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por João Toledo
Cão sem Dono: Beto Brant no coração da ação
por João Toledo
Ontem a interessantíssima programação da 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto trouxe-nos a um caro encontro. Um encontro com o cinema sem concessão de Beto Brant, com uma entrega visceral de um cineasta em busca de alguma resposta que emirja da imagem, algo ainda muito raro. Fica claro, desde o início da projeção de Cão Sem Dono, que este não é um filme sem dono. Fica explícita a entrega absoluta de seus atores, tanto quanto o cuidado intenso de seus realizadores nessa demonstração singela de grandeza.
A parceria de longa data entre Brant e seu produtor, Renato Ciasca, colide aqui em uma co-direção consistente, dando continuidade à trajetória de um de nossos maiores diretores contemporâneos. O filme é uma adaptação (ou um diálogo – como gostam de dizer seus realizadores) do livro “Até o Dia em que o Cão Morreu”, de Daniel Galera e recorta um trecho da vida de um rapaz arredio e cínico entre tentativas de se relacionar e se encontrar no mundo.
Entre fades que pontuam a vida de Ciro (Julio Andrade), se prestando quase como um respiro entre capítulos de um livro, assistimos a trechos muito íntimos da vida desse rapaz. O filme não constrói a ação dramática através de uma concatenação de planos, mas através de uma observação íntima da própria ação. Entre tempos-mortos, longos planos de diálogos e ações íntimas, a estética se faz a partir da ausência de participação por parte da câmera, que funciona quase como um olhar intrusivo e inadvertido de buraco de fechadura. Estética que torna o espectador um quase voyeur daquela ação. Não é a câmera-cúmplice de Crime Delicado, que compactua com as ações dos personagens através de sua passividade plena, mas mantém um pouco do que foi ali inaugurado, no filme anterior de Brant, permanecendo como elemento estranho e quase inerte no interior do drama daquelas pessoas, assistindo às construções por dentro.
O hiper-realismo adotado e a atuação impressionantemente naturalista de todo o elenco gaúcho reforçam a impressão de que estamos todos invadindo aquela realidade, através de pequenos recortes que nos são dados. No sentido do recorte realista, o filme lembra muito o belíssimo Vôo 93, de Paul Greengrass, com cenas que não começam nem terminam; são fatias de uma ação, onde se precisa procurar, na própria ação, nesse meio sem início ou fim, as motivações dos personagens que por ali passeiam, sem que se esclareça nunca o tempo decorrido entre cada elipse.
O protagonista é o próprio cão sem dono; permanece cético em relação a seus próprios sentimentos e, graças à dificuldade de lidar com o outro, permanece só em seu apartamento inóspito, esperando sempre uma aproximação que parta do outro. Ele é, de certa forma, dependente disso; se alimenta do carinho da namorada, do zelo dos pais, da amizade do zelador, da admiração do motoqueiro. A partir do ponto de quebra, do término de sua relação com Marcela (Tainá Müller), Ciro segue, vertiginosamente, rumo à sua autodestruição. No entanto, é a própria explosão pessoal, aliada à ajuda dos pais, que o leva a uma reflexão de seu estado enfermo, a uma busca em seu interior deteriorado e a uma tentativa de reconstrução de si, representada no filme pelo despir de sua barba rude e de sua personalidade ríspida. O personagem, depois de se livrar de todo o peso que o arrastava entre difíceis relações, vai se guiando rumo ao final de sua trajetória e à conclusão desse ciclo de sua vida quando é tomado de surpresa por um sopro lírico, em meio ao realismo seco do filme. É uma quebra no ritmo e na narrativa, em tom de sonho ou imaginação. O filme inteiro, que nos deixou de fora, sem interferência alguma na ação dramática, nesse momento final, nos aproxima do personagem e faz com que embarquemos com ele no lirismo do momento, deixando-nos a mesma dúvida que o personagem parece apresentar.
Ao fim, é isso que resta; a dúvida. Naquele riso ainda resta vestígios do cinismo descrente e desesperançoso do personagem, ou há esperança e alegria naquela demonstração espontânea? Depois da morte do cão e do fechamento daquele ciclo, minha tendência é pender para o otimismo, mas, como em todo grande filme, o que importa de fato é o miolo, o meio – ou os meios que carregam o filme, com suas estratégicas estético-narrativas, rumo ao final.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
Crime Delicado (idem, 2005/ Beto Brant)
Vôo 93 (United 93, 2006/Paul Greengrass)
Cão Sem Dono (idem, 2007/Beto Brant)







