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por João Toledo
Embarque Imediato, de Allan Fitterman
por João Toledo
Curioso eu ter ido parar, por acaso, na sessão de Embarque Imediato, um filme absolutamente alienígena, tanto dentro do restrito universo da minha seleção pessoal de filmes a serem vistos no Festival do Rio quanto dentro da cinematografia nacional recente. De tão inesperado o choque, fiquei absolutamente perdido após a sessão, sem saber bem o que fazer; se escrever ou deixar que a experiência do filme simplesmente suma na memória, deixando que o tempo se encarregue de seu esquecimento. Mas resolvi que talvez umas breves palavras pudessem dar conta do expurgo do constrangimento vivenciado, sem deixar também que o esquecimento seja pleno, elevando esse filme à condição de exemplo máximo da absoluta precariedade da relação de construção de uma cena, uma narrativa, um filme.
Se reclamávamos até a pouco do constrangedor conservadorismo cênico das recentes comédias da Globo, de sua narrativa obsoleta e claudicante, de sua estética perdida entre a entravada abordagem novelesca e o que de mais genérico o cinema americano exporta, e ainda refém de formas e fórmulas e padrões de qualidade, agora não temos sequer o conservadorismo como inimigo, não temos sequer o genérico e o banal como exemplos da pobreza criativa. Temos algo completamente novo; o absoluto embaraço de algo que não funciona em nenhum nível. Não dá sequer para entrar nos ‘méritos’ técnicos, de descuido, pois esse é o elemento que menos importaria se existisse por trás uma idéia e um cuidado com a criação.
A aberração se explicita logo na seqüência inicial, quando um sem número de cortes e fusões com efeitos visuais bizarros tenta construir elipticamente a fuga clandestina de dois jovens funcionários do aeroporto em um vôo para Nova York. O problema é que a soma dos planos nunca resulta no total da cena, o filme não chega a nos permitir uma clareza do plano de fuga dos jovens. A confusão desse breve momento se alastra por todo o filme como uma praga, e tudo o que vemos é uma incompreensível seqüência de cenas que não encontram razão de existir.
O exagero da comédia (como na cena em que Marília Pêra faz exercícios em sua casa) esvazia completamente seu sentido e deixa na cena apenas o ridículo do gesto de esforço dos atores por extrair humor de um momento que o filme não constrói, e que muitas vezes não faz sentido lógico algum. De cena em cena, parece que entramos em um novo filme. E não se trata aqui de um descuidado com uma proposta complexa onde a narrativa é elemento desimportante, rarefeito ou da ordem do absurdo; trata-se de um filme cujas pretensões estão em, através de um roteiro muito explicitamente construído (ainda que porcamente construído), propor um humor rasgado sem deixar de lado as questões sociais e o encontro entre dois universos sociais distintos.
Dentre seus muitos problemas, talvez esse seja o mais grave, o mais insolúvel, o de acima de tudo levar a sério sua trama, seus conflitos, o de ter pretensões grandes, de almejar algo além da simplicidade, da repetição, da entrega ao gênero e seus pressupostos. Não que isso por si só seja um problema; sair do comodismo babaca repetidor pode bastante refrescante, mas o filme quer ser tudo o que não é, e parece incapaz de chegar lá, sobretudo por sua completa falta de talento de encenação e possivelmente total desconhecimento cinematográfico. Não lembro de ter visto nos últimos vários meses uma montagem tão descuidada e brusca, uma atuação tão forçadamente burlesca e excessiva, um roteiro tão simultaneamente desarrumado, patético em seu pretenso humor e apelativo em seu pretenso drama. Todo o conceito que rege o filme, o da fuga do garoto pobre para Nova York em busca de ascensão social, demonstra o quão frágil é o argumento do filme, o quanto depende de uma série de artifícios para esconder seu vazio conceitual, sua amarga lição de esperança. Essa coisa de subir na vida me lembra de A Mulher de Todos, do Sganzerla, me lembra das experiências com balões tripulados do Dr. Plirtz. Ora, se a idéia é subir na vida, subam de balão.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Embarque Imediato (Idem, 2009/Allan Fitterman)







