por João Toledo

Benzedeiras de Minas, de Andrea Tonacci

por João Toledo

Benzedeiras de Minas, como o próprio Andrea Tonacci ressaltou no início da sessão, é um retrato singelo de mulheres que se ocupam de que algo que aos poucos se dissipa na modernidade, que não mais encontra eco ou razão nas novas gerações – o ofício de benzer. Tonacci diz ter partido não de uma motivação interna sua, mas de uma motivação externa, já que a proposta de realização do curta resulta de um edital de incentivo específico, voltado para questões etnográficas. O filme se ocupa de uma busca sincera e genuína; não há rancor nem desinteresse pelo sujeito de motivações externas. Mas, quando ressalta essas motivações, o diretor se ocupa de uma atitude política, pois traduz uma distorção de um sistema de incentivo diante do qual o artista precisa se adequar a demandas pré-existentes. É claro que há outras maneiras, nem todo edital tem um foco pré-determinado, mas, em menor ou maior grau, todos têm uma pauta, têm suas preferências e se interessam muito pouco por qualquer pesquisa estético-narrativa que não esteja necessariamente vinculada aos assuntos vigorantes, às questões da moda, principalmente de cunho histórico ou social.

Depois do enorme hiato entre Biblioteca Nacional (1997) e Serras da Desordem (2006), Tonacci parece dizer que fazer cinema hoje no Brasil é se adequar ao modus producendi; não se curvar a ele, nem se conformar, mas encontrar nele uma lacuna que te diga respeito, um espaço mínimo, singelo, algo que, ainda que seja externo, possa ser construtivo. Nesse sentido, muitas vezes o cinema de invenção vira memória, enquanto a memória (oficial, eleita do país) é inventariada ad eternum através da proliferação de editais voltados a tradições e manifestações regionalistas. E isso – em tempos de uma tão dita democratização da produção; tempos, na verdade, de profundo desgaste do poder da imagem ante o efeito banalizante de sua produção fetichista – é no mínimo triste, pois grande parte dessa produção de “catalogação” de uma “realidade” já sai da ilha de edição para virar peça de museu: produto que existirá como desencargo de consciência para que possamos continuar privilegiando as constantes e insistentes reproduções de próprias nossas vidas.

O que Tonacci faz, no entanto, em Benzedeiras de Minas, é tirar o foco de “registro audiovisual de um dado histórico que se perde” do filme: essa coisa mais ou menos asséptica de já chegar à realidade com o ímpeto de construir e registrar rituais em imagem pura, objetiva e – o pior – representativa de uma classe a ser arquivada. Ele se desvia da busca pelo ritual para focar, não no assunto, mas no sujeito. O que importa ali não é o ato de benzer, nem necessariamente a profissão, mas aquelas três mulheres e suas experiências. A introdução, de uma simplicidade e síntese chocantes, feita sobretudo de fusões e sobreposições de imagens, ambienta aquelas mulheres no universo particular de cada uma. Os objetos e espaços, mais do que trazerem significações ou representarem as três mulheres, atestam suas trajetórias. Não se trata apenas de imagens de objetos, mas de acúmulos de memórias, acúmulos de tempos sobrepostos que repousam sobre o presente. E a montagem organiza esse universo de acúmulos sem o peso habitual do signo religioso.

Toda a importância é logo voltada às mulheres, ao corpo, à história inscrita na pele daquelas três senhoras e recriada nas histórias relatadas por elas. Estamos diante da história de suas vidas – e de seu desaparecimento. O relato singelo de cada uma delas, apaixonadamente entregues ao que fazem, é apenas guiado por Tonacci sem que haja qualquer tentativa de intervenção, antropológica ou cinematográfica. Ele está lá – assim como estamos nós, diante da tela – na condição de ouvinte dos relatos, um interessado apenas. E que diferença faz a atenção de um interessado. Ali existe tempo para o silêncio, espaço para a respiração, para o gesto espontâneo e para a retomada do raciocínio. As três senhoras podem existir nesse espaço cênico – não são apenas representadas por pequenas falas e ações, apenas inventariadas como arquivos.

 

Filmes citados:

Benzedeiras de Minas (Idem, 2008/Andea Tonacci)
Serras da Desordem (Idem, 2006/Andrea Tonacci)
Biblioteca Nacional (Idem, 1997/Andrea Tonacci)