por João Toledo

Curtas: Mostra Competitiva - Programa 4

por João Toledo



Igbadu – Cabaça da Criação


O documentário antropológico de Carla Lyra busca principalmente na cultura musical pernambucana elementos de origem africana religiosa. Para chegar a essa raiz, Carla visita três terreiros, onde busca entrevistar e vivenciar um pouco daquela cultura. O filme mistura esses momentos de contemplação, entrevista e alguns interlúdios poéticos com animações quase abstratas, criando um ambiente rítmico que conduz a montagem de forma também abstrata e despreocupada.


O filme é, sim, interessante em sua infinita profusão de nomes e referências culturais africanas, mas se perde nesse excesso, pois se torna específico demais – o notável conhecimento relativo ao tema que Carla possui acaba por prejudicar o diálogo filme/espectador, uma vez que não se encontram as chaves para compreensão dentro da narrativa. A diretora pressupõe um conhecimento prévio, e por isso abrange um público mais restrito. É uma pena que um documentário etnográfico não consiga dialogar fora do seu contexto.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.


Vida Maria


Todos saíram da sessão apaixonados pela animação digital Vida Maria. O plano-seqüência que circunscreve a narrativa acompanha a vida de Maria José em diferentes fases de sua vida. Ao final, fecha-se o ciclo iniciado com sua mãe. Agora é a sua vez de tirar a filha dos estudos e levá-la à mesma vida, ao mesmo ciclo incessante pelo qual já passaram tantas outras marias.


A idéia é genial e belamente executada: Construção narrativa excepcional, elipses bem feitas, tudo lindo. Aliás, tudo um pouco lindo demais. O ambiente ali é alegre, cheio de cores, montanhas lindas e um céu cheio de vida. A trilha é recheada de sons que se propagam lindamente, arpejos executados com precisão e uma melodia limpa e harmoniosa, conjugada com o som de pássaros ao fundo. Acompanhando o conflito dramático, um violoncelo melancólico transforma a melodia, mas não perde em primor. Assim segue a história, que nos conduz com emoção ao fim, mas não sem causar um certo estranhamento ao privilegiar a beleza formal, com influências de desenhos da Disney, maquiando a essência primária do filme. São, no fim, peças que não se encaixam; naquele ambiente desgraçado, está tudo agradável demais.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.




Como a própria Mariana, diretora do curta, ressaltou ao aceitar o prêmio de melhor fotografia para o colega Eduardo Ades, a exibição da película 16mm foi bem desfavorável. A projeção, além de bem escura, estava sem foco. Mas já estávamos todos habituados a abstrair dos problemas, já que nas exibições em 35mm, o canto superior direito da fica sempre sem foco e o som lastimável dificultava a compreensão dos diálogos. Na verdade, para quem conhece a situação das salas de cinema brasileiras fora dos shoppings centers, sabe que esta realidade está longe de ser exclusiva daquele lugar. Precisamos sim reclamar, mas também procurar entender e enxergar o produto audiovisual através dos defeitos de uma situação não-ideal.

é um parente do filme Um Sol Alaranjado, de Eduardo Valente. É um filme de conclusão de curso, 16mm, preto e branco, singelo, que trata das relações familiares afetivas entre avô e neto no convívio da casa. Mas é um parentesco muito distante, aquém em todos os aspectos de sua construção. Após uma briga, avô e neto buscam se reconciliar, mas permanecem silenciosos. Procurar expressar o perdão alheio através da escrita, ou mesmo da música (elemento que une ambos), mas nunca conseguem avançar para além da nota . Sofrem em silêncio, até que a morte do avô desarma o neto e acaba com qualquer possibilidade de perdão. O filme, que nada mais é do que um exercício bonitinho e bem construído, termina como uma pequena fábula cuja moral é: não perca as chances de dizer o que realmente pensa, pois nunca se sabe o que vai acontecer.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.


