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por João Toledo
Curtas - Série 3 – Anônimos Ilustres
O Desafio de Zezão
por João Toledo
Talvez este pequeno documentário não mereça sequer um dos parágrafos que lhe serão dedicados. Uma pseudo-obra que exerce o estranho papel de revelar aquilo que, supostamente, foi feito para permanecer na penumbra do esgoto. Inicialmente, vemos uma longa explanação sobre os perigos dos trabalhos em galerias subterrâneas, sobre a absurda confluência de doenças, gases tóxicos, radiação e tudo mais quanto há de podridão. Uma moça discursiva, carinhosamente apelidada de Mortícia Addams, conta que, normalmente, quando algo dá errado nesses ambientes inóspitos, não existe meio termo; a pessoa morre e pronto. Esse preâmbulo, que deveria servir para demonstrar a coragem do personagem, só deixa mais claro toda a estupidez do desafio. O discurso aqui construído parece sintomático de uma sociedade contemporânea fascinada pela transgressão, e pela exposição da própria transgressão enquanto expressão de valor.
Em seguida descobrimos de fato quem é Zezão. O grafiteiro do submundo, que há anos desenvolve sua arte invisível, desafiando os perigos e a morte com o intuito de expor sua logotipia para os ratos e baratas que sobrevivem ao fluxo de lixo. O documentário, que quase não dá voz ao personagem-objeto, o acompanha em uma noite, entre as galerias escuras do esgoto, em busca da locação perfeita. A equipe leva equipamento de luz, mas, propositalmente, faz pouco uso dela, distorcendo a realidade em função de uma tensão artificial que o documentário pretende criar. A dificuldade de locomoção, os entulhos estranhos no caminho, as surpresas que a galeria abriga; parecem todas coisas pré-concebidas de alguém que nunca pretendeu olhar para o real. O discurso, que já veio montado de fábrica, olha com admiração para tudo aquilo sem nunca de fato observar. O olhar viciado de quem já sabe de saída tudo o que vai dizer mantém Zezão ainda na obscuridade, onde, talvez, ele deva permanecer.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
No Rastro do Camaleão
por João Toledo
“Fazer documentário é mais fácil, mais prático e mais barato que fazer ficção”. Volta e meia tropeçamos neste que é o mais novo lugar-comum do cinema nacional. Eu ainda não sei bem o que arte tem a ver com praticidade, com valor financeiro ou facilidade, mas, ultimamente, me parece ser esta a motivação de quem constrói esses filmes-documento. Nada vai além da simples retratação de uma realidade escolhida a esmo. Das produções, emana uma gritante falta de interesse pelo sujeito, pela forma, e pela grandiosidade do documentário enquanto forma de expressão artística. Aos realizadores falta reconhecer a amplitude e a complexidade das possibilidades que ele abriga, para que não fiquemos assistindo sempre a variações de um mesmo filme que já não diz nada que se possa apreender.
Eric Laurence, diretor de curtas premiados (Entre Paredes e O Prisioneiro), fez este, que é seu primeiro documentário, com a verba de um prêmio recebido. Ele retrata o dia-a-dia dos irmãos Aniceto em sua relação íntima com a música e com performances que parecem mimetizar a relação do homem com a natureza, expressando as raízes da cultura cearense. Apesar de, em alguns momentos, apresentar essa relação de forma bela, Laurence, em seus parcos dezessete minutos, não apresenta mais que um amontoado de bonitas fotos sobre o homem simples do sertão, interagindo com seu meio. Nada nos é acrescentado. Hoje em dia, em meio à massiva produção documental voltada com seu olhar vesgo e sem questionamentos para o homem interiorano, o curta, infelizmente, não passa de um mero clichê.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Cabaceiras
por João Toledo
Lembro-me do discurso de Ana Bárbara sobreposto e de certa forma potencializado pelo de Vladimir Carvalho no 3º CinePort, em João Pessoa, enquanto, no município de Cabaceiras, a alguns quilômetros dali e naquele mesmo 5 de maio, inauguravam o monumento “Roliúde Nordestina” (nome que faz uma brincadeira com esta pequena cidade sertaneja que já foi palco de tantos filmes). A discussão quente se acirrava mais a cada vez que se manifestavam Ana e Vladimir, sempre ponderados por outrem sobre a importância mercadológica da inauguração daquela Hollywood nacional.
