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por João Toledo
Leonera & Mundo Grua
Desde seu primeiro filme, Mundo Grua, passando por Do Outro Lado da Lei e Família Rodante até chegar a seu mais recente trabalho, Leonera, Pablo Trapero demonstra especial interesse por eleger determinados personagens e fazer deles joguetes do destino. Somos apresentados a personagens em aberto, em processo de construção; nós os descobrimos à medida que o próprio filme os descobre. Não estamos diante de protótipos, humanóides, fórmulas ou tipos que perambulam por entre cenas, mas diante de seres parcialmente nublados, de homens incompletos, sem início nem fim definidos, sem passado e, como já foi dito, com um futuro de certa forma imposto. Esse âmbito para o qual seus personagens são atirados, esse espaço criado pelo inesperado deslocamento do projeto de vida deles, se revela um ambiente de pesquisa bastante fértil. Os personagens – que acompanhamos sempre de tão perto, como se estivéssemos presos ao destino que lhes fora oferecido – são objetos de interesse que terão suas rotinas escrutinadas pela câmera atenta; e o confinamento em Leonera proporciona isso de maneira especial.
Cada escolha e cada ação dos personagens têm seus sentidos recolhidos à própria imagem. Não há resíduos, sobras de pensamentos extra-imagéticos. O que está ali, diante de nós, exercendo sua plenitude de razão na própria existência visual, não carece de explicações filosóficas, “psicologizantes” ou “sociologizantes”. O discurso é a própria imagem; e ela não significa, não representa um sentido metaforizado. A imagem em Trapero existe como substantivo e não adjetivo, porque a câmera não descreve as cenas; a câmera abriga as cenas. Há uma atenciosa proximidade, um olhar cuidadoso. Mas essa proximidade – cada vez mais em sua obra, e principalmente em Leonera – é simples, aquietada, cadenciada. A urdidura parece etérea, invisível. É claro que há uma construção por trás, mas não se pretende nada mais que criar aquele universo particular; seus personagens não parecem intencionados a representar determinada camada social, o enredo não procura uma moral ao fim. A legitimidade das ações não depende de razão de ser, nunca é subjugada à necessidade de fazer sentido.
Nesse espaço do transcurso de ações cujos sentidos são desimportantes, convivemos com personagens que, sendo eles fortes ou frágeis, nos levam por suas trajetórias. Seguimos o movimento de seus corpos, mesmo alienados das motivações de cada escolha e nos interessamos pela forma como buscam se adaptar ao destino. Nada nos é respondido, mas a perspectiva adotada é tão próxima, tão íntima e singular, que cada expressão, cada diálogo parece coerente, às vezes inevitável; são traços de um desenho mínimo que se afigura sem revelar seus rumos.
Em Mundo Grua, não sabemos exatamente o que leva Rulo a desistir do emprego, tampouco o motivo que o fizera desejar tanto trabalhar nas gruas, mas seguimos viagem com ele, nos despedimos de todos e mais tarde o acompanhamos em sua volta para casa. Em Do Outro Lado da Lei, Zapa é de tal forma carregado pelas decisões das pessoas à sua volta que em momento algum é possível imaginar o que se passa em sua cabeça, entretanto, acompanhamos de perto sua ida a Buenos Aires; juntos com Zapa, somos tragados e em seguida expulsos da casa de sua amante. Vemos sua própria vingança ser arquitetada e manipulada por outro e, ao final, voltamos com ele pela estrada. O mesmo em Família Rodante: acompanhamos a avó ao longo da viagem e, quando a família parte, ficamos com ela, restamos em seu rosto cheio de tristezas, mas opaco de explicações. Em Leonera isso é ainda mais forte. Não sabemos sequer o que aconteceu para que a moça fosse presa, se é inocente ou culpada. Não obstante, continuamos ao seu lado, seguimos seus passos quando ela atravessa os longos corredores de celas, somos também trancafiados na solitária. Não existe ação paralela no cinema de Trapero, apenas existe o mundo através daquela personagem, através de suas escolhas.
A matéria prima em Leonera é Julia, personagem que aos poucos vai sendo despida de todos os ideais e pudores anteriores à prisão. Assistimos aos louros cabelos se escurecendo, à necessidade de afeto despojando-a de preconceitos, de valores morais, e vemos seu desespero se transformar em amor pelo filho, em apego tenaz. Ainda que o movimento de retorno ao lar sempre surja de maneira muito forte na obra de Trapero, esse retorno não serve para dirimir o desamparo de seus personagens. Rulo está a sós na estrada, desempregado, Zapa segue a andar a pé, mancando, pelo caminho vazio, Emilia se senta na varanda e assiste ao trailer da família sumir ao longe. Em Leonera, no entanto, a personagem, que estava a sós quando a conhecemos, já não está mais sozinha ao final – como ela própria faz questão de afirmar. Pela primeira vez, um personagem desamparado de Trapero precisa encontrar equilíbrio para amparar esse outro alguém que faz parte dela.
Nesse sentido, ao contrário dos usuais retornos para casa, que pareciam funcionar mais como fugas, a fuga de Julia ao final também parece funcionar mais como um movimento de busca desse lar inexistente, desse lugar que é mais conceitual que físico, que não tem endereço fixo. Ela está numa balsa, atravessando um rio, uma fronteira invisível. Não nos é mostrado em detalhes onde estão ou para onde vão, a câmera permanece no rosto de Julia e de seu filho. Faltam apenas alguns metros. Talvez ela não saiba exatamente para onde ir, mas dessa vez vai a algum lugar. Dessa vez, há um movimento de procura, e somos deixados assim, diante dessa busca. Ficamos na balsa, na Argentina, atravessamos de volta a fronteira invisível e deixamos que ela se vá.
Há em Leonera uma forte libertação. De toda a obra de Trapero, esse talvez seja o filme onde o destino é mais severo, mas é também onde o final é mais venturoso. E, ainda que sem respostas, enxergamos aquela mulher de perto, vivemos sua intimidade e sua opacidade ao mesmo tempo. Aqui sim estamos diante de um legítimo realismo. Não de um mero modelo que reprisa a estética naturalista mascarando sua estrutura formulaica. Em Trapero, é justamente esse desligamento da necessidade de impingir significados às coisas que potencializa a expressividade das ações dos personagens, pois são ações humanas, plenas de verdade.
Filmes citados:
Leonera (Idem, 2008/Pablo Trapero)
Família Rodante (Familia Rodante, 2004/Pablo Trapero)
Do Outro Lado da Lei (El Bonaerense, 2002/Pablo Trapero)
Mundo Grua (Idem, 1999/Pablo Trapero)