O Labirinto

 

Estamos, logo no começo do filme, em um ambiente completamente escuro. Uma porta se abre, deixando que entre um pouco de luz. Uma mulher de saltos entra devagar. Mais tarde, voltamos a essa mesma cena para ver as portas se fechando atrás da moça, relegando-a à escuridão plena. O filme-caos de Gleyson Spadetti possui uma estrutura não linear que busca construir a narrativa através de sensações. Ele possui clara influência de David Lynch, principalmente nos momentos em que tenta construir uma lógica circular, momentos de reencontros, além de exageros estéticos com função de causar estranhamento no espectador.


O problema é que, ao trabalhar essa lógica do pesadelo, buscando, através das imagens e sons, perturbação e transtorno, o que ele encontra é um universo muito complexo, que demanda controle absoluto da construção. Nesse sentido, o caos do Lynch não poderia ser mais organizado e controlado. Não se trata da simples profusão de imagens atordoantes, mas uma elaboração de sensações – coisa que o curta não constrói bem, pois não se aproxima o suficiente da personagem, nem cresce ao longo da narrativa; ele já nasce extremo e permanece num tom alto de suspense por todo o filme. Aos poucos, montamos o quebra-cabeça que, afinal, é o pouco que nos resta fazer diante de um filme que só não é mais imaturo que pretensioso. A moça (possivelmente uma atriz), que fora seqüestrada por um fã psicótico, tenta fugir, escapar daquele ambiente horrível de pesadelos. Nesse espaço-tempo da fuga, ela encontra consigo mesma num ambiente que mistura passado e presente, verdade e representação; ali, diante de si, ela não mais se reconhece, já não é mais a mesma mulher de antes do pesadelo. Ao reconhecer sua essência perdida, ela tira sua própria vida. Remetendo ao início, as portas que se abriram agora se fecham. E assim termina, tanto a vida da moça quanto o curta.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.



Náufragos

Náufragos é certamente um filme antes de ser uma história – e nisso, nesse simples aspecto de não poder ser nada além de cinema, de não funcionar como nenhum outro tipo de expressão artística, ele já merece algum respeito. Náufragos não se refere ao personagem abordado, mas à sociedade que abriga o personagem, e que naufraga em sua essência mercantilista e cada vez mais individualista. Um paradigma que ele parece herdar do cinema marginal de Sganzerla. Além disso, o cunho político explícito da narrativa, o caráter essencial de deflagração social, despreocupado com a linha que divide documento e ficção, despreocupado com verossimilhança e evolução clássico-narrativa, cria uma lógica que se aproxima dos pensamentos cinemanovistas; outra referência clara.


Tudo vai muito bem com sua construção impiedosa e alucinada, embebida de uma verve raivosa que se extingue aos poucos, à medida que o personagem se encontra e se entrega a um estranho culto de comunhão com a natureza e com o homem aparentemente livre do peso de uma sociedade regida pela lógica financeira. Porém, é a partir dali que passamos a ouvir um discurso político que ilustra a narrativa de maneira óbvia. Ouvimos a tudo enquanto o personagem passeia por entre os lugares libertos do aprisionamento sócio-econômico retratado no início do filme; são prédios ocupados, transmutados em comunidades alternativas onde se preza pelo ser humano e por seu conjunto social; algo que a própria presença dele ali já expressava, tornando mais do que desnecessária a parole. Apesar da força do discurso, o filme perde muito da potência da imagem – algo que ele demonstrava, por exemplo, na seqüência da discussão entre a enorme cabeça do “diretor”, e o protagonista diminuído pela opressão do poder. A construção toda se enfraquece para, em seguida, morrer, quase como se não tivesse sido mais que uma tentativa de ilustrar aquela voz. O filme não consegue, ao final, manter a mesma força do começo, mas certamente não naufraga. Fica no meio do caminho.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.

 

Filmes Citados:

Igbadu – Cabaça da Criação (Idem, 2007/Carla Lyra)

Vida Maria (Idem, 2006/Márcio Ramos)

Dó (Idem, 2007/Mariana Coli)

O Labirinto (Idem, 2007/Gleyson Spadetti)

Náufragos (Idem, 2006/Leandro Pinto)