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por João Toledo
Curtas: Mostra Competitiva - Programa 3
por João Toledo
Sumidouro
O documentário mineiro Sumidouro abriu a primeira sessão de curtas que eu pude presenciar. O novo encontro com a Camisa Listrada, produtora deste e de outro documentário sobre o qual eu já havia escrito, o Descaminhos, me trouxe sentimentos muito parecidos; ao mesmo tempo uma vontade de me entregar e imergir no filme pelo tema abordado, e uma sensação estranha de desconforto ante a estetização e a constante interferência no caminho entre retrato e o espectador. Há sempre muita informação mediada, deixada no meio da estrada que nos liga ao filme, impossibilitando um encontro mais real e mais direto. No meio do caminho tinha uma pedra, já dizia o velho Drummond.
O filme de Cris Azzi se constrói a partir de algumas visitas feitas às comunidades de Porto de Coris e Peixe Cru a fim de documentar um processo de mudança que as levará para longe do leito do rio, uma vez que todo o vale será inundado pelo reservatório da usina hidroelétrica de Irapé. O filme busca um trajeto não só da mudança física da comunidade, mas da mudança na forma de enxergar as transformações. Narrativamente, ele é muito interessante, elabora um percurso que acompanhamos com interesse, mas, ao mesmo tempo, faz uso de recursos simplórios de um didatismo desnecessário, como as legendas que acompanham as imagens, revelando a religião das comunidades entre outros detalhes que a própria imagem já expressava.
Mas o que realmente chama atenção é o ritmo e a estetização exacerbada do universo documental, sobre o qual a abordagem das entrevistas demonstra pretender uma certa fidelidade. Não é isso, no entanto, que expressam as imagens. O uso constante da grande-angular, principalmente nos planos de movimento panorâmico ou no uso da steady-cam, distorcem profundamente o ambiente, e mostram uma realidade já alterada pelo verniz estético do filme. Os flashes entre planos, os jump cuts, a imagem acelerada, tudo parece estar em desarmonia com o ambiente quieto, pouco movimentado, resignado e contemplativo – um ambiente que, espero, esteja melhor contemplado no longa-metragem que sairá deste curta. O fato de os personagens nunca falarem para a câmera e de suas vozes aparecerem sempre em off evidencia o interesse por uma imagem antes estética que ética; um interesse pelo filme que é anterior ao interesse pelo objeto retratado. E isso me remete ao universo da ficção, que talvez devesse ser mais explorado pelo pessoal da Camisa Listrada.
*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.
Residual
Um casal nu na penumbra de um quarto, deitado sobre uma enorme cama de lençóis vermelhos, conversa sobre o tempo, o tempo que tudo leva – e no final, diz o rapaz, não resta nada. Aos poucos vamos percebendo que aquele encontro é fruto justamente dos resíduos de um relacionamento; daquilo que o tempo não conseguiu levar. E somos levados por aquele casal por entre momentos do passado que deixaram marcas e que vêm à tona em busca de alguma resolução. O filme se constrói inteiro dos flashbacks, um recurso comumente usado de forma demonstrativa e explicativa demais, mas que o filme consegue conduzir quase como uma narrativa paralela, sempre evocando o caráter de memória, transmutando o passado em algo que ele não foi, mas é na lembrança das personagens.
Todo o desgaste do relacionamento passado ressurge nos resíduos de memórias, ressurge na tristeza, no rancor e nas coisas das quais eles não estão dispostos a se livrar. O encontro encontra um fim justamente na memória desgastada; torna-se desencontro enfim, e retorna ao momento da escolha que fazem na escada rolante. Agora, o rapaz já não sabe mais se vale a pena perseguir o passado. Ele decide não voltar. O filme possui uma construção simbólica rica, uma narrativa bem construída que segura o uso de flashbacks, e, no entanto, faz uso de um preto e branco que remete ao passado desgastado de maneira muito frágil e óbvia – algo desnecessário que, em um filme pior, soaria como um recurso didático, que subestima a capacidade de compreensão do espectador. Mesmo não sendo este o caso, o recurso é dispensável e muito menor quando comparado às qualidades do filme.
*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.
Balada das Duas Mocinhas de Botafogo
É estranho assistir a um curta que, ao mesmo tempo, consegue ambientar tão bem a poesia na narrativa, mas não consegue se livrar da poesia para ser o que escolheu ser: um filme. O curioso é que, me parece, o filme se sustentaria sem a poesia. Não que o texto ou a leitura sejam ruins – o texto é fenomenal, mas gera conflito com a imagem, concorre com ela, disputa a atenção do espectador e nos obriga a ver aquilo que a palavra descreve, não deixando que extraiamos dali nossas próprias poesias.
Felizmente, este é o único aspecto mal resolvido do filme. De resto, há um esmero na fotografia que sempre carrega a cena de sentimentos bem particulares; a asma da mãe não é só um recurso da personagem, mas se apresenta no ambiente sempre sufocante daquela casa morta, passada, sem redenção. O pesadelo, a boate, a alvorada na calçada, e todo o silêncio que deixa a imagem expressar através das meninas e do ambiente toda a entrega vã e o sofrimento solitário das irmãs Marina e Marília. Elas seguem (por entre as lindas cenas e a tênue trilha musical) sua busca por algo que as faça sentir qualquer coisa, mas nada encontram além de sofrimento e rejeição; elas só têm uma à outra. Assim, se descobrem, recolhem seus últimos afetos e caminham, pela última vez, na direção das luzes noturnas. Elas procuram uma saída. E encontram.
*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.
Nó-de-Rosas
Iludida por uma noção de conservadorismo e pudor diante da abordagem do tema “orgasmo feminino”, a diretora Glória Albues constrói seu Nó-de-Rosas, sobre uma mulher que não consegue gozar. Esqueceu-se, talvez, que hoje em dia novelas não sobrevivem sem a presença constante de sexo, ou que a MTV se tornou, em grande parte, um tele-curso sexual, ou mesmo não deve conhecer a série Sex and The City, basicamente sobre a relação da mulherada com o sexo. Nada disso diminuiria a importância ou a beleza de uma obra que tratasse do assunto com riqueza cinematográfica e com a sutileza que o tema demanda.
O filme de Glória se pretende complexo quando, mais próximo do fim, desconstrói a narrativa clássica e embarca na subjetividade da mulher que busca por si mesma em sua ancestralidade, mas a pobreza na construção da mise-en-scène, a pieguice da ambientação exageradamente construída e enquadrada, como um cenário teatral, tudo remete à imaturidade da obra, que além de mal resolvida visualmente, possui seqüências vergonhosas de um simbolismo nada sutil. A lhama e a romã que o digam. Mas, pior que o mal gosto patente na representação imagética, é a narrativa imatura, pouco segura, que faz uso de diálogos terrivelmente explicativos. O casal, que ao que tudo indica já é casal há um bom tempo, conversa sobre coisas que necessariamente já teriam conversado àquele ponto. A mulher conta o caso da morte da mãe como se revelasse aquilo pela primeira vez. Tudo é vergonhosamente inverossímil e sem sentido – e está ali em função de uma necessidade de explicar para o público os motivos da dificuldade de se chegar ao orgasmo. É um filme que, por trás da suposta complexidade da desconstrução narrativa, esconde um caráter didático dos mais bobos e malfeitos.
*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.
Bárbara
Minha relação com o curta-metragem, eu poderia dizer, é próxima da minha relação com a poesia; é preciso tempo para encontrar o tempo das respirações, para encontrar o ritmo da narrativa e com ele acompanhar o desenvolvimento da história, caminhando com segurança ao seu lado, é preciso uma reprise (ou várias) para que os detalhes ganhem relevância e os personagens se solidifiquem nas minúcias despercebidas das primeiras visitas. Talvez seja este o caso de Bárbara, filme de Carlos Gradim, inspirado no conto "E a situação, como é que está?", de Edmundo de Novaes Gomes. Reconheci sua beleza e complexidade, e fiquei com receio de cometer uma injustiça com uma obra tão cuidadosa.
Percebe-se que aquilo ali é uma cena de sexo; os sons a evocam, mas a imagem desfocada remete à confusão do personagem, à incerteza de se estabelecer por completo, e nos deixa perdidos no centro de uma ação ainda sem rosto ou personalidade. As imagens, que não seguem um padrão lógico ou linear, se mostram e ilustram, como lembranças, a narração do personagem, que parece brotar de um turbilhão de pensamentos acerca daquele dia. Bárbara, um homem alto, magro, de olhar intenso, veste sua calcinha no quarto de um hotel. Um homem mais velho veste suas calças; mais tarde entenderemos que aquilo pode ser uma forma inconsciente de vingança. Numa visita sua ao pai, talvez a única e última, desvendam-se os rancores de uma relação triste e distante, cujas mágoas acumuladas o tempo não pode dissolver. Incomunicável, graças à sua doença terminal, resta ao pai o olhar colérico, que acompanha o filho, ou filha, durante toda a visita.
Durante todo o filme, exala do personagem uma segurança plena quanto às suas decisões, quanto ao seu corpo, quanto à sua personalidade; por outro lado, o universo a rodear Bárbara é sempre frio e não a acolhe em sua diferença. Também em seu mundo particular, na intimidade do quarto de hotel, está sempre presente alguma interferência: o vermelho aconchegante que a abriga é sempre contraposto a luzes frias vindas da janela ou de outros ambientes, o que denota algo mal resolvido. Esse aspecto do personagem – que colocado na sua boca soaria no mínimo simplista, além de diminuir sua complexidade – é resolvido com uma fotografia primorosa que trabalha cada plano detalhadamente, sempre em sincronia com a direção de arte. Ela explora bem as situações de penumbra, iluminando apenas o foco da ação dramática e induzindo nosso olhar para os detalhes (fumaça do cigarro, vermelho dos olhos do pai etc.).
A direção segura não só constrói apenas belos planos que se entrelaçam numa narrativa fluida, mas também é coerente em sua fragmentação, retratando pensamentos e lembranças sem nunca se deixar perder em confusão imagética. O trabalho de Carlos Gradim – rapaz oriundo do teatro – se destaca também no lido com o ator. Ele parece conhecer bem as especificidades do cinema, trabalhando a expressividade de seus atores, muitas vezes em planos fechados, sem nunca tornar caricato o personagem travestido.
Ao final, Bárbara assiste a uma cena da janela do hospital. Ela observa aquilo com um carinho pesaroso, e, talvez, com um pouco de inveja. O amigo do pai, com quem conversara durante sua visita, se despede da filha, funcionária do hospital, com um beijo na testa. Em uma rima visual ao avesso, Bárbara limpa a testa suada do pai, por onde exala sua vontade de esbravejar seu ódio inútil; o pouco que lhe resta. Bárbara não sente mais medo do pai, nem vergonha. Ali, ela encontra superação.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
Sumidouro (Idem, 2006/Cris Azzi)
Residual (Idem, 2007/Sérgio Raposo)
Balada das Duas Mocinhas de Botafogo (Idem, 2006/João Caetano Feyer, Fernando Valle)
Nó-de-Rosas (Idem, 2007/Gloria Albues)
Bárbara (Idem, 2006/Carlos Gradim)







