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por João Toledo
Maradona, de Emir Kusturica
por João Toledo
Dizer que o filme de Kusturica sobre Maradona é esquisito já seria redundante mesmo antes mesmo de se ver o filme. O diretor, um claro apaixonado por futebol, vai atrás do grande ídolo argentino para descobrir se ali, naquele sujeito, havia um filme possível. Nesse processo que se desenvolve às claras, onde tanto os momentos em que fracassa quanto os em que triunfa estão em cena, Kusturica busca descobrir seu documentário na figura mítica do grande jogador, mas busca, talvez ainda mais, compreender o homem Maradona, este ser cercado de representações, de camadas de imagens, de mitos, lendas, até seitas.
Em alguns momentos, chega a lembrar Michael Moore por sua abordagem pessoal e por como intervém na realidade, encenando as próprias impressões de maneira a construir uma visão sua daquilo tudo, por narrar sua versão, construir um discurso – com a diferença fundamental de não estar operando (e distorcendo bruscamente a realidade) com intenções morais e políticas, e de ser bastante carismático. E é justo esse carisma do diretor, e uma paixão que a todo tempo busca justificar, com uma retórica fecunda, a figura de Maradona (suas escolhas, sua potência, seu lado heróico e revolucionário) que tornam o filme uma jornada algo curiosa. Claro, não há qualquer endeusamento da figura mítica; não se deixa de desmascarar sua persona, a faceta ator de Maradona, nem se deixa de lado a ingenuidade política do homem que não relativiza nada, e se põe ao lado de um Hugo Chávez para discursar contra o imperialismo do governo Bush – e talvez por isso mesmo seja um filme sem muita sutileza, por exemplo, na vinheta animada, no uso insistente da música dos Sex Pistols, na repetição constante dos gols como se representassem um caminho de superação e força revolucionária.
Claramente deslumbrado por aquele universo, e francamente incapaz de se separar dele, Kusturica acaba por fazer também um filme sobre si próprio, sobre sua paixão e seu carinho ao abordar um de seus ídolos. Ele se implica completamente, se desmascara enquanto busca desmascarar o jogador. E se ele se perde nesse caminho e faz um filme um tanto desigual na sua abordagem de Diego Maradona, nós, do outro lado da tela, o encontramos, encontramos Kusturica, de alguma forma. E vendo os dois de tão perto, confesso que fiquei com mais vontade de conhecer o diretor que o jogador.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Filmes Citados:
Maradona (Maradona by Kusturica, 2008/Emir Kusturica)







