coisa. A construção deixa, portanto, de significar e se torna refém de um maneirismo auto-referente, mas nunca auto-reflexivo. O final, no entanto, resgata alguma empatia ao levar o garoto a um reencontro com a menina que dançava no começo do filme. Cria-se uma relação entre os dois que não necessariamente pode ser partilhada ou compreendida por nós, pois ela pertence a um universo muito específico da juventude; chega a ser constrangedora, um pouco patética, mas atravessada por uma afetividade bonita, compartilhada por dois olhares que parece atravessar as mesmas angústias, incertezas e pulsões.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Elétrico Jardim da Escuridão, de Mariana Campos

por Gabriel Martins

 

Mariana Campos faz uma escolha arriscada ao conceder a montagem de seu filme a CarlosMagno. Atualmente já bastante consolidado por seu estilo específico, seria quase inevitável uma expressão bastante sua em algum filme que botasse a mão (e este não é o primeiro), principalmente na montagem, que é onde seu material bruto vira seu filme. Ao mesmo tempo, Mariana consegue fazer algo bastante seu e, mais que isso, bastante feminino. Se de um lado CarlosMagno pesa na forma, Mariana se impõe com o seu corpo, com seus fluidos, com sua intimidade. Um belo encontro: Mariana se expõe na história de vida e nas imagens enquanto CarlosMagno se expõe como montador. Duas pessoas falando de algo terceiro que é bastante inexato – como o amor. E neste cinema-amor, Magno continua discursando sobre imagem, memória e morte, encontrando em Mariana uma espécie de resposta física ao seu dizer sobre as imagens, trazendo no filme o “algo” materializado: cartas, bilhetes e artefatos que simbolizam algo perdido.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Duas Fitas, de Lucas Camargo de Barros e Felipe Miguel

por João Toledo

 

Erguido de um curioso rigor estético e de uma secura emocional minimalista, Duas Fitas acompanha alguns dias na vida de um garoto, entre os universos da casa e da escola. Trata-se de um enigma em vários níveis. Há alguns planos que não se pode compreender o que são, até que alguma luz acenda e nos revele as formas ocultas nas sombras; há também movimentos de câmera como um travelling que não parece ter destino algum, não opera sob a égide do sentido; há ainda acontecimentos que permanecem ocultos e misteriosos, e não encontram qualquer explicação, como a morte do colega; e há ações que não constroem necessariamente nenhum discurso sobre o personagem, como por exemplo a forma como o garoto acorda subitamente durante a noite, ou de como pega fitas a mais para si quando vai à casa do coleguinha.

 

O curta parece sempre bastante interessado em investigar esses gestos mínimos sem necessariamente criar uma teia de sentido com relações de causa e efeito. Não se trata de abstração, mas do exame curioso de um universo codificado, impenetrável. E é delicioso observar esse universo sem se sentir guiado em qualquer instância, sem sentir que cada ação levará a algo posterior ou que as imagens existem por função narrativa, e que chegarão a um momento que as justificará. Nada. Um filme que te deixa livre para passear por entre suas imagens, por todo seu mistério, e ainda te deixa perdido naquele universo ao mesmo tempo revelado e negado – um tipo de cinema-precipício, onde é preciso se jogar para jogar seu jogo sem regras. Alguns reivindicam sentido: comunicação objetiva é uma das grandes falácias da modernidade.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Não Me Deixe Em Casa, de Daniel Aragão

por João Toledo

 

nao me deixe

Em um delicioso preto e branco de contrastes acentuados – que parece existir muito menos em função da nostalgia de um cinema de outro tempo e muito mais por certa força de dramaticidade estética que a falta de cor empresta à imagem enquanto plástica –, o filme de Daniel Aragão constrói uma tragédia adolescente carregada de crueldade e agonia quase invisíveis. Daniel observa o cotidiano de um casal que se despedaça no momento em que uma imagem íntima dos dois se dissemina entre os colegas através da internet.

 

Mas, ao invés da recorrente adesão superficial ao universo da juventude e aos seus signos mais óbvios e coloridos, Daniel constrói uma tragédia que, apesar de absolutamente atravessada pelos códigos desse universo e dependente das ferramentas modernas (que são elemento central no enredo), se constitui com um rigor formal distante, uma frieza bastante cruel e crua, sem outra intenção que não a de observar. Não se empreende qualquer compreensão ou explicação; a imagem exterior dos personagens surge como possibilidade de uma percepção das sensações tantas que os personagens atravessam. A ferramenta digital não está nunca ali em função de um discurso sobre seu universo e seu uso, mas como um meio que nos possibilita transitar pelo universo de contrastes dos dois amantes. O uso da elipse no filme também tem um importante papel na percepção sensorial; a transição é sempre abrupta entre um sentimento e outro. Entre frustração e raiva, expectativa e decepção, amor e ódio, inveja e deleite, há apenas um corte seco. O filme, nesse sentido, não nos permite nenhum tipo de fruição suave.

 

Entre os cortes, a observação rigorosa e a falta de cor, nos resta a sensação de um ambiente ríspido, que, apesar de existir em meio aos excessos de informações e ferramentas de comunicação, é pleno de ruídos, mal entendidos, impossibilidades de expressão, incomunicação. O acesso ao universo íntimo daqueles seres é impossível, eles próprios parecem duvidosos de suas escolhas. A sensação de uma certa crueldade predomina, mas as ações não são jamais julgadas – parecem menos decisões e mais impulsos incontornáveis. Assim como parece incontornável aquela solidão.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Filmes Citados:

Vampiro Do Meio-Dia (Idem, 2008/Anita Rocha da Silveira)

Não Me Deixe Em Casa (Idem, 2009/Daniel Aragão)

Duas Fitas (Idem, 2009/Lucas Camargo de Barros, Felipe Miguel)

Medo do Escuro (idem, 2008/ Cauê Brandão)

O Elétrico Jardim da Escuridão (idem, 2009/ Mariana Campos)