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por João Toledo
Descaminhos
por João Toledo
É bom ver produtoras mineiras que têm crescido e se interessado por esses caminhos (ou descaminhos) do cinema. A Camisa Listrada apresenta este que é seu segundo longa-metragem e repete a idéia de um todo formado por trechos complementares. Descaminhos, ao contrário de Cinco Frações de Uma Quase História, é um documentário, e passeia por histórias de pessoas e lugares parados no tempo, esquecidos pelas ferrovias abandonadas e deixados em um passado que o tempo vem deteriorando e deixando esquecidas a esperança e a prosperidade de outrora.
São seis episódios seguidos que supostamente deveriam se unir pelo tema e enriquecer um ao outro, fortalecendo a idéia dos descaminhos, do abandono, da decadência. No entanto, em algum momento o trem do filme parece descarrilar. Se esse descaminho do filme é proposital, na tentativa de ser coerente com seu tema, já não se pode saber. Existe no filme um excesso de diversidade, que acaba por criar uma obra dispersa, um tanto sem unidade, que não se fecha. Falta algo que conclua todas aquelas informações soltas e aquelas estéticas díspares; não há uma confluência e os filmes nunca dividem espaços ou chegam a um lugar em comum. Talvez por não enxergarem o objeto de análise da mesma forma.
O primeiro episódio, apesar de um texto que nunca esclarece sua virtude documental, e que, em alguns momentos, emperra na sua narração monotônica, abre bem o filme com sua viagem histórica por trilhos e caminhos abandonados. A imagem hipnótica dos trilhos nos faz embarcar no filme e em seu potencial enquanto exploração daqueles lugares largados. Entretanto, os filmes subseqüentes acabam revelando algumas armadilhas em sua construção – a potência da imagem parece ter sido subestimada por seus realizadores.
Existe, na maioria dos episódios (principalmente no segundo e terceiro), um virtuosismo estético que desfavorece o discurso na medida em que vai de desencontro com a temática do abandono. A belíssima fotografia revela aquelas cidades visitadas em planos tão lindos que não há quem não queira se mudar para aquele lugar, só para passear pelos trilhos do trem enquanto assiste ao pôr-do-sol. A beleza se sobrepõe ao tema e as falas das pessoas entrevistadas ficam sempre em segundo plano. Por outro lado, nesses mesmos trechos problemáticos, é possível encontrar virtudes e acertos, que ainda nos prendem ao filme, na esperança de um aprofundamento temático.
Em vários momentos, por exemplo, vemos pessoas quietas, detalhes de suas roupas ao vento, suas mãos passeando pelo espaço. Assistimos também aos quartos vazios de uma estação abandonada, paredes rachadas, janelas quebradas; todas essas imagens sobrepostas por depoimentos daquelas pessoas, daqueles moradores que ainda resistem à decadência. É como se aquelas não fossem vozes das pessoas dali, elas parecem funcionar como ecos oriundos de um tempo sem volta, preenchendo com sua amargura e desesperança a totalidade dos espaços abandonados. São vozes que se repetem em vários dos caminhos traçados, formando um coral que reverbera sua melodia dolorida. E esse coro parece ser a única coisa que as une, já que o trem ali não passa mais.
Já no quarto episódio, a forma com que o filme é apresentado nos tira constantemente daquela realidade: os movimentos bruscos e imagens em fast-foward entram em dissonância com aquele lugar pacato, onde não passa o trem nem o tempo. Em seguida, uma série de imagens tortas, que de alguma maneira tentam representar o abandono e a ruína daquele lugar, explicitam e tornam óbvia sua tentativa, tornando o discurso redundante e cansativo.
Os episódios terminam. E sempre que se inicia um novo, é preciso se reencontrar no filme e descobrir novamente seu ritmo. Isso causa certo cansaço. Essas quebras entre um episódio e outro são como brochadas - nunca se chega ao clímax; o filme não nos permite embarcar completamente em seu desenvolvimento. Mas se olharmos separadamente, o penúltimo episódio (que, na minha opinião deveria ser o último), de Leandro HBL, é o que melhor se fecha e se conclui enquanto narrativa.
Ele acompanha, silencioso e sem interferência direta, a trajetória de um homem, munido de sua enxada, a caminho da cidade: retrata o descaminho no próprio caminho, a ilusão de uma melhora de vida no êxodo para o mundo urbano e o trajeto de um trem que leva embora toda a vida daqueles lugares, abandonando para trás o próprio abandono. No trecho entre o rural e o urbano, assistimos aos devaneios sem sentido de um homem que parece ser fruto daquele meio e representa bem a loucura e a incoerência, tanto de quem fica quanto de quem vai embora. Ele é o caminho, o trecho do trem que separa realidades tão próximas geograficamente e tão distantes do ponto de vista social. O veículo que une essas realidades não consegue abrigar a razão, daí a metáfora precisa do homem louco. Com a chegada desse homem rural à cidade grande, o filme teria uma bela conclusão, já que começou partindo para o interior e adentrando aquele seu passado esquecido. Seria como o fim de um ciclo. Entretanto, o filme continua.
O último trecho talvez seja o pior deles: ainda que outros também padeçam do mesmo problema, o impacto é mais claro. Existe um excesso de viagens, excesso de lugares, excesso de pessoas e nunca se consegue encontrar algo que penetre aquela primeira camada mais superficial. Isso parece resultado de um certo desinteresse humano e por tudo o que eles têm a dizer. O que ocorre é apenas a retratação de uma realidade através de algumas imagens, discursos diretos, mais viagens, tudo para chegar a nada e a lugar nenhum. O episódio que fecha o filme tem cara de filme institucional, e é, certamente, a brochada final.
Apesar de sua dispersão narrativa e das quebras proporcionadas pela mudança episódica, Descaminhos é um filme interessante, principalmente em sua tentativa. Ele se aproxima de uma realidade, mas parece não conseguir penetrá-la. Não há nada de errado com um filme contemplativo que apenas observa uma realidade à distancia; o problema aqui é de outra ordem. É o de um filme que pretende mergulhar no seu tema, mas que apenas simula esse mergulho. Em alguns momentos, consegue essa profundidade, em outros traz elementos narrativos muito ricos, mas acaba pecando sempre pelo excesso; excesso de narradores, de viagens, de planos, de episódios e de realizadores.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
Cinco Frações de uma Quase História (idem, 2006/Armando Mendz, Cris Azzi, Cirstiano Abud, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia)
Descaminhos (idem, 2007/Marília Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, João Flores, Maria de Fátima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud)