Por mais que ele ponderasse, nada salvou a discussão de abordar as contradições entre um nordeste que se mostra rico e cada vez mais capaz de se mostrar ao mundo em toda sua complexidade, e o nordeste do estereótipo monocultural, normalmente mostrado e perpetuado em filmes brasileiros que retratam uma realidade desconhecida com o preconceito de quem nunca se aprofunda na busca por algo mais real. O que os dois realizadores demonstravam era que a tal Roliúde que se inaugurava apenas reforçava a rotulação estrangeira e o olhar estereotipado: e isso no centro de uma cidade que é o perfeito cenário do sertão seco e, aparentemente, pobre, sofrido e atrasado.
Muito além do discurso veemente (e, por horas, pedante) de Vladimir, o filme de Ana Bárbara consegue estabelecer um diálogo entre essa cidade e seu povo, de maneira a desconstruir de vez a visão equivocada que o brasileiro tem do seu nordeste. A cidade nos vai sendo apresentada, e, aos poucos, vamos nos aproximando das pessoas, da vida real, da humanidade e eloqüência de um povo ignorado nos filmes que usam eles próprios como figurantes. Em um momento é citada a indústria do cinema como exploradora da indústria da seca, no sentido de se aproveitar daquilo para benefício próprio e nunca enquanto denúncia social. Ana dá voz àqueles transeuntes calados dos outros filmes e transforma a paisagem através do próprio discurso fílmico.
Em seguida, uma moradora nos mostra uma cabaça; pergunta à documentarista e ao espectador o que conseguimos enxergar naquilo. Nós apenas enxergamos um coisa grande, seca e vazia. A mulher, por outro lado, mostra que, serrando-lhe a ponta, podemos nos servir daquilo para guardar água, mel, abrigar coisas maravilhosas, e potencializar sua aparência usando enfeites na parte de fora e colorindo aquilo que à primeira vista parece tão tosco e inabitável. Pode ser que nós, aqui em Minas Gerais, não tenhamos conseguido enxergar o que existe além da superfície árida assim, logo de cara, mas Ana Bárbara certamente conseguiu.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Cine Zé Sozinho
por Ursula Rösele
Cine Zé Sozinho mostra o trabalho de um morador da cidade de Caririaçú no Ceará, que realiza há muitos anos exibições de cinema – com vários clássicos nacionais – a preços baixíssimos para as pessoas. Dentro dos ideais de conservação dos filmes nacionais que estiveram na grande maioria de discussões na mostra de Ouro Preto, o curta traz com doçura e leveza o trabalho de uma pessoa simples que ama o cinema de uma forma ingênua, porém de muita pureza. O título evoca sua ‘solidão’ ao efetuar todo o trabalho da exibição desde a consecução dos filmes, do projetor e do trabalho que envolve a projeção, a disposição das cadeiras e até a venda de pipocas. Os planos são distribuídos da mesma maneira que a narrativa, sem muito apuro visual, em consonância com as condições (ou melhor, falta delas) do ‘protagonista’.
Existe ali a simplicidade daquele que não é estudioso ou teórico de cinema, mas compreende a necessidade de repensarmos nosso acervo histórico e as políticas de preservação dos filmes.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
O desafio de Zezão (idem, 2006/Patrícia Cornils)
Cine Zé Sozinho (idem, 2007/Adriano Lima)
Cabaceiras (idem, 2007/Ana Bárbara Ramos)
No rastro do camaleão (idem, 2007/Eric Laurence)







